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A promessa de Níria Fire: “Nhamsoro wa buya!”

Na noite da quarta-feira, 17 de Abril, a Associação Núcleo de Arte, em Maputo, acolheu a exposição de 22 obras de arte criadas por igual número de artistas, a partir de bicicletas. “Nhamsoro wa buya” – uma criação de Níria Fire – além de traduzir parte dos problemas que a Mozambikes, a mentora da iniciativa, se propõe suavizar, pode ser um ponto de partida para se perceber outros aspectos. A última fase do projecto filantrópico Mozambikes – cujo ponto mais alto será a realização do leilão das obras de arte – está em curso.

Neste sentido, na noite da passada quarta-feira, 17 de Abril, a galeria do Núcleo de Arte acolheu a exposição das obras criadas em Agosto do ano passado. A mostra irá durar um mês. A par do evento, na semana passada, @Verdade manteve uma conversa com a artista plástica Níria Fire cuja participação na iniciativa resultou na criação da obra “Nhamsoro wa buya” – ou, simplesmente, “O Curandeiro está a caminho” – a fim de perceber não só os contornos da iniciativa, mas também a discussão que a ela pretende gerar com a sua criação.

“Como o pessoal da Mozambikes – os mentores da iniciativa – considerou que, no âmbito deste projecto, havia uma necessidade de transformar um determinado número de bicicletas em obras de arte que, mais adiante, seriam leiloadas a fim de que, com o dinheiro resultante, se adquirissem outras para apoiar as comunidades desfavorecidas das zonas rurais, resolvi criar uma obra que reflectisse esta realidade”, começa por dizer Níria Fire.

Dependendo do ponto em que se analisa o objecto, a obra “Nhamsoro wa buya” pode ter inúmeras leituras. Mas Níria acha que um aspecto relevante é que quando se pensa na realidade rural percebe-se que, grosso modo, “os meios de transporte são escassos, sendo por isso que, invariavelmente, para o efeito, as pessoas utilizam a bicicleta – um instrumento que para alguns é de luxo”.

É nessa altura que, para a criadora, a bicicleta se torna um elo entre pessoas e lugares distintos, encurtando distâncias. Como, então, explicar a participação do curandeiro nisso? E porque é que esta obra deve ser chamada “Nhamsoro wa buya?” A verdade é uma. Muitas vezes, no seu trabalho, o curandeiro precisa de se deslocar para colher plantas e raízes com as quais produz os seus medicamentos.

Ele tem de visitar comunidades distantes da sua para curar enfermos. Nisso, a bicicleta joga um papel relevante, encurtando distâncias que, se fossem percorridas a pé, originariam atrasos reiterados no serviço de salvar vidas. Reconhece-se, então, na criação “Nhamsoro wa buya”, em virtude de vários factores, a presença de dois actores importantes – o curandeiro e a bicicleta. Por isso, instala-se uma pergunta: quem entre eles assume maior protagonismo?

Não há uma resposta axiomática, ou exacta. A verdade é que num momento um é protagonista e outro é comparsa – o sentido inverso é válido. Mas se considerarmos que o curandeiro é uma figura muito antiga – que confunde ícones – da cultura africana não seria um trabalho incómodo perceber a sua lógica, não obstante as transformações que se operaram com o decurso do tempo. Níria Fire que realizou uma mostra com o título “Ilusão de Óptica”, em 2012 em Maputo, considera que “para compreender a essência do ‘nhamsoro’ na vida das comunidades rurais, é mestre ignorar (por algum tempo) a realidade das relações sociais num meio urbano”.

E não lhe faltam argumentos: “enquanto, aqui, na cidade as pessoas têm ao seu dispor, nas suas proximidades, os serviços de saúde, de educação, de transporte, entre outros, no campo a situação é diferente e, até certo ponto, oposta. Lá ainda faltam postos de saúde, hospitais e escolas”. É em decorrência disso que, no meio rural, as pessoas “são impelidas a percorrer 20/30 quilómetros ou mais a fim de ter acesso a alguns serviços em referência”.

Orientados para minorar a situação, sim, há acções realizadas. Mas a realidade impele Níria Fire a constatar que “o acesso às unidades sanitárias é muito mais complicado devido não somente às distâncias que separam as comunidades das casas de saúde, mas também à quase total inexistência de meios de transporte”. Ele está entre o bem e o mal Por exemplo, “há, inclusive, mulheres que chegam a morrer pelo caminho enquanto procuram os postos de saúde distritais a fim de encontrar serviços que lhes garantam um parto seguro”. Então, “à medida em que eu ia trabalhando com a bicicleta, surgiram-me todos estes problemas, até que criei o “Nhamsoro wa buya”.

Na verdade, penso que esta obra é uma maneira de dizer que (parecendo que não) o curandeiro ainda está muito presente na vida de muitos moçambicanos”. O outro elemento abordado por Níria Fire, que evidencia o poder dos médicos tradicionais no país, é que “pessoas existem que mesmo estando próximas das unidades sanitárias preferem ir, primeiro, ao curandeiro e só depois, caso este as aconselhe neste sentido, é que recorrem à medicina convencional. Ainda nas zonas rurais, há gente que mesmo vivendo nas proximidades dos postos de saúde nunca demandou os seus serviços.

Então, aqui, os aspectos culturais – dentre os quais o curandeiro – não só possuem um forte domínio como também orientam a vida dos moçambicanos”. De acordo com Níria, “é preciso convir, então, que o curandeiro é muito respeitado porque é a pessoa que faz advinhas, dá conselhos, cura doentes, mas também é a pessoa que nos ‘trama’. É verdade, o curandeiro não só cura as pessoas. A par disso, ele faz maldades”.

Quem é Níria Fire?

Originária da província de Nampula, Níria Fire, quanto às artes plásticas, é autodidacta mas também (desde a infância) explora diversas áreas de produção artística como, por exemplo, a poesia, o teatro e a música. Como artesã, a pintora produz instrumentos de música tradicional africana. Desde os princípios dos anos 2000 a esta parte, participou em mais de 10 exposições colectivas no país. A sua primeira mostra individual de arte – “Cada Ponto de Vista é a Vista de Um Ponto” – decorreu em 2009, na Associação Moçambicana de Fotografia.

Em 2012 realizou a sua segunda exposição individual no Centro Cultural Franco- Moçambique. “Ilusão de Óptica” foi o seu título. Actualmente é presidente da Assembleia Geral do Núcleo de Arte. Uma parte das suas criações está na posse de coleccionadores particulares de obras de arte na Alemanha, Estados Unidos da América, Holanda, Itália e Japão.

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