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A triste sina da viúva Gertrudes

Gertrudes desconhece o que é ‘uma existência feliz’. O destino, esse, persegue-a com incontáveis misérias e azares de toda a espécie: primeiro perdeu o esposo e, alguns anos depois, foi-se o seu primogénito. Hoje, com a saúde debilitada, assiste impotente à morte ‘lenta’ do único filho que lhe sobrou: um imperativo ditado pelo HIV/SIDA.

Segunda-feira, 8 de Março, quando o país e o mundo celebravam o dia internacional da mulher, @VERDADE acompanhou, no quarteirão quatro do bairro Maxaquene “C” arredores da cidade de Maputo, a ‘triste’ sina da dona Gertrudes, uma viúva de 62 anos que padece de tensão arterial há mais de 25 anos, uma enfermidade que “contraí por causa da morte prematura do meu filho”, refere.

Uma perda que trouxe uma dor que o tempo não consegue apagar: “Nunca consegui superar aquela perda. Ele era novo demais para morrer, tinha apenas 22 anos e estava a dar os primeiros passos de uma vida que devia durar mais”, diz com os olhos macerados de lágrimas.

Felicidade de pobre

dura pouco Igual a tantas mulheres deste país, vovó Gertrudes, como é carinhosamente tratada, perdeuse de amores por um homem e foi viver, no mesmo instante, com ele maritalmente. Porém, a felicidade da vida conjugal foi como veio: num ápice. Quando a paixão estava no zénite do seu coração perdeu o marido. Dessa relação efémera ficaram dois filhos. Foi com eles que decidiu rumar para Maputo vinda de Chibuto, sua terra natal, isso no longínquo ano de 1973.

Entretanto, os dias na capital não trouxeram nenhuma prosperidade. Ou seja, assim que ‘pisou’ Maputo arrendou uma casa, da qual foi expulsa dois meses depois por falta de pagamento da mensalidade. A seguir, uma associação comunitária concedeu-lhe um terreno onde construiu as duas palhotas de caniço nas quais reside até hoje.

O que diz o INAS

Segundo o Instituto Nacional de Acção Social (INAS), na cidade de Maputo, com vista a resolver a sua situação, a senhora Gertrudes e o filho deverão recorrer aos programas de Subsídio de Alimentos e Apoio Social Directo, respectivamente. Para tal devem submeter o seu caso ao círculo do bairro e falar com o funcionário permanente do INAS afecto no respectivo local de residência. Em casos de doença como o SIDA, a pessoa beneficia do Programa de Apoio Social Directo, que concede um cabaz de produtos alimentares como arroz, óleo e feijão, sendo esta ajuda temporária e variando entre seis meses a um ano, de acordo com as circunstâncias em que se encontra o beneficiário.

Segundo uma fonte daquela instituição, para tal o doente deve apresentar os documentos sobre o seu estado clínico. Com efeito, estes programas garantem a prestação da ajuda socioeconómica directa através da atribuição de subsídio mensal a pessoas permanentemente incapacitadas para o trabalho excepto mulheres grávidas malnutridas, cuja assistência termina 6 meses após o parto, bem como visam atender cenários que exijam uma intervenção imediata e se destinam a indivíduos em situações de pobreza absoluta que se encontram em estado de extrema necessidade, respectivamente.

Portanto, os valores do Subsidio de Alimentos vão de 100 a 300 meticais, ou seja, se um agregado familiar tiver um beneficiário recebe 100 meticais e, se forem dois, o valor é de 150 meticais. Os montantes aumentam em 50 meticais se o número de beneficiários por família for até aos cinco.

Crescimento dos filhos avolumou preocupações

Ao mesmo tempo que lhe cresciam os filhos, acumulavamse as preocupações e o peso da responsabilidade. Nessas circunstâncias, os petizes viramse obrigados a trabalhar para garantir o sustento da casa e foi assim que os dois irmãos se tornaram pescadores até o dia 1.05.90, data em que o mais velho se afogou na baía de Maputo e o seu corpo reapareceu sem vida numa das praias 17 dias depois. “Os dois eram muito unidos, andavam e trabalhavam juntos. Nessa altura ganhavam 27 meticais, mas, quando um deles morreu, o outro não teve forças para continuar com aquele trabalho”, lembra a viúva. Com efeito, porque muitas vezes um azar não vem só, a morte do rapaz, anos mais tarde, trouxe consigo mais infortúnios.

Além da situação miserável em que vive numa frágil cabana de caniço, à mercê dos caprichos da natureza, quer faça chuva ou sol e a constante falta de alimentação, neste momento, Luís Evaristo, o filho e a única esperança que lhe restava, contraiu não se sabe como e onde, o vírus de HIV, pelo que, segundo ela, já não pode fazer mais nada, senão acrescentar a dor e o peso que carrega. Para sobreviver, mesmo sem forças, Evaristo submete-se a trabalhos difíceis como ajudante de pedreiro, carregando recipientes de 20 litros de água e acompanhando a mãe quando vai pedir esmola.

Os vizinhos dizem estar a par da situação e consideram que o Governo devia intervir canalizando apoios. “Tratase de um cenário triste e penoso” reiterou um deles. “ Às vezes ajudamos, mas nem sempre temos condições. Penso que o Governo é a entidade indicada para resolver o problema; além do tratamento, estas pessoas precisam de se alimentar e dormir em condições normais”, afirma Ermeliano Cossa que disse acompanhar o quotidiano daquela gente.

Segundo nos deram a entender, o jovem de 38 anos beneficia de tratamentos no Centro de Saúde 1° de Maio. Há pouco tempo recebia comida. Entretanto, quando expirou o prazo do cartão que o habilitava a receber alguns bens, deixou de ter acesso aos produtos alimentares. Na primeira pessoa, conta que deseja continuar a receber por ser difícil cumprir a medicação sem uma alimentação adequada.

Para se inteirar mais, @VERDADE ouviu uma funcionária daquele centro, que explicou que nesses casos os doentes passam a beneficiar de ajuda alimentar até fortalecerem de novo as células CD4, que fazem parte do nosso sistema imunitário, e que comandam as respostas do corpo em relação a certos microorganismos, como, por exemplo, os vírus. Chegada essa fase, o apoio é canalizado a outros pacientes mais graves e assim sucessivamente. “Provavelmente, essa deve ser a situação do jovem Evaristo”, explicou.

Portanto, entre esperanças e angústias, a vovó Gertrudes reitera que não teve uma vida feliz. Para continuar a sobreviver, recorre à esmola nas ruas da cidade de Maputo onde consegue pouco menos que 50 meticais por dia.

Segundo ela, tudo o que viveu até hoje foram dissabores, e ultimamente as suas angústias têm sido mais dolorosas porque percebeu que a maior parte da sua existência ficou marcada pelas sucessivas perdas dos seus entes queridos. Porém, espera que Evaristo não seja o próximo a deixar mais visível a marca da dor que carrega.

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