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A voz da juventude

A voz da juventude

O país e o mundo celebram no próximo domingo, 12 de Agosto, o Dia Internacional da Juventude, uma efeméride introduzida e adoptada por uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1999, em resposta à recomendação da Conferência Mundial dos Ministros da Juventude, que decorreu em Lisboa, entre os dias 8 e 12 de Agosto de 1998.

Por isso, o @Verdade saiu à rua para colher a opinião dos jovens em relação aos problemas por que eles passam, as dificuldades que têm enfrentado para que a sua voz se faça ouvir.

Basicamente, as questões a eles colocadas tinham a ver com:

• O desempenho dos jovens deputados quando se trata de assuntos que dizem respeito à juventude;

• As respostas que o Governo tem dado às inquietações da juventude;

• Os problemas com que a juventude se debate;

• A existência de classes desfavorecidas e as suas causas;

• A ideia generalizada de que quem se opuser ao Governo ou propuser alternativas às medidas do mesmo terá as portas do mercado do emprego vedadas.

Nelson Armando Tamele

Na opinião de Nelson Tamele, os deputados jovens não representam os interesses e anseios da juventude moçambicana. “Eles estão ali para resolver os seus problemas particulares, ou seja, de um punhado de pessoas. Aqueles jovens deputados já foram formatados pelos seus partidos nos quais militam. Têm agendas diferentes das do povo”.

Para Nelson, a situação torna- -se pior ainda quando se fala do que o Governo do dia faz para responder aos interesses e anseios da juventude deste país, que constituem a maioria da população moçambicana, estimada em pouco mais de 22 milhões de habitantes.

“Os jovens sentem-se desamparados pelo Governo, excepto uma minoria destes que têm mais facilidades e oportunidades em relação aos outros, ou porque têm um pensamento ao estilo da ideologia do partido que suporta o Governo, ou porque são descendentes de antigos combatentes ou de dirigentes. Mas estes são uma gota de água no oceano, pelo que o seu número não é representativo”, comenta.

No que diz respeito aos problemas que a juventude moçambicana enfrenta, para o nosso entrevistado, o desemprego e as di ficuldades de acesso ao ensino, sobretudo ao nível superior, e o acesso ao emprego na Função Pública são os mais preocupantes.

Questionado sobre se em Moçambique existem classes desfavorecidas, este jovem disse que “isso está mais do que claro. As classes resultam das díspares condições sociais e financeiras dos moçambicanos. Existem certas pessoas que vivem num el dorado, mas também há tantas, que constituem a maioria, que todos os dias convivem com a fome e a miséria”.

Dalton Tembe

“Sem querer ser simplista e pessimista demais, devo dizer que até certo ponto as coisas estão num bom rumo, ou seja, os deputados jovens na Assembleia da República tudo fazem para representar os interesses da juventude moçambicana de um modo geral”, é assim que Dalton Tembe respondeu quando questionado sobre se os jovens deputados representam os interesses da juventude moçambicana.

Para Dalton, tendo em conta as intervenções de alguns jovens parlamentares, pode-se depreender que eles questionam muito as políticas públicas do Governo para as áreas da habitação, mercado do emprego, educação, en fim, em relação a tudo aquilo que directa ou indirectamente tem a ver com a vida dos jovens. “Felizmente eu tenho acompanhado muitas sessões parlamentares e, olhando pelas intervenções quer sejam dos jovens deputados do partido no poder, quer sejam dos jovens dos partidos da oposição, concluo que elas convergem no bem-estar e mais oportunidades para os jovens”, ajunta.

O nosso interlocutor considera que o Governo tem feito algo em prol da juventude e que se a rmasse o contrário estaria a ser “radical e pessimista demais se dissesse que o Governo deste país nada faz em prol do bem-estar da juventude moçambicana. Há cada vez mais oportunidades para os jovens. Se olharmos para o Aparelho do Estado, podemos constatar que há cada vez mais jovens a entrarem, isso já é um bom sinal”.

Em relação aos problemas, o desemprego e as di ficuldades de ingresso no ensino superior são um revés a ultrapassar. Para Tembe, um facto não menos preocupante é a falta de habitação própria para uma esmagadora maioria dos jovens moçambicanos.

