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‘@Verdade Cor de Rosa: Adeus Mestre…

Conheci-o na cidade do Porto, numa altura em que a África Lusófona ainda não estava na moda. Foi em 2004, no Outono, e esse dia teve um gostinho especial. Se bem me lembro havia um encontro no ‘Espaço Moçambique’ – na Ribeira onde estava o jornalista Leonardo Jr. , o Dr. Macedo Pinto e outras figuras ilustres para uma “miúda” que andava ali a tentar fazer uma reportagem sobre as boas relações entre os dois países.

 

 

Fui muito bem recebida e até saiu matéria! Queria engrenar em “assuntos lusófonos”, uma vez que estava ainda na ressaca da minha primeira vez na Pérola do Índico, em 2003. Quando ouvi dizer que o Malangatana estava por lá tremi! Tive um misto de desejo e medo. Sim, medo. Tipo aquele friozinho na barriga quando achas que és ‘muita tontinha e não dás uma ‘pá caixa’.

Isso tinha-me acontecido também quando entrevistei o Dr. Pascoal Mocumbi, nas minhas aventuras jornalísticas em Maputo e os meus colegas da STV, na altura, me disseram que nunca tinham visto “Sua Excelência, o 1º Ministro a falar tão sério com um jornalista”. Achei graça e eles brincaram a dizer que era do sotaque “tuga”. Não levei muito a sério, mas depois fez sentido quando o conheci.

De volta ao Porto, desculpem mas tenho o péssimo defeito da minha Mãe de misturar assuntos, conheci o Malangatana. Aquele homem imponente que nos enfeitiçava através dos mesmos olhos com que nos olhava. Em segundos passou do artista intocável a um amigo e futuro guia da minha identidade. Até hoje a mistura de sangue angolano, português e moçambicano ainda me troca as voltas mas ele, o Mestre, tocou lá no ponto.

Moçambique. Começou por me perguntar de onde era. Disse-lhe que era “alfacinha” assumindo a “animal” rivalidade com o pessoal do Porto, ‘carago’! Riu-se e, logo a seguir, perguntou-me se tinha família em Maputo. Respondi prontamente que o meu Pai era “de lá” e a minha Mãe de Angola. O que era suposto ser uma entrevista tornou-se uma longa conversa onde eu fui a entrevistada.

Mais tarde convidou-me para visitá-lo em casa da sua filha que, por sinal, era bem perto de onde eu vivia! Tive de explicar mais de dez vezes ao “Peixinho” – o meu namorado da altura – a importância que tinha este convite do Malangatana. Até recorri à internet para justificar a boleia dele naquela noite fria.

Finalmente ia conseguir fazer a entrevista ao Mestre que só tinha visto ao longe durante a minha anterior estadia em Maputo. Essa entrevista nunca aconteceu. Continuámos essa longa conversa, até altas horas da noite com a companhia da sua filha e descobrimos diferenças e semelhanças que vou guardar para o resto da vida.

Também nunca mais me vou esquecer do momento em que me disse: “Minha filha… tu tens de voltar para Moçambique, com esse teu bonito português, e trabalhar com o nosso povo. Tens de visitar Matalana! “ Hoje, ontem e durante estes quase seis anos nesta caminhada, posso afirmar que estou cá graças a ele.

Sem esquecer a minha irmã Natacha que foi uma heroína em procurar-me. Malangatana deu-me tempo para eu me descobrir e revelou uma humildade, tão grande como a sua alma, para me perceber. Nunca me considerou diferente e até viajámos juntos pelo imaginário das ruas de Telheiras, em Lisboa, onde passei a minha adolescência, tanto como nas ruas de Maputo onde eu era recém-chegada.

Não fui a única a quem ele ofereceu o seu cartão-de-visita – Moçambique. Ouve quem soubesse mergulhar nesta aventura humildemente, quem até agora não entende a importância de o Malangatana ter passado na sua vida e também há aqueles que agora choram… lágrimas de crocodilo.

Do meu lado… Quis o destino que os nossos caminhos se cruzassem, primeiro no Porto, depois em Maputo e agora, mais recentemente, em Matalana quando disponibilizava o seu Reino para todas as manifestações de arte e, em particular, para actividades que defendessem os direitos das crianças e que – ironicamente – se conjugam com a direcção que decidi tomar em relação à minha profissão. O activismo. Não estávamos sempre juntos, mas sei que caminhámos lado a lado e continuarei a seguir os seus olhos, através dos meus.

Malangatana era um grande Homem, um Pai de muitos filhos, um Amigo, um Guia, um Visionário, um Activista, um Artista… Era completo.

No fim desse encontro, na cidade do Porto, desenhou para mim a altas horas da noite o “Meu primeiro Malangatana” num bloco de notas da revista ‘Vogue’ que levava para o entrevistar. Com a mesma rapidez como o fez para o Machado da Graça na sala de espera para uma reunião (in, jornal Savana). Guardo-o até hoje, bem como as suas palavras sábias. São o meu tesouro.

Kanimambo Malangatana!

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