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A paixão de Cheny pela timbila

A paixão de Cheny pela timbila

A paixão pelos sons de xilofone acompanha-o desde miúdo. Hoje, aos 30 anos de idade, o músico moçambicano Cheny Wa Gune é um jovem-mestre da timbila. À beira do lançamento do seu primeiro trabalho discográfi co, o artista fala da sua incursão ao reino musical que designou “Chopi Timbila Groove”.

“Jindji Jindji” é o álbum de estreia do músico moçambicano Cheny Wa Gune, de 30 anos. O músico transportanos para o “reino” desconhecido dos chopi, através das mais profundas notas musicais. Mas a sua fascinação não se esgota apenas numa mera viagem – ainda que seja sem precedentes –, nem num retrato sobre os hábitos e costumes de um povo e tão-pouco numa soma de temas entusiasmantes.

Pelo contrário, o disco revela- nos o virtuosismo e os sentimentos de um artista em constante ascensão, preso às laboriosas fórmulas para fazer e oferecer música de qualidade. Em “Jindji Jindji”, Cheny Wa Gune apresenta-se grandioso e profundo – tal como nos habituamo a ouvi-lo tocar na orquestra Timbila Muzimba da qual é membro fundador.

Dado o grau de excelência de cada tema e a espontaneidade do músico em tocar um xilofone, nota-se muita fibra chopi vertida no álbum. Cantadas em Xichopi, onze músicas compõem o CD , uma das quais é a versão em português do tema que dá nome ao disco “Jindji Jindji”. Mas, diz, “sinto-me bem a cantar em xichopi”.

Servidas a uma temperatura artisticamente quente, as músicas surpreendem pelo sentimento que exprimem, desde as inquietações do quotidiano, passando pelos anseios até ao percurso do autor. Em suma, “Jindji Jindji” não é mais do que a visão do mundo de um artista e a sua trajectória contada num estilo musical o qual denominou “Chopi timbila Groove”.

“As músicas falam de mim como pessoa. Retratam as minhas origens, a educação, os hábitos e costumes que herdei dos meus pais, o amor pela vida e o quotidiano”, diz Cheny. O disco surge no momento em que o músico sentiu a necessidade de ver o seu trabalho e talento reconhecidos.

As músicas têm um toque intimista, admirável e com uma energia deveras contagiante que não deixa ninguém indiferente, mesmo a um público habituado a outros estilos musicais. “Interpreto músicas antigas, dos antepassados, mas toco-as com uma nova roupagem”, comenta.

Porém, o que chama a atenção aos ouvidos não é apenas a sonoridade envolvente. Pelo contrário, é o facto de as músicas parecerem ter sido calculadas, à partida, para cair nas graças dos apreciadores da boa música tradicional moçambicana.

O trabalho discográfico, gravado em colaboração com a Logaritimo, é uma produção independente vai ser lançada no dia 1 de Abril próximo num espectáculo a ser realizado no Centro Cultural Franco-Moçambicano. No momento, estarão disponíveis cerca de mil cópias numa primeira fase, mas o artista pretende entrar também no mercado internacional.

Cheny Wa Gune compara o seu primeiro trabalho com o nascimento de uma criança. “O espectáculo vai ser uma festa, afinal, trata-se de o primeiro filho”, diz o músico. Crescer ao som da timbila Cheny Wa Gune, de seu nome verdadeiro Geraldo António Mahuaie, nasceu em Maputo a 1 de Agosto de 1980. Passou a sua infância entre Zavala, especificamente na aldeia de Gunine, província de Inhambane – terra natal dos seus progenitores – e o bairro Unidade 7, na cidade de Maputo.

Mas foi no Unidade 7, bairro que teve a fama de ser o lugar no qual se dançava Ngalanga, onde Cheny começou a ouvir as primeiras notas musicais da timbila. Iniciouse como músico ainda na tenra idade, contava com apenas 5 anos de idade.

Cresceu num ambiente onde apenas se “respirava” a cultura chopi e herdou os conhecimentos do seu povo. Aliás, a educação dentro da família e o contacto com os costumes dos chopi fizeram-no olhar para a música com outros olhos. “A música chopi tem uma enorme riqueza e transporta simplicidade e identidade própria”, diz.

Mas foi graças ao seu tio, a quem considera mestre da cultura chopi, Eduardo Durão, um exímio tocador da timbila, que Cheny começa a apaixonar-se pelo xilofone e dá os seus primeiros passos. “Não era meu sonho tocar timbila. Mas quando o meu tio fez uma mistura de jazz com o som da timbila fiquei impressionado. A partir daquele dia, eu dizia para mim mesmo que queria ser como ele”, conta.

Na infância, no regresso da escola, não só se dedicava a ver e ouvir outros tocarem a timbila. Em 1990, integrou o grupo Ngalanga do bairro Unidade 7. Dois anos depois, em 1992, juntou-se ao grupo Novos Raios, uma espécie de escola criada por Eduardo Durão onde se aprendia todo o tipo de danças nacionais.

“Quando tive a noção do que era a música, nunca mais quis saber de outra coisa. Foi um sonho que se foi adaptando”, comenta. Participou, em 1994, em actividades artísticas do grupo Ntwananu. E, com ajuda de um grupo de amigos, Cheny criou a orquestra Timbila Muzimba em 1996. Com este agrupamento musical, começou a viver o momento mais alto da sua carreira, tendo participado em vários festivais internacionais divulgando a música moçambicana, particularmente a timbila.

Europa, África Austral, Ásia e América do Sul foram os principais lugares por onde passou exibindo o seu talento e revelando o seu potencial. Participou em algumas composições musicais para peças de teatro, poesia e cinema. “Continuo a expressar-me através dessas actividades artísticas” afirma.

Tempo depois, Cheny Wa Gune – o mesmo que Cheny da aldeia de Gunine – decidiu levar os sons invulgares da timbila para as casas de pasto da cidade de Maputo, uma vez que “não sentia a música tradicional nos bares”.

O seu primeiro concerto num bar foi no espaço de Gil Vicente e apresentou um repertório de 45 minutos. O impacto foi empolgante, tendo criado, a partir daí, o agrupamento “Cheny Wa Gune Quarteto”. “Há pessoas que se preocupam em ouvir coisas diferentes”, comenta o músico que se queixa do facto de os meios de comunicação social não darem atenção ao estilo de música que faz. “Acredito que as coisas vão mudar porque as pessoas vão despertar e identificar-se com este tipo de música”.

Cheny abraçou a carreira a solo, mas afirma: “não deixei a orquestra Timbila Muzimba, pois eu sou Timbila Muzimba”. Como músico e intérprete, cria composições que, embora explorem o passado, soam à juventude. Além da timbila, o jovem explora outros instrumentos tradicionais como Xitende e M’bira numa mistura bem conseguida com instrumentos modernos (baixo, saxofone, bateria e percussão). “A timbila é um instrumento que pode acompanhar todo o estilo de música”, diz.

O jovem artista participou em alguns intercâmbios nos projectos More Some Big Noise, Bumba, Quadrilha de Maputo e Michael Kutner e Madonga do Índico. Além disso, intervém em movimentos poéticos da cidade, com o grupo Sem Crítica e cria as composições da peça teatral “Mulher Asfalto”. Em 2007, lançou o programa ENCONTRARTE com o objectivo de promover e diversidade artística.

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