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A Suazilândia contra Mswati III

As revoltas populares que causaram um terramoto político na Tunísia, Egipto e Líbia chegaram à Suazilândia, terra do último monarca absolutista do continente africano. Na terça-feira, uma manifestação de mais de 2 mil pessoas foi duramente reprimida na cidade de Manzini pelas forças policiais e do exército do rei Mswati III.

Nas primeiras horas da última terça-feira (12) agentes da polícia fortemente armados começam a prender líderes sindicais e outros activistas pró-democracia como forma de tentar impedir uma manifestação popular de três dias, convocada através da rede social facebook, e que os organizadores – uma coligação de organizações da sociedade civil e vários sindicatos – agendaram para o dia em que se comemoram 38 anos desde que o rei Sobhuza II, pai de Mswati III, que rasgou a Constituição e baniu todos os partidos políticos passando a governar sozinho o país.

Professores, profissionais liberais, estudantes e membros da Igreja Católica responderam ao apelo e saíram às ruas da capital económica do reino, Manzini. A polícia começou por disparar canhões de água e balas de borracha sobre os manifestantes que se dirigiam para o centro da cidade e, no fim da tarde, depois de forças especiais do exército se juntarem- se à repressão, acabou a bombas de gás lacrimogéneo e há relatos de que foram disparadas balas verdadeiras.

Uma advogada de direitos humanos, Mary Pais da Silva, queixou-se de ter sido espancada pela polícia. A advogada, de nacionalidade suázi e ascendência portuguesa, disse que os manifestantes foram detidos nas barricadas policiais à entrada de Manzini, cidade para onde estava marcado o primeiro de três dias de protestos.

Mary da Silva acrescentou que os líderes dos protestos, na sua maioria dirigentes sindicais que reclamam a queda do governo e reformas democráticas, foram igualmente detidos.

Jornalistas independentes do país e correspondentes media internacionais, que tentavam cobrir a manifestação, também foram “sequestrados”, intimidados e os seus equipamentos de trabalho confiscados. No meio do dia a cidade de Manzini foi totalmente fechada pela polícia. A ONU e os EUA fizeram um apelo para que a violência seja contida.

A confederação de sindicatos sulafricana, COSATU, manifestou o seu apoio aos compatriotas swazis e desde domingo que tem feito concentrações na zona fronteiriça que separa a Suazilândia da África do Sul, quase bloqueando o tráfego entre os dois países.

Vários cidadãos, através de mensagens de texto, emails e redes sociais reportaram que as manifestações aconteceram também noutras pequenas cidade do reino. Informações de vários suázis indicaram que a MTN Swazi, única operadora de telefonia que disponibiliza Internet móvel no país, e da qual o rei Mswati III é accionista, estaria a impedir o acesso à Internet durante largos períodos o que restringiu as comunicações entre os cidadãos daquele país.

Os populares voltaram às ruas, mais timidamente na quartafeira (12), devido à forte presença policial em Manzini e m todas as vias de acesso à cidade.

Incrustada entre Moçambique e a África do Sul, a Suazilândia é um país pobre. Sem recursos naturais nem grandes indústrias produtivas, a grande maioria de 1,2 milhão de habitantes vive abaixo do limiar da pobreza, ou seja, com menos de 1 dólar por dia.

Rei extravagante

Mas o que enfurece os suázis é o facto de o Governo, por parte do rei, embora tenha abraçado o estilo ocidental, abrindo o país ao mercado, recusar-se a deixar o controlo do poder.

Além de actuar como Chefe de Estado e Comandante, o rei nomeia o seu primeiro-ministro e indica o gabinete – actualmente o leal Bamabas Dlamini – e mantém um forte controlo das eleições parlamentares, num país onde os partidos políticos foram abolidos em 1973.

Por outro lado, o seu estilo de vida descontrolado e luxuoso enquanto autoriza cortes salariais aos funcionários públicos, tem depreciado o respeito que o povo tem pela monarquia.

Mwati provocou a indignação popular em 2002 quando tentou alugar um jacto particular no valor de 48 milhões de dólares em plena seca que deixou um quarto da população em crise alimentar. No mesmo ano uma mãe transtornada tornou público que o rei mandou sequestrar a sua filha de 18 anos de idade para fazer dela a sua décima rainha.

Mswati havia visto a jovem no baile que em todos os anos se realiza no país, numa cerimónia onde as meninas virgens do reino dançam de seios nus para o rei. Quando a mãe da jovem levou o caso ao tribunal, os juízes alegaram que os assessores do rei lhes ameaçaram. E o caso foi arquivado.

Em 2003 Mswati III criou outra polémica aos desposar a sua 11º esposa, uma jovem de 17 anos violando o seu próprio decreto que proíbe a prática de sexo a mulheres menores de 18 anos de idade – numa tentativa de travar a propagação do HIV no país com a pior taxa de infecção no mundo, 25,9%.

O Rei, de 42 anos de idade, que assumiu o trono em 1986, tem 13 esposas, 23 filhos e uma fortuna estimada em 100 milhões de dólares, sendo um dos 15 monarcas mais ricos do mundo, de acordo com a prestigiada revista Forbes. Para além da sua paixão por carros desportivos, o rei tem vários palácios luxuosos e gosta de fazer festas extravagantes com a sua corte.

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