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Anciã à deriva em Nampula

Na cidade de Nampula, dezenas de idosos vêm a sua dignidade violada. Alguns chegam a sofrer agressões físicas e psicológicas. Na maioria das vezes são os próprios familiares que protagonizam tais actos desumanos. A anciã Fátima Amade, de 75 anos de idade, natural de Angoche, é exemplo disso. Foi afastada do convívio familiar pelos seus próprios filhos e netos e, por um golpe de sorte, beneficiou do acolhimento da Comunidade de Sant’Egídio.

A história começa no ano de 2005, depois de o seu marido perder a vida vítima de doença. Naquele altura, a idosa começou a passar por momentos difíceis, pois não tinha como garantir o seu sustento. Volvidos quatro anos marcados por muito sofrimento, o seu filho, Paulino Cristóvão, decidiu levar a sua progenitora a fim de viver consigo na cidade de Nampula. Já na considerada capital do norte, um novo calvário tomou conta da vida daquela idosa. Ela passou a sofrer de maus- -tratos perpetrados pela sua nora. O que parecia uma ajuda transformou-se num autêntico pesadelo.

Diariamente, a idosa era violentada verbalmente pela esposa do seu filho que deixava claro que ela não passava de um peso naquela casa e que devia abandonar aquele local. Entretanto, quando Paulino regressava das suas viagens de trabalho, era confrontado com informações segundo as quais a sua progenitora desrespeitava a nora. Sem, no entanto, procurar saber o que realmente se passava, o jovem acusava a mãe de pretender destruir o seu lar. “Eles diziam que eu era um peso, porque já estou velha e não tenho família. O meu filho expulsou-me de casa alegando que eu pretendia destruir o seu casamento”, lamentou Fátima.

Depois de tanto sofrimento, a idosa foi despejada daquela casa, tendo optado por arrendar uma habitação no bairro de Muatala, mesmo sabendo que não tinha dinheiro para honrar o compromisso. Passados alguns meses, a proprietária da residência na qual a idosa passou a viver e que entendia a situação por que ela passava, divorciou-se e, por conseguinte, teve de abandonar aquela casa. Sem alternativa, Fátima viu-se também obrigada a deixar a moradia. E, para sua sorte, foi convidada a residir na casa dos pais daquela senhora. “Senti-me aliviada quando me convidou para ir viver com ela”, afirmou.

Algumas semanas depois, os proprietários daquela residência pediram para que a anciã se retirasse da casa onde se encontrava a viver, uma vez que dependia dos mesmos e que no seu entender também constituía um peso para aquela família. Começava assim um outro calvário para a idosa, que passou a viver ao relento, exposta ao sol e à chuva. Nos princípios de 2013, a vida daquela cidadã passou a conhecer melhorias, depois de ter sido encontrada por um jovem que faz parte da Comunidade de Sant’Egídio, que por sua vez tratou de ajudar a idosa. Ele arrendou uma casa e depois deu a conhecer o caso àquela instituição de caridade. Por seu turno, a Sant’Egídio dispôs-se a custear o pagamento da renda de casa e alimentação.

“A neta foi a única que não se revoltou”

Amélia Fernando é neta da anciã marginalizada. Ela explicou que no período em que o seu tio e a sua esposa despejaram a sua avó do seio familiar, ela não se encontrava na cidade de Nampula. Estava a fazer os seus negócios no distrito de Gilé, provincial da Zambézia.

“Eu só tive a informação de que a minha avó se tornou numa sem tecto, quando regressei à cidade de Nampula, mas não tive como ajudar, pois dependia do meu marido e não podia levá-la sem conversar com ele. Na altura, não tinha residência fixa nesta cidade”, disse Amélia.

A iniciativa de ajudar a sua avó viu-se frustrada, depois de se ter desentendido com o seu marido e, posteriormente, se divorciado. Mas, de tempos em tempos, visitava-a e dava o pouco que tinha de modo que a idosa não passasse fome. Amélia acusa os seus tios de não querem ajudar a anciã. “Os filhos que ela tem nem sequer compram sabão para ajudar a sua mãe. Quando são confrontados com a situação em que devem ajudar, estes não o fazem, ou seja, ninguém ousa tiram um centavo pelo menos”, disse.

Sant’Egídio, a esperança dos idosos em Nampula

O projecto de ajuda aos idosos em Nampula iniciou 2009, depois de uma idosa que já não faz parte do mundo dos vivos ter sido expulsa do seu seio familiar, no bairro de Muahivire, arredores da cidade. Foi através de uma denúncia feita por um dos jovens que faz parte daquela agremiação que os responsáveis pelo programa de ajuda aos idosos ficaram a saber. Liderada por Américo Sardinha, a Comunidade de Sant’Egídio criou um novo projecto que tinha como o principal objectivo cuidar dos idosos e garantir um lar condigno a todos.

Sardinha disse ao @Verdade que a comunidade é defensora dos direitos humanos, daí que todos os cidadãos, com maior destaque para os idosos, têm direito à respeito e atenção. Aquele responsável defende que, em Nampula, em cada 10 idosos, três deles sofreram algum tipo de violação perpetrada pelos familiares e uma parte considerável dessa estatística deixou de fazer parte do mundo dos vivos, em consequência de maus-tratos.

Por outro lado, Sardinha fez saber que a maioria das pessoas que protagonizam actos de maus-tratos em relação aos idosos é constituída por cidadãos informados, mas que agem como se não tivessem informação de que aquela acção é um crime punível. O nosso entrevistado apontou para a falta de divulgação das leis que protegem os idosos como sendo uma das causas que impede a pessoa idosa a viver com dignidade. “Em Moçambique, se houvesse uma lei que protege os idosos, os casos que envolvem maus-tratos contra aquela camada social seriam reduzidos”, disse.

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