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A ntyiso wa wansati – Brown Chocolate 

A ntyiso wa wansati - Brown Chocolate 

Escrevemos para resgatar o que sabemos ter perdido para sempre. Deve ser por isso que desde que te fui levar ao aeroporto ainda não parei de escrever, como se a música do teclado possuído do computador me evocasse a tua voz de fada, suave e doce como uma compota de pêssego, como a tua pele, o cheiro do teu cabelo e a tua boca que nunca precisava de batom, apesar de, com a precisão cirúrgica de anos e anos de prática, gostasses de a desenhar com um lápis cuja cor respondia por brown chocolate.


O mundo secreto das mulheres sempre foi para mim uma caverna de Aladino cujo segredo para entrar nunca quis descobrir; caixas de pó bege, lápis de cores escuras, sombras brancas para os olhos, enroladores de pestanas, amostras de perfume. O mundo da beleza embalado em produtos com nomes evocativos como brown chocolate. E, se pensar bem, a tua boca cor de pêssego também podia ser de chocolate.

 

Dizem que o chocolate vicia, que quem o consome produz uma endorfina semelhante à que o organismo fabrica em estado de paixão, devia ser por isso que muito depressa, talvez desde o dia que te amei pela primeira vez, me viciei na tua boca certa a regular, nem fina como as das pessoas más, nem grossa como as das manequins ocas e vazias que durante anos e anos fotografei para a revista, raparigas de algodão, como gosto de lhes chamar, cheias de nada e de coisa nenhuma.

Viver também é procurar sempre aquilo que não se tem e quando um homem vive afogado em mulheres muito bonitas, a beleza vulgariza-se em traços e dimensões e só um olhar que fale ou umas mãos que dancem nos conseguem arrancar da letargia da abundância.

Chegaste ao estúdio um dia com o cabelo apanhado e a cara lavada e sentaste-te a um canto enquanto eu fotografava uma apresentadora de televisão que era tua amiga. E, do lado direito logo a seguir onde a objectiva perdia o ângulo, eu via a tua boca de pêssego desenhada a brown chocolate e as tuas mãos a dançarem sozinhas.

Não sei quanto tempo passou até consegui trazer-te para casa, deitar-te na cama e morder essa boca que queria só para mim, ver no ar as mãos como dois pássaros que ainda há muito pouco aprenderam a voar, numa dança de prazer enquanto te amava com a tal endorfina a estoirar-me os miolos, enquanto repetias, num misto de espanto e abandono nunca ninguém me amou assim.

Não sei quanto tempo passou, muitos meses, talvez alguns anos, mas quando te levei outro dia ao aeroporto e percebi que o teu estágio em Londres na Vogue, onde sempre sonhaste trabalhar te ia levar para sempre, apeteceu-me roubar-te o lápis brown chocolate da carteira e pedir-te que nunca o pusesses para mais ninguém, que me guardasses para sempre, mesmo que desses a tua boca a outros homens.

Eu, confesso, tenho procurado a tua boca nas raparigas de algodão que povoam a solidão do estúdio, mas ou têm outro cheiro ou usam outro batom, chocolates e pêssegos vivem agora perdidos na minha memória que nunca se cansa de ti e deve ser por isso que escrevo horas a fio sobre o prazer de te lembrar, deitada na cama com as mãos no ar e a boca rasgada num sorriso que dizia nunca ninguém me amou assim quem sabe, um dia destes, vou a uma perfumaria procurar-te no nome de um lápis.

São sempre infinitas as formas que encontrarmos para ficarmos só um bocadinho mais perto daqueles que amamos.

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