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A ntyiso wa wansatititi: A Mãe é bonita

As minhocas são todas muito porcas. A mãe quer mesmo que eu faça este ditado? Está bem, já percebi. Como eu não gosto de fazer ditados, a mãe inventa coisas malucas para ser mais fácil. Mas eu não obedeço, porque minhocas é uma palavra muito difícil, tem mais de duas sílabas e um nh que ainda me entrou na cabeça. A mãe sabe que eu gosto é da matemática, porque tenho que ser sempre o mais rápido e não me posso enganar, é como no jogo do 007 da play station, eu ando a fugir dos maus e atrás deles ao mesmo tempo e tenho que estar muito concentrado para não perder vidas.

Nos ditados é tudo muito mais chato; perco letras no meio das palavras, ou então elas aparecem onde não devem e eu fico mesmo confuso. Porque é que pedra não tem um e a seguir ao d? Eu pensava que era pedera, a sério. E porque é que nunca acerto com os ós e us se o som é sempre u? Por isso é que ontem no ditado escrevi moito quando a mãe estava a ditar a frase das minhocas.

Então a mãe sentou-se ao meu lado, muito bonita e doce, e explicou com calma e cuidado que o erro naquela palavra era o ó, que se eu fixasse o erro nunca mais o repetia.

Fizemos uma marca vermelha à volta do ó e agora acho que nunca mais me vou enganar. Mas eu já estava um bocado cansado, o fim-de-semana tinha sido muito comprido – os dias são muito grandes, quando acordo já é dia e quando vou para a cama e a persiana cai só até meio porque eu parti o elástico, a luz ainda entra no quarto e eu penso que o Bart Simpson que me tapa até à orelhas vai sair do desenho e atirar-me uma pedra à cabeça com uma fisga, mas eu não tenho medo, dava-lhe logo um golpe de judo, toma, toma que já cinturão amarelo, comigo não te metes, ouviste ó palerma? – por isso pus-me a inventar frases como se estivesse a fazer um ditado a mim mesmo e escrevi A mãe é bonita, porque sei que sempre que digo isso à Mãe, é como se lhe acendesse uma luz na testa, a mãe fica a luzir, parece uma estrelinha daquelas que o céu guarda nas noites sem luar e eu gosto muito de ver a mãe assim.

E depois, para o ditado ser mesmo divertido, escrevi O Pai é malandro e a mãe ainda se riu mais, abanou a cabeça como faz quando entra no quarto e está tudo de pernas para o ar e respondeu, tens razão, o pai é malandro e a mãe é bonita. E depois, fui fazer xi-xi e lavar os dentes com aquela escova maluca que anda à roda à roda, e a seguir fui dormir sossegado a pensar que a Mãe ficava mesmo contente se eu não fizesse erros, mas não me preocupo muito porque lembro-me de me ter dito que nunca acertava nas contas, por isso amanhã se quiser eu explico-lhe como é que se soma e subtrai laranjas e chapéus e outras coisas que ensinam lá na escola.

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