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A pintura pode restituir o Homem ao temor divino

Contrariamente ao que, na idade média, foi o apanágio da pintura, actualmente, a ideia de utilizar as artes visuais para infundir, entre os homens, o temor divino não cabe em nenhum rótulo. No entanto, nos dias que correm, é para isso que o artista plástico moçambicano, Luís Sengo, se esmera nas suas criações…

O conceituado artista plástico moçambicano, Luís Rafael Sengo, é um exemplo sublime de um autodidacta. Sengo pode até conhecer os compartimentos de uma escola de artes visuais, belas artes, no entanto, não fez nenhum curso de especialidade daquela área. Curiosamente, em Moçambique, o artista impõe-se no cenário das artes plásticas como um protagonista a ter em conta.

Não é obra do acaso que, para si, o pendor para a pintura é uma “dádiva divina”. Talvez seja em resultado disso que, nos dias actuais, Sengo – como prefere que o tratem nas lides das artes – possui uma equipa de 10 seguidores: “os discípulos do mestre Sengo”.

Nascido em 1960, num dos subúrbios de Maputo, o bairro de Chamanculo, apesar de ter começado a trabalhar profissionalmente com a pintura nos princípios da década de 1990, a sua relação com a arte é uma prática de muitos anos. É a par disso que o seu comentário – “nunca estudei artes plásticas. Acho que saí do ventre da minha mãe a saber pintar. Nasci para a pintura” – tem o seu sentido. Nos poucos mais de 22 anos de carreira que possui, Sengo já realizou sete mostras da sua produção individual, e participou em igual número de exposições colectivas.

Nos últimos anos, o artista tem partilhado as galerias de arte – em Maputo – com os seus pupilos. Para si, esta é uma forma de ampliar as possibilidades de acção e de representação daqueles no panorama das artes plásticas moçambicanas e, porque não?, do mundo.

Aliás, o seu comentário em relação à comparticipação das criações artísticas dos seus discípulos remete-nos à ideia de que se trata de uma extensão do seu próprio trabalho. Ou seja, não estamos diante de uma mostra individual, nem colectiva. “As exposições que faço com os meus miúdos não são colectivas, nem individuais. Elas enquadram-se nos interstícios dos dois conceitos, porque o trabalho que eles fazem é uma continuidade do meu”.

Infundir o temor divino

Diante das obras de Sengo, é inevitável constatar-se uma salada de temáticas sociais que o artista aborda na sua pintura. No entanto, talvez em resultado do contexto das crises alternadas que a humanidade, os moçambicanos em particular, experimenta, o pintor faz do pincel e da paleta de cores instrumentos para criar obras com a finalidade de infundir o temor a Deus entre os homens. Trata-se de uma acção, a emissão da “verdade divina”, que o pintor não pára de protagonizar desde 1995.

A partir do momento em que o criador descobriu que os homens estavam a empenhar-se – em certo sentido – no desenvolvimento, no espaço social, de acções fúteis que em nada dignificam a condição humana, decidiu lutar por uma causa.

Por isso, “a minha luta é no sentido de resgatar o homem de todos os trilhos perniciosos e, se for possível, retorná-lo ao seu Criador”. Ao referir-se aos seus discípulos, o artista – que quando pinta preocupa-se em emitir uma mensagem sobre o evangelho – afirma que “mais do que ensinar as técnicas da pintura, é necessário mostrar-lhes a verdade em relação à vida. E felizmente devo dizer que eles estão a apreender”.

Cultuar a mulher

De uma ou de outra forma, vale a pena reconhecer que a pintura de Sengo não se dilui apenas em discussões teológicas. Ou, pelos menos, que há outros caminhos que – sem que o artista corrompa a sua essência – nos fazem aportar no temor a Deus. A mulher é uma dessas sendas. Desengane-se, então, quem pensa que Sengo possui uma paixão angustiante pela alma feminina. É que, para si, “a mulher é um município sagrado. É nela que brota a vida humana”.

Durante a conversa que travámos com ele, o artista – que em finais de 2012 realizou a mostra “Dois tempos de Luís Sengo e os discípulos” – reservou um tempo para se recordar do mestre Malangatana. Diz que foi dele que aprendeu a apreciar a figura da mulher na pintura. “O corpo feminino está cheio de curvas e as artes plásticas são essencialmente a sua representação. O mestre Malangatana entendia muito bem isso. Eu aprendi dele”.

Projectos ambiciosos

Para Luís Sengo, 2013 é o ano do alargamento do espaço de acção e representação do artista, no contexto das exposições. Nesse sentido, está prevista a realização de uma mostra na Cidade do Cabo, na África do Sul, em que irá participar o saxofonista moçambicano, Moreira Chonguiça.

Mais do que isso, no âmbito dos projectos, neste ano o artista tem o plano de concluir a construção do edifício onde funcionará o “Centro Cultural Academia Lázaro Sengo”. A designação é em homenagem ao seu irmão, Lázaro Sengo, que incentivou não somente a ele como a muitos outros artistas moçambicanos a fazer arte.

Trata-se de uma empreitada antiga enguiçada pelos processos burocráticos da administração da cidade da Matola. É como diz o artista, quando afirma que “durante muitos anos, o projecto ficou congelado no Conselho Municipal da Cidade da Matola até que em 2007 – com a realização da conferência cultural – o antigo edil, Carlos Tembe, convidou os artistas a submeterem os seus projectos para o desenvolvimento da cultura naquela autarquia”.

De acordo com o mentor da ideia, o centro deverá funcionar como um espaço de confluência dos artistas matolenses, incluindo a realização de intercâmbios artístico- -culturais. Espera-se que seja o ponto de encontro dos criadores daquela urbe.

Como forma de dar vida ao projecto, ainda nas palavras de Sengo, presentemente decorre o processo de reassentamento das duas famílias que – com o advento do dito empreendimento cultural – tiveram de desocupar o terreno. Aliás, sobre o assunto, o pintor comentou que se fez um acordo segundo o qual as famílias receberiam novos terrenos, em função do número do número de agregados. É por essa razão que serão distribuídas 11 parcelas.

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