Segundo sugere, o Governo devia traçar boas políticas de habitação, massi ficar o acesso ao ensino superior, mormente às instituições públicas, pois nem todos têm condições para estudar em estabelecimentos de ensino privados.

Para este jovem, actualmente, há uma sensação de que o jovem que falar contra ou criticar o Governo terá as “portas fechadas” no mercado do emprego, isto porque eles (os jovens) estão com as mentes e convicções padronizadas ao estilo das ideologias políticas pró-governamentais e partidárias. Mas também o Governo é culpado porque chama de inimigos àqueles que são críticos ao sistema.

Ramiro Cumbi

“É verdade que temos jovens parlamentares na Assembleia da República, mas que claro que eles não representam os interesses da juventude moçambicana. Eles estão ali para cumprir as agendas dos seus partidos políticos. As suas mentes foram formatadas pelos partidos”, é o que considera Ramiro Cumbi quando convidado a tecer comentários acerca do desempenho dos jovens parlamentares.

Para Ramiro, o desemprego, a falta de habitação e as di ficuldades de acesso ao ensino superior são os maiores inimigos da juventude moçambicana e, aparentemente, o Governo pouco ou nada faz para estancá-los. “Temos muitos jovens que concluem o nível médio mas não conseguem ingressar no nível superior e porque muitos não têm condições para frequentar instituições de ensino privadas, ficam de fora, embora tenham o nível médio concluído. Se dantes construir não era um bicho-de-sete-cabeças, o mesmo não se pode dizer em relação aos dias de hoje, em que erguer uma casa própria é um luxo e para alguns um sonho que não passa de uma miragem”.

O nosso entrevistado diz que o Governo peca ainda pelo facto de se dar ao luxo de anunciar concursos públicos cujas vagas foram previamente ocupadas ou preenchidas. Fazem-no só para se pensar que eles (governantes e dirigentes deste país) dão oportunidades aos jovens.

“Infelizmente estamos num país em que a meritocracia, o saber fazer e a competência já não fazem sentido e foram substituídos pelo favoritismo, pela cunha e pelo cabritismo. Do Aparelho do Estado só fazem parte os que forem do partido no poder, ou seja, confundem- se muito os conceitos Estado e Governo”, comenta.

António da Cruz

Para este jovem os deputados moçambicanos no seu todo eximem- se da sua responsabilidade. Eles não são os ditos representantes do povo, só estão ali para representar os seus interesses particulares em detrimento da maioria.

Relativamente aos jovens deputados, Cruz a firma que os mesmos ocupam os assentos parlamentares para cumprir com as agendas dos seus partidos políticos. “Infelizmente há muitos problemas e preocupações que tiram o sono aos jovens moçambicanos, mas nunca são debatidos na Assembleia da República. Se a Liga da Juventude Parlamentar funcionasse de forma independente, talvez pudéssemos ter um cenário diferente do actual”, comenta.

No que tange aos problemas que afectam a juventude moçambicana, à semelhança dos outros entrevistados, António da Cruz aponta o desemprego e a falta de habitação, e a firma ainda que o acesso ao ensino superior continua a ser um bico de obra. “Muitos jovens fazem o nível médio com notas fascinantes, mas não conseguem ingressar em instituições de ensino superior públicas. Outros fazem a licenciatura e continuam como fardos para os pais porque não têm emprego”, justi fica.

Sobre a ideia de que existe censura no seio do Estado e do partido que sustenta o Governo, ele diz que tal deriva do facto de os governantes quererem incutir nos jovens um pensamento conformista e acrítico. O Governo é que tem feito com que sempre se confundam os conceitos de Estado e Governo. Quem estiver no Aparelho de Estado não pode falar mal do Governo, porque se o fizer é perseguido e, na pior das hipóteses, expulso da instituição”.

Sobre o desempenho dos jovens deputados e o seu contributo na resolução dos problemas da juventude

Edgar Barroso

Pode até existir um e outro caso isolado, mas considero bastante insu ficiente. Falo primeiro da legitimidade (a maior parte deles está para lá do que o ficialmente se considera jovem em Moçambique, que vai dos 18 aos 35 anos). Duvido muito que haja alguém abaixo dos 35 anos.

