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A professora com alma de poetisa

A professora com alma de poetisa

Aos 58 anos de idade, a professora de Língua Portuguesa na EPC de Mutava-Rex, em Nampula, faz mudar a nossa percepção sobre o amor à literatura. Não pelo jeito como mergulha no mundo literário, nem pela forma desenvolta como exprime as suas emoções e tão-pouco pelas suas bem documentadas histórias de vida. Mas pela maneira como retrata a solidão nos seus versos. De nome Madalena Dimene, ou simplesmente Tenday, ela vive uma paixão antiga: a poesia.

Desde pequena que alimenta o desejo de lançar um livro de poesia. Esteve a um passo de materializar o sonho, mas quiseram os insondáveis desígnios da vida que a sorte fosse outra. Diga-se, em abono da verdade, se Malanganta Valente Nguenha – que em vida prometeu apoiá-la na publicação do seu trabalho – fosse vivo a sua obra teria visto o sol do dia. Porém, não é por isso que o seu amor pelas artes literárias esmoreceu, até porque a paixão pela literatura surgiu da sua vivência.

Em 1965, aos 11 anos de idade, Tenday, o seu pseudónimo, escreveu o seu primeiro poema. Desde então nunca mais parou e, presentemente, conta com um total de 32. O seu trabalho não é somente uma soma de poemas sob o seu ponto de vista, mas a expressão do seu sentimento mais profundo.

@Verdade (@V) – Como e quando surge o amor pela poesia?

Madalena Dimene (MD) – Surge da minha vivência. Quando pequena tinha acesso a diversas revistas, o que me permitia ler todo o tipo de livros próprios da nossa idade. Eu gostava de ler romances, declamar poemas da Florbela Espanca, Luís de Camões, e estava muito inclinada para tudo aquilo que estava ligado às artes literárias.

Na Escola Secundária, que naquela altura era conhecida por Escola Secundária e Industrial Neutel de Abreu, os professores motivavam-nos. Tive uma professora que gostava da forma como eu escrevia e instruía-me bastante.

Um dia tentei escrever um poema e não fui muito sortuda, porque o meu pai resolveu fazer um “check-up” no nosso quarto e deparou com muitas fotonovelas debaixo das nossas camas e ficou deprimido, ou seja, assustado com o que viu. Depois encontrou um poema meu, leu e ficou espantado com o conteúdo. Eu tinha 11 anos de idade, e aquele tinha sido o meu primeiro poema.

Ele não acreditou que tinha sido eu a escrever, levei uma grande sova, mas depois ele falou com os directores lá na Companhia dos Algodões em Namialo onde ele trabalhava como enfermeiro e eles aconselharam- -no a que não fizesse aquilo porque estava a matar uma grande escritora.

@V – Em algum momento sentiu-se desmotivada com a reacção do seu pai?

MD – Realmente, a reacção dele desmotivou-me bastante e deixei de escrever. Voltei a escrever seis anos depois, tendo composto um outro poema. Mas o gosto pela poesia concretizava- se também naquilo que eram os trabalhos para casa.

Quando o professor mandava fazer uma redacção, esmerava-me e lutava para que o meu trabalho fosse o melhor e gostava também de ler. Lia bastante, e isso in fluiu para que tivesse esse gosto, esse génio. Também tenho dito que a paixão pela literatura tem a ver com a data do meu aniversário, nasci no dia 10 de Junho, o dia de Camões, dia das Comunidades Portuguesas e dia da raça.

@V – O que a inspira?

MD – Algumas vezes os poemas têm vindo ao caso. E outros quando leio um determinado livro, às vezes, uma frase ou uma palavra é su ficiente para me inspirar. Sinto-me atingida por algo muito interior que move os meus sentimentos e eu digo “não posso deixar escapar isto”, tenho de concretizar, pego na caneta e escrevo. Muitas vezes, estou sentada, nos meus momentos de solidão, e de repente digo uma frase qualquer e vejo que realmente é bonita.

