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A segunda vida de José

A segunda vida de José

José é um sobrevivente. Até aos seis meses cresceu como uma criança normal. Depois disso, passou a vida no hospital. Esteve à beira da morte, mas conseguiu dar a volta por cima. Actualmente, luta para não cair novamente nas garras da doença.

Quando José Custódio veio ao mundo há três anos, a família não se conteve de tanta alegria: era uma criança agitada, sorridente e alegre. As pessoas disputavam-na para tê-la ao colo. O crescimento decorreu sem sobressaltos. Mas isso foi até aos seis meses quando uma sucessão de doenças incomuns para a idade colocaram em risco a sobrevivência do petiz. “Em pouco tempo perdeu o sorriso e deixou de crescer”, conta a progenitora. Se até aos seis meses parecia grande para a idade, a partir dos sete a situação mudou completamente de figura. “Nem parecia um rapaz de um ano, tinha o tamanho de uma criança de seis meses”, Lembra-se Luísa com o semblante amargurado.

O calvário

José era acossado por crises de febre constantes o que levava a família a visitar regularmente o posto de saúde mais próximo. Porém, os medicamentos receitados raramente surtiam efeito. Apenas atenuavam a dor e, passado algum tempo, normalmente sete ou 14 dias, no máximo, a mãe de José irrompia portas adentro pelo Centro de Saúde da Malhangalene com o filho nos braços. Mais uma crise. “É terrível viver com um filho frequentemente doente. Pergunto-me: ‘porquê ele e não eu?”. A pior dor para uma mãe é sentir-se impotente diante da dor de um filho: “eu queria carregar as dores dele, mas não podia. Eu dei-lhe vida e tinha raiva de mim porque não conseguia dar-lhe saúde.” Esse sentimento de impotência e frustração estendeu-se no tempo.

Internamento

Do posto de Saúde da Malhangalene o miúdo foi encaminhado ao Hospital Geral de Mavalane. Diagnóstico: anemia. Teresa respirou de alívio. Já sabia o que o filho tinha. Talvez por essa razão não se importou quando teve de ficar internada com o filho durante 15 dias. Essa era a pior das suas penas. Passar pelo internamento “significava que o meu filho ficaria bom.” Isso, diz, era como ver o meu filho a renascer. Os 15 dias passaram rapidamente. José teve alta e voltou para o convívio dos seus onde, segundo recomendações médicas, devia continuar a recuperar- se da doença. Porém, voltou a ficar doente.

Regresso ao hospital

Uma vez no hospital, foi submetido a diversas sessões de análises e diagnosticou-se-lhe tuberculose, doença que, segundo os médicos, foi causada pela ingestão, em simultâneo, de comprimidos, de xaropes e de medicamentos tradicionais à base de raízes e folhas. Este remédio tinha como objectivo evitar um possível mal-estar nas noites de lua cheia. Mas a tuberculose era só o princípio das dores. Outros exames revelaram desgaste do fígado, factor que condicionou o desenvolvimento das habilidades humanas, como a capacidade de fala e de locomoção. José chegou ao ponto de não se levantar da cama, passava os dias deitado ou sentado com o auxílio da mãe e dos familiares. Sempre que se dispunha a levantar-se caía e não conseguia suportar o peso do seu corpo. Faltavam-lhe forças para suportar o tamanho do seu corpo desproporcional, sobretudo, a cabeça e o tronco maior para as suas pernas finas.

Fortalecer a fé

Teresa é portadora de HIV e durante a gestação e gravidez fez o tratamento para impedir que o filho fosse vítima da transmissão vertical. Os médicos disseram-lhe que poderia continuar a amamentar por mais algum tempo. Passado um mês, “a criança começou a revelar um aspecto doentio e só aos nove meses é que se descobriu que o rapaz contraiu HIV. “Sempre acreditei na melhoria, mas houve momentos em que cheguei a duvidar da sua recuperação. Quando ele atingiu a fase mais crítica, passei a rezar dia e noite. Mas, mesmo julgando-me uma pessoa com fé em Deus, cheguei a duvidar dela. E, hoje, vejo que o meu filho vive por milagre Divino”, revela. Actualmente em tratamento, a família luta contra os efeitos do HIV e a tuberculose. Todavia, falta- -lhes pão e água para fazer face à demanda estomacal instigada pela quantidade de fármacos que a criança ingere. Luísa é desempregada e carece de meios para satisfazer as necessidades do filho.

