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A cantora que ama os poetas

A cantora que ama os poetas

Pela segunda vez em Maputo, onde actuou em conjunto com Moreno Veloso e Domenico Lancelotti, no passado dia 27 de Março, na sala do Centro Cultural Universitário, Adriana Calcanhotto falou com @ VERDADE um pouco de tudo: da forma como iniciou a carreira, das referências musicais, dos álbuns, de poesia e… da sua música.

 

@ VERDADE (V) – Como é que a música entrou na sua vida?

Adriana Calcanhotto (AC) – Desde sempre que cresci num ambiente musical. O meu pai era músico, baterista, e a minha mãe bailarina e depois passou a coreografar. Os ensaios do conjunto dele faziam-se na garagem da nossa casa. Circulava música por todo o lado. Lá em casa apareciam sempre músicos e, claro, instrumentos. A minha mãe escutava mais música erudita e o meu pai jazz, Miles Davis, Piazzola