@V – Os seus poemas têm um lado romântico. Isso deve-se a alguma razão especí fica?

MD – Sim, têm um lado romântico porque eu sempre fui uma pessoa romântica, sou uma mulher que adora ores, gosto muito de música romântica de Roberto Carlos e Roberta Miranda. Talvez seja disso e, portanto, tive paixões que me inspiram.

@V – Quantos poemas já escreveu até hoje?

MD – Tenho cerca de 32 poemas, e não editei porque ainda não tive patrocínio. A pessoa que realmente ia ajudar-me, que estava muito predisposta era o falecido Malangatana Nguenha. Nós éramos muito amigos e ele disse “Madalena eu vou ajudar-te, tu vais editar, já tens um número su ficiente”, mas, infelizmente, devido à sua morte não foi possível.

@V – Como é que abraça a carreira de professora?

MD – Ser professora foi um sonho de infância. Quando pequena sonhava em dar aulas, gostava quando eu via as minhas professoras a explicarem isto e aquilo, na verdade é uma pro fissão que me apaixonou. O que realmente fez com que passasse a dar aulas de Língua Portuguesa era aquilo que os meus mestres me diziam.

Quando eu estava a fazer o Instituto, tinha o doutor Paulino que, quando fosse apresentar um trabalho, dizia: “Chamem a apresentadora” e outro, Dinis Simbire: “Está aí a apresentadora”. E durante o tempo em que estive a dar aulas na Escola Portuguesa notei que fui muito bem preparada nesta área e gosto dessa disciplina.

@V – Qual foi o poema que mais marcou a sua vida?

MD – O poema que marcou a minha vida foi “Agruras da Vida”, um poema que escrevi em apenas cinco minutos. Ele marcou-me, primeiro, porque antes de escrever eu já me tinha dedicado a um outro tipo de literatura, já tinha apostado na prosa. Quando fiz aquele livro, quis fazer a comparação entre a prosista e a poetisa. No fi nal do livro fi quei realmente satisfeita com a obra e fiz uma apreciação do meu trabalho: “bem, esta obra não é medíocre é uma obra que me satisfaz”.

Vi que poderia ser as duas coisas, aquilo deu-me uma satisfação total e vi que a aposta já estava feita. Aquele Senhor lá em cima (referindo-se a Deus) é muito importante para mim, deu-me este dom e tenho que o cultivar. Sinto-me um pouco triste porque não tenho amigos nesta área, gostaria de ter amigos, colegas que discutissem comigo.

Este título “Agruras da Vida” teve como fonte de inspiração o meu falecido pai, que era um indivíduo muito rígido. Quando tive o meu primeiro namorado fui falar com ele e disse-lhe: “pai, não me interessa o que ele seja, nem que seja bandido, ladrão ou assassino, tu vais ter que aceitar este homem porque é o homem que escolhi”, e ele aceitou.

E o meu pai recebeu o indivíduo. Mais tarde, começámos a ter algumas desavenças de lar, uma tareia para aqui e outra para acolá e fui para casa do meu pai em busca de socorro. “Ó pai” e ele perguntava: “O que se passa?”. “Tive problemas”. Questionava: “Que tipo de problemas?” Eu dizia: “O meu marido bateu-me”.

E ele argumentava: “Filha, ele ainda não te matou, o que tu disseste? Quer seja bandido, ladrão ou assassino, então volta para a tua casa”. E isso aconteceu por diversas vezes. Estava eu nos meus dias de solidão e disse para mim mesma que “vou escrever alguma coisa”, então escrevi “Agruras da Vida”. Para mim, foi uma coisa bastante triste e radiante. Senti-me completa.

BI

Nome: Madalena Dimene

Data de Nascimento: 10 de Junho de 1954

Naturalidade: Namialo, província de Nampula

Estado Civil: Solteira

Filhos: 5 Interesses:

Ler, ornamentar a casa e cozinhar

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