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A Fé n@ Verdade – Mil islamofobias

Só quatro mesquitas na Suíça ostentam minaretes. A desproporção entre a banalidade dessa realidade e a constitucionalização de uma proibição de construção de minaretes no país dá bem a medida do pânico moral em torno de uma fantasmagorização da presença muçulmana.

Nisto, a Suíça em nada se diferencia das manifestações paralelas de identitarismos exclusivistas que pela Europa e mundo fora se vêm repercutindo na marginalização, exclusão e excepcionalização dos “seus” muçulmanos – residentes ou cidadãos de pleno direito.

Em cada um destes contextos a denúncia da suposta alteridade e inassimilidade cultural dos muçulmanos encontra a sua expressão própria, histórica, cultural, linguística e mitologicamente sedimentada, mas nevrálgica, porque nela se cruzam velhas questões: as tidas por acabadas, em que o islão e os muçulmanos aparecem por metáfora como regresso atávico do passado ultrapassado; e as inacabadas, que ressurgem na colonialidade, orientalização e racialização do islão e dos muçulmanos de carne e osso, agora a portas dentro.

Por trás do voto dos suíços está a campanha xenófoba do partido populista de extremadireita, assim como em cada país e contexto da Europa estão os outros tantos partidos populistas de extrema-direita que vão assustadoramente ganhando terreno. Mas a proporção de 57% passa muito além dos partidários e mesmo simpatizantes do Partido Popular Suíço.

A responsabilidade na Suíça – como na Bélgica do Vlaams Blok, na Inglaterra da Liga de Defesa Inglesa e do Partido Nacional Britânico, da França da Frente Nacional, etc., etc., etc. – passa pela politização e respeitabilização do racismo cultural em torno dos “problemas” da imigração, do multiculturalismo e da diferença. Os contextos políticos domésticos, por seu turno, articulam-se através da politização da insegurança e do “terror”, financiada e factualizada pela indústria dos estudos do terrorismo, e governamentalmente espelhada no “arquipélago de gulags” e na banalização da tortura aceite como preço a pagar pela defesa do “nosso” modo de vida e da “nossa” segurança.

A proposição que os suíços foram chamados a votar é islamófoba. O resultado do voto é islamófobo. Nisto, em nada é excepcional a Europa de hoje. O que verdadeiramente interessa, porém, é entender criticamente o que esse voto representa: o que nele se traduz das articulações e cumplicidades entre as ideologias e retórica dos partidos e movimentos de extrema-direita populista e os partidos parlamentares; entre os actos de violência dos fascistas de rua e as “corajosas” opiniões prêt-àporter dos comentaristas de imprensa e da blogosfera do espaço público liberal; entre as especificidades do enclausuramento identitário nacionalista em cada país e o todo (que é mais que a soma das partes) dos exclusivismos de uma identidade “europeia” e de um “Ocidente” que esquece e apaga o enredado global da sua história.

É islamofobia. Importa o nome; mas o que mais interessa é pensar e debater as continuidades ou a novidade da islamofobia e do racismo contemporâneo. É um pensar/ agir. Identificar e nomear um fenómeno como islamofobia faz parte de um processo de contestação pelo reconhecimento, pelo direito de cidade dos muçulmanos. Mas não é tarefa que cabe ou cumpre apenas aos muçulmanos, e sim a todos os cidadãos comprometidos em criar e conviver numa sociedade e num mundo mais justos. *Professor no King”s College de Londres

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