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A vida por um fio

A vida por um fio

O aborto inseguro, desde a década de 90 reconhecido pelas Nações Unidas como um grave problema de saúde pública, quando realizado sob condições precárias, tais como por pessoas sem capacitação e em ambientes sem os mínimos padrões sanitários, causa sequelas na mulher, para além de que há vários relatos de óbitos por causa dessa prática.

Para além de ser uma das principais causas de morte materna, em Moçambique, grande número de expulsões espontâneas ou voluntárias de um feto ou embrião, antes do tempo e sem condições de vitalidade, são feitas clandestinamente.

Os obstetras de diferentes hospitais do país têm relatado acontecimentos de muitas mulheres, principalmente jovens e adolescentes, com profundas infecções por causa do aborto clandestino. Há que frisar que as intervenções a que são submetidas algumas praticantes deixavam-nas, por vezes, estéreis( sem poder ter filhos) e, na pior das hipóteses, morrem.

Na província de Nampula, o @Verdade contactou duas adolescentes cujas vidas estiveram por um fio porque procuraram resolver o problema da gravidez indesejada através de vias não recomendáveis, pondo em risco a sua saúde por razões sociais, económicas, familiares, dentre outras.

Sónia, de 15 anos de idade, engravidou e aos três meses de gestação foi forçada pelos pais a viver no domicílio do seu namorado, também adolescente. Diga-se que foi expulsa de casa e é desta forma que muitos progenitores ou encarregados de educação têm resolvido situações idênticas.

Sem o apoio da sua família, e tão-pouco do seu futuro marido – inexperiente como a mulher, a quem os ascendentes ainda sustentavam e era dependente em tudo – a rapariga nunca conseguia responder a uma pergunta: uma vez grávida, como sustentar um filho sem trabalho e sem o auxílio dos mais velhos?

A solução, definitiva, encontrada para essa interrogação foi não pensar nas consequências de interromper uma gestação inadequadamente. Sónia recorreu aos préstimos de uma médica tradicional para abortar. Foram-lhe dada duas opções: introduzir algumas raízes no órgão genital ou ingeri-las. A rapariga optou pelo primeiro método, pois, de acordo com a mesma, o segundo não era fiável e levava muito tempo a produzir efeitos. Tratou-se de um processo instantâneo, porém, acompanhado de fortes dores de barriga e muita perda de sangue. “Fiquei assustada com o meu sangue porque era muito escuro”.

Uma semana depois da interrupção da gravidez, a adolescente ainda sofria de dores, sobretudo quando defecava e urinava. Por vezes, esses dois processos biológicos exigiam um grande esforço. Volvido algum tempo, a nossa entrevistada expeliu novamente muito sangue na altura em que urinava. Assustada, ela dirigiu-se a um posto de saúde, donde foi transferida, entre a vida e a morte, para o Hospital Central de Nampula (HCN), local em que se constatou que Sónia havia contraído lesões no órgão genital.

“Quando ela (a médica tradicional) introduzia as raízes eu sentia muitas dores, era como se algo estivesse a raspar a minha bexiga, mas a senhora pedia para ter calma dizendo que era o efeito dos remédios”, contou a adolescente, que foi submetida a três cirurgias. Ao terceiro mês de tratamento, ela mostrava sinais de recuperação, porém, ficou traumatizada.

A história de Rita, de 17 anos de idade, não é diferente da de Sónia. Em 2011, ela frequentava a 9ª classe e, num belo dia, saiu para se divertir com o seu namorado. Os dois embriagaram-se e mantiveram uma relação sexual desprotegida. A menina confessou-nos que isso era habitual. Mais tarde ela descobriu que estava grávida, porém, quando contou ao parceiro este negou-se a assumir a responsabilidade.

No quarto mês de gestação, desesperada, Rita procurou o auxílio de uma amiga que lhe garantiu que conhecia uma senhora que interrompia o desenvolvimento de fetos com recurso a medicamentos tradicionais. Contudo, procuraram os serviços duma enfermeira.

“Perdi muito sangue e depois de algum tempo o meu rosto ficou pálido, prestava menos atenção às aulas, sentia-me diferente das outras meninas e algumas pessoas diziam que estava infectada pelo vírus da SIDA”. O estado clínico descrito por Rita deteriorou-se, facto que chamou a atenção dos seus progenitores. Ela foi “reanimada” numa unidade sanitária, onde ficou dias sob cuidados terapêuticos intensivos.

Refira-se que na cidade de Nampula as médicas tradicionais cobram entre 500 e 1.000 meticais para realizar um aborto, enquanto no Hospital Central de Nampula, por exemplo, o mínimo é 2.000 meticais.

Segundo dados fornecidos pelo sector da Saúde em Nampula, pelo menos 40 porcento de mulheres que expulsam espontânea ou voluntariamente um feto e sem condições de vitalidade fazem-no clandestinamente e fora de uma unidade sanitária.

Rosalinda Mateus desempenha a função de médica na maternidade do Hospital Central de Nampula. Ela trabalha na Saúde há 29 anos e pensa que o aborto inseguro resulta da falta de informação sobre as formas de evitar uma gravidez.

Emília Sueia é ginecologista-obstetra na maior unidade sanitária de Nampula. Em conversa com a nossa equipa de reportagem, disse-nos que as adolescentes e as mulheres adultas recorrem a raízes tradicionais para abortar por ignorância.

 

 

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