Um dia com José

Durante o dia em que acompanhámos o seu calvário, testemunhámos a vontade de viver e a energia que lhe são peculiares. Ao ver-nos, o miúdo pôs-se a gritar “mamã”, enquanto nos indicava o caminho com o dedo indicador direito. Distraído, brincava com os irmãos. Na hora do chá sentou-se no banco e pôs-se a degustar a refeição. Hoje, o pequeno-almoço de José é constituído por um luxo com o qual raramente conta: um pacote de bolachas, uma chávena de chá e um prato de papa de soja. O pequeno ‘limpou’ as bolachas diante do olhar guloso dos seus irmãos. Quando acabou tentou apanhar as migalhas que o circundavam, mas tão finas eram que fê-lo sem grande êxito. “Sinto que o rapaz está a melhorar. Já anda sem precisar de apoio, pronuncia alguns sons, mas o seu forte é apontar para o que deseja”, conta Luísa.

José é um sobrevivente. Até aos seis meses cresceu como uma criança normal. Depois disso, passou a vida no hospital. Esteve à beira da morte, mas conseguiu dar a volta por cima. Actualmente, luta para não cair novamente nas garras da doença.Porém, como qualquer mãe zelosa, Luísa sabe que a tempestade pode voltar um dia. “Não podemos cantar aleluia”, concluiu. De facto. As preocupações de Luísa têm razão de ser. A nível do país, cerca de 100.000 crianças com menos de 15 anos de idade vivem com HIV e SIDA, e 95 porcento delas melhoram o seu estado serológico após dois anos de medicamentação. Dois terços necessitam de tratamento anti-retroviral (TARV), mas em meados de 2006 apenas 2.300 crianças tinham acesso ao tratamento.

O HIV nas crianças

Hoje os hospitais oferecem um pacote integrado de apoio médico, psicológico e nutritivo. Muitas crianças em TARV morrem porque os pais retardam o tratamento, fazendo-o quando já é praticamente impossível prolongar a vida dos filhos.

A probabilidade de contrair o vírus da imunodeficiência humana (HIV) à nascença é de 15 a 30%. Há três “janelas” de entrada para o vírus: a gestação, o parto e o aleitamento. Com acesso a medicação antiretroviral, o risco reduz-se para 5%. Porém, se nem todas as crianças que nascem em famílias contagiadas pelo HIV são infectadas – a taxa de prevalência dos 0 aos 11 anos é de 1,4% – todas são afectadas. O número de crianças atingidas pelo vírus tem crescido de ano para ano a nível global.

Os dados mais recentes indicam que existem cerca de 2 milhões de crianças seropositivas no mundo, 90% das quais na África subsaariana. Em Moçambique, considera-se que todas as infecções novas em crianças devem-se à transmissão da mãe para o filho, ou seja, em recém-nascidos. As estimativas indicam um valor aproximado de 85 novas infecções diárias em crianças em 2008. Segundo a Actualização da Ronda de Vigilância Epidemiológica 2007, a região Centro regista o maior número de infecções diárias.

A grande diferença no número de infecções por dia entre a região Centro e as restantes é devido ao elevado tamanho populacional nesta região do país e à maior taxa de fecundidade. A partir de 2006 nota-se uma redução considerável de novas infecções diárias em crianças.

TARV na população infantil

As crianças infectadas pela transmissão vertical necessitam de tratamento com anti-retrovirais com mais urgência do que os adultos infectados pela via sexual. Em média, o período desde a infecção até a necessidade do TARV é de 2 anos. A maioria das crianças que precisa do TARV tem menos de 10 anos, devido à rápida progressão da doença em crianças, tratando-se de infecção vertical.

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