Todos eles têm a vida feita e não vivem na pele os dilemas pelos quais a grossa maioria dos jovens moçambicanos por todo o país tem passado… Praticamente todos têm um curso superior, casa própria, múltiplos empregos ou fontes de rendimento (para além da condição de deputados). Nunca ouvi, li ou vi deles, publicamente, qualquer opinião, parecer ou pronunciamento em torno das centenas de milhares de jovens que não podem continuar os seus estudos por constrangimentos financeiros ou de vagas, das centenas de milhares de jovens que não têm perspectivas nenhumas de obter ou construir habitação própria, nem em relação às oportunidades de acesso ao mercado de trabalho.

Quem é que representa, no nosso Parlamento, os interesses dos jovens que sobrevivem vendendo recargas de telemóveis nas esquinas das nossas cidades, ou dos que ganham a vida carregando sacos de um lado para o outro? Quem representa os interesses dos jovens que colocam em perigo a sua saúde por consumirem bebidas alcoólicas de fabrico e qualidade duvidosos, cuja comercialização é impulsionada, tolerada e não regulamentada?

Quem é que representa, no Parlamento, os interesses dos alunos e estudantes que reprovam sistematicamente ou passam de ano administrativamente, nas nossas escolas e faculdades? Quem é que representa, no nosso Parlamento, os interesses dos jovens que, mesmo trabalhadores ou a viver de negócios por conta própria, não são deliberadamente seleccionados ou financeiramente elegíveis aos programas e projectos de aquisição de habitação promovidos pelo Estado moçambicano?

E o Governo?

Somos, como jovens, mais de metade da população moçambicana… Quantos membros do Conselho de Ministros são o ficialmente jovens?! A maior parte deles tem mais de 40 anos. O Governo é composto por uma elite política (e que se confunde com a social e a nanceira, em Moçambique), por membros do partido no poder e que lá estão por extrema con fiança política.

Têm todos a vida feita (habitação, educação e a reforma asseguradas, para além de movimentarem negócios em múltiplas sociedades empresariais ou pessoais). Nunca passaram ou têm passado necessidades (fome, transporte, educação de qualidade, habitação própria ou acesso a empregos com remuneração regular e condigna). Acham mesmo que esses representam os interesses dos milhares de moçambicanos plantados nas paragens de chapa, com o olhar prenhe de desespero para ir ao trabalho ou regressar às suas casas, na hora de ponta?

A elite governativa representa os interesses dos cidadãos deste país que viajam, apinhados como bois e sem protecção nenhuma, em carrinhas de caixa aberta de um para outro ponto das nossas cidades e arredores? Dos que morrem por falta de atendimento rápido, na la dos hospitais, centros e postos de saúde públicos? Este Governo representa os interesses dos nossos alunos e estudantes que aprendem a ser acéfalos, básicos e super ficiais nas nossas escolas e faculdades?

Que soluções propõe?

A juventude, particularmente a segregada, desfavorecida e excluída, deve acordar… Ser mais activa e exigente. Saber reivindicar os seus inalienáveis direitos e impor o cumprimento incondicional dos deveres e obrigações do Estado e do Governo. Consciencializar-se, organizar- se, sair à rua e manifestar-se. Boicotar as aulas e exigir melhor qualidade de ensino e de aprendizagem. Exigir e dar até a própria vida, se necessário, para que tenha mais e melhores escolas, excelentes professores, transportes públicos regulares e su ficientes.

Deve questionar veementemente a razão da sua exclusão das políticas públicas de acesso a recursos e demais oportunidades de emprego e de habitação. Impor quotas de representação no poder político (ao nível dos partidos políticos, no Governo, no Parlamento, nos municípios, nas Assembleias Provinciais, nas instituições públicas centrais e locais, bem como nos negócios do Estado).

