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A Ntyiso wa wansati: Voar Sentado

Se não fosse o estrabismo que me detectaram no último exame de admissão à aviação comercial, podia ter sido comandante de longo curso até à idade da reforma, como o meu pai e os meus dois tios Luís e Joaquim. Mas o meu olho direito traiu-me, com o seu desvio teimoso e incorrigível para o canto interno do meu globo ocular e por causa dele o meu mundo é em terra e não posso dar a volta ao outro globo, o que é coberto por 75 por cento de água e que gira em torno de si mesmo a uma velocidade que Deus controla do céu com um controlo remoto.

Deus lá em cima também manda na rota dos aviões e tem um controlo remoto com milhões de botões que decidem tudo o que se passa na terra. Mas Deus também se engana e às vezes carrega no botão errado e é assim que caem os aviões, que a terra treme, que as ondas gigantes inundam a terra, que as florestas ardem, que as chuvas destroem casas e crianças morrem asfixiadas em escolas.

Pensando bem, talvez o meu estrabismo não tenha sido mais um erro de Deus, mas apenas a actuação dessa força misteriosa e incontornável a que os antigos chamam a Divina Providência, porque quando voo sentado no meu simulador, nunca se avaria um reactor, nunca a asa direita é apanhada por ventos cruzados e nunca choco com outro aviões.

O meu computador é como Deus, também tem milhões de botões e controla o meu mundo, mas como não tem coração não hesita, e como não hesita não se engana. Se Deus fosse mesmo perfeito e acima de todas as coisas como me ensinaram no colégio dos padres jesuítas quando andava de calções e gravata, não se enganava, pois não? Porque antes deste Deus omnipresente e omnisciente existiam outros deuses muito mais parecidos com os homens, que se apaixonavam por mulheres terrenas, que cometiam erros e pagavam por eles.

Esses deuses parecem-me mais possíveis, porque os imaginamos à nossa imagem e se fomos criados por um deus qualquer é natural que ele nos tenha criado à imagem dele, não é?

Este Deus, que nos ensinaram a escrever com letra grande desde o tempo da farda não é parecido com os homens nem com nada; nunca ninguém o viu, só lhe ouviram a voz que descia à terra por um feixe de luz e isto é se acreditarmos nas histórias antigas dos profetas, que não tinham televisão nem playstation nem computadores e que por isso usavam a imaginação para passar o tempo. Todos os dias me sento para pilotar os aviões da minha imaginação e todos os dias penso como será a cara de Deus; será que também lhe pica a barba quando cresce, tem tártaro nos dentes e sonhos molhados como todos os homens? Será que bebe leite com café e fuma um cigarro antes de começar a carregar no controlo remoto?

Será que gosta de doces e se pela por uma boa feijoada? Gostava de acreditar num deus qualquer, diferente do que me impingiram no colégio. Gostava de conversar com ele, ir ao futebol e a seguir beber uma cervejas e dizer disparates. Nessa altura perguntava-lhe porque é que ele deixa que nos ensinem que ele é perfeito e reina sobre todas as coisas quando somos pequenos, para depois passarmos o resto da vida a perceber que nada disso é verdade.

A perfeição não existe, nem nos computadores e é por isso que o mundo é um caos e eu tenho um olho estrábico que nunca me deixou voar senão dentro do meu quarto onde dou a volta a um mundo que só existe dentro da minha cabeça.

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