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“A fundação tem de ser tão incómoda como Saramago o era”

Na passada terça-feira, dia 16, José Saramago, o único escritor de língua portuguesa que recebeu o prémio Nobel da literatura, completaria, se fosse vivo, 88 anos. @ VERDADE reproduz aqui uma entrevista publicada no jornal “Expresso” onde a sua mulher, Pilar del Río, fala sobre a Fundação Saramago e o seu papel à frente da instituição.

Como vê a Fundação José Saramago? Uma casa do autor?

Pilar del Río (PDR) – Não é uma casa do autor. A fundação é, e será cada vez mais, um lugar vivo, de debate, de exposição de propostas, de crítica aberta e franca. Um lugar onde os cidadãos possam expressar-se, um lugar de onde saiam campanhas cívicas e culturais. Saramago era um homem complexo e plural, por isso a fundação seguirá esses passos, será um lugar aberto às dúvidas, às perguntas inquietantes, às demandas, aos protestos e às soluções alternativas que a sociedade procure por si própria, por exemplo, para sair da crise que nos asfi xia a todos. E que não é só económica, é uma crise moral, da qual sairemos sendo outros e com outras formas de vida, ou virá o caos e levará pela frente milhões de pessoas.

Qual é o objectivo primeiro da fundação?

(PDR) – Todos os que Saramago tinha em vida: a literatura – a portuguesa, a universal -, a participação cívica… Como nada era alheio a Saramago, a nós também não o é. Apesar de sermos modestos, nada nos amedronta. Não nascemos para fazer boa fi gura e passearmos entre a fi na fl or social. Queremos trazer para cima da mesa o que temos, ideias, capacidade de trabalho, e dar tudo isso a uma sociedade que outros querem empobrecer dia-a-dia de todas as formas possíveis. Detectamos os princípios das multinacionais, dos meios de comunicação mais poderosos, das modas e dos modos, mas não queremos isso, queremos pessoas hegemónicas e rebeldes.

Que futuro quer para a fundação?

(PDR) – O melhor, evidentemente. Mas não um futuro acomodado nem servil. A fundação será incómoda, tem de ser tão incómoda como Saramago era, porque a sociedade necessita da crítica. Não da crítica ao governo no activo, que é fácil, sobretudo se o governo for socialista. Queremos ir mais longe, precisamos de entender e de tratar de desvendar o que é que o sistema quer fazer com o mundo. Para isso recorremos aos melhores e poremos uma plataforma no centro de Lisboa para que nos expliquem porque é que se chegou à Lua e a Marte e não ao emigrante que vivia no continente ao lado, que já está aqui e que, mesmo assim, ainda não vemos.

Como se tem sentido nessa casa, em Portugal?

(PDR) – Sinto-me bem em Portugal em todos os sítios. Sou uma privilegiada. Como é que me podia sentir mal? Estou no país do meu marido que também é o meu, porque os sentimentos não precisam de selos legais nem de burocracias para habitar uma pessoa. Quem escolheu a Casa dos Bicos como sede defi nitiva da fundação? (PDR) – Foi comunicado por duas pessoas a José Saramago num jantar: pelo então ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, e pelo presidente da Câmara de Lisboa, António Costa. Não sei de quem foi a ideia, ambos foram sufi cientemente gentis e generosos ao dizer: “Pensamos que a fundação devia estar num lugar de destaque.”

Como vê esse local tão emblemático de Lisboa ser associado a Saramago?

(PDR) – Acho que um lugar emblemático deve associar-se a uma pessoa emblemática… Será um local de encontro e de actividades, não todas organizadas pela fundação, que permitirá que aí se realizem apresentações de livros, concertos de câmara, projecções de cinema não comercial, debates, conferências… Todos os dias haverá actividades. O segundo andar será dedicado a exposições relacionados com a obra, o tempo e os contemporâneos de Saramago. No terceiro andar será a sede da fundação e a direcção da casa. No quarto fi cará a biblioteca. Por fim, no quinto, que não se vê a partir da rua, será a sala de actos, onde tem de haver um acto por dia.

Sente-se mais portuguesa hoje?

(PDR) – Não sei como me sinto, não tem grande interesse. Mas digo que trabalharei a partir de Portugal com as ferramentas que fui aprendendo a usar ao longo de uma vida já longa e de acordo com o passo de Saramago. Que era um passo a dois, apesar de ele sempre chegar mais longe. De qualquer forma, espero ter, em breve, a nacionalidade portuguesa.

O que podemos esperar de “Novembro”, Mês de Saramago?

(PDR) – Celebrações culturais e, sem dúvida, a valorização do espírito cívico, culturalmente curioso e politicamente activo de José Saramago. Desde a apresentação do livro “José Saramago nas Suas Palavras” até á leitura prazeirosa do mestre Tolstoi, traduzido por Saramago.

O que simbolizava para Saramago o dia do seu aniversário e o que signifi ca para si o primeiro dia do seu aniversário [na passada terça-feira, dia 16] sem a sua presença?

(PDR) – Para Saramago, o seu aniversário não signifi cava nada. Ele não era de festas, celebrações convencionais, odiava o Natal, os aniversários… Ele tinha outro tempo. Para mim, vai ser um dia de celebração de Saramago. Ponto fi nal. O que estiver cá dentro, cá dentro ficará. Como cá dentro tem vindo a fi car. É complicado passar esse dia, ou todos os dias? (PDR) – É complicado viver com os olhos abertos, mas todos queremos viver, não queremos a morte. O importante é não pensar no próprio umbigo. Perder a força no lamento é estúpido, como o é a queixa permanente, o “estou cansado” de gente jovem e privilegiada, mesmo à nossa volta, que tinha era de estar a comer o mundo inteiro porque recebeu mais do que a maioria.

“José e Pilar” vai estrear agora nas salas de cinema. O que pensa do filme?

(PDR) – Gostei de nos ver. E gosto que vejam o Saramago dos livros, o Saramago do sentido de humor, da refl exão inteligente e da piedade, esse que alguns não quiseram ver. Agora, neste fi lme, verão um Saramago do dia-adia e cairão muitas vendas dos olhos. Porque houve gente que foi conduzida a ver arrogância onde havia timidez e a ver vaidade onde havia segurança e humildade. Em São Paulo o público premiou o fi lme. Em Portugal e noutros países, de certeza que acontecerá o mesmo. É notória uma cumplicidade sem par entre os dois, um amor fundamentado numa amizade sólida, dedicação, admiração e carinho enormes…

Quer partilhar isso com o público através do filme?

(PDR) – Não quisemos partilhar, a câmara estava ali e retratou uma vida a duas vozes. Simplesmente.

O filme faz com que reviva o passado?

(PDR) – Levo o passado comigo. Está em mim, guardo-o, como um tesouro. Dá-lhe força para continuar? (PDR) – A vida ensinou-me que temos de pôr as forças que temos todas as manhãs em nós mesmos. E inventarmos cada dia.

Correr mundo a falar de Saramago e da sua obra é uma missão?

(PDR) – Saramago não é uma missão. Sou presidente de uma fundação, desenvolverei o meu trabalho o melhor possível. Sente-se como uma guardiã da sua obra? (PDR) – Não. Isso que o faça cada leitor. Seremos milhões de guardiões…

Haverá inéditos seus a serem publicados?

(PDR) – Um livro de juventude, que Saramago anunciou que se publicaria depois da sua morte, e as páginas que ele já tinha escritas.

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