A juventude deve romper com as amarras tradicionais de organização, representação e participação que a remete ao servilismo e instrumentalização por uma porção ín fima de “anciãos” já a entrar para a terceira idade! Reestruturar todas as organizações juvenis umbiguistas e amordaçadas pela falácia da “doutrina partidária” e iniciar, vigorosa e decisivamente, aquilo que eu chamo de luta mental de libertação juvenil.

Existência de classes desfavorecidas

Claro que existem! Não são apenas os jovens que não se identi ficam ou não estão liados no partido no poder ou num e outro partido político na oposição. Aliás, até nos partidos da oposição há elites, mais ou tão ricas quanto as que militam no partido no poder… Não são apenas os camponeses e pescadores das aldeias remotas do nosso país. Hoje temos pessoas a contorcerem-se de fome e miséria mesmo ao lado de mansões luxuosas ou condomínios com cerca eléctrica nos muros.

Vemos carros luxuosos com um só passageiro a passar na cara dos desgraçados deste país, apinhados em paragens como as do Museu e da Baixa da cidade de Maputo, só para citar um exemplo. Filhos da nossa elite política que têm apartamentos de luxo nos nossos países vizinhos, enquanto a maior parte da nossa juventude vive ainda na casa dos pais… Filhos de dirigentes superiores do Estado a gastarem dez salários mínimos numa única noite em “lounges” com o direito de admissão às universidades reservado, enquanto uma larga maioria de jovens não tem sequer dinheiro de chapa su ficiente para ir e voltar da escola ou da faculdade.

Pessoas que gastam numa única refeição o que uma família de cerca de cinco membros não consegue numa semana, para o seu sustento. Jovens que são graduados pelas nossas universidades aos milhares, anualmente, mas que nem 5% deles conseguem colocação imediata no mercado de emprego…

Trabalhadores que não têm a tão propalada “capacidade de endividamento” para se candidatarem às casas que têm vindo a ser construídas com o erário público mas que volta e meia bene ficiam a elite político- financeira, os seus descendentes e famílias alargadas, que muito bem podem construir as suas próprias residências! Isso não é exclusão? Não é um deliberado desfavorecimento? Não é exploração institucionalizada e promovida pelo nosso próprio Governo?

As nossas políticas públicas têm alargado, como nunca, o fosso entre os privilegiados e os “apátridas” da nação. Há um esforço deliberado por parte da elite política de manter ou reforçar esse distanciamento, para melhor manter o seu domínio e áreas de in fluência económico-financeira.

A juventude tem de começar a questionar a origem social dos jovens “empresários de sucesso”, dos jovens que são altos funcionários das empresas públicas ou dos bancos privados que aparecem como cogumelos ultimamente, bem como da origem social dos que conseguem excelentes empregos nas empresas multinacionais que têm sido atraídas pelos nossos recursos. E a origem social dos que não o conseguem, obviamente.

Ideia generalizada de que o jovem que criticar o Governo ou apresentar alternativas às suas medidas terá as portas do mercado de emprego fechadas.

Creio que isso tenha sido um mito que se foi institucionalizando e generalizando ao longo do tempo e em função das experiências passadas ou vivenciadas por um e outro indivíduo. Efectivamente, tem havido exemplos de sucesso e de fracasso, em função do grau de silêncio ou de “barulho” em torno da ine ficácia das nossas políticas públicas.

Isso é re flexo da falta de informação e de insufi ciências ou de ciências na nossa cultura de cidadania. Quem sabe muito bem até onde vão os seus direitos, deveres e obrigações não se deixa intimidar por essas “frases ditas” para atro ar a liberdade de expressão dos jovens. Quem detém hoje o poder já foi no passado também jovem e sabe muito bem o que um jovem pode fazer. Então desenvolveram uma técnica de propaganda que inibisse a juventude, particularmente a económica e conscientemente vulnerável, de se indignar ou confrontar abertamente o Governo.

Ora, quem é o Governo senão umas três dúzias e meia de cidadãos a quem foi delegado o poder de executar o nosso bem comum? Atenção… Eles estão lá para servir a povo (milhões de indivíduos), responder às suas inquietações, necessidades e aos seus interesses, bem como para os ouvir, proteger e respeitar. Eles não são os donos do país. Nunca o foram e jamais o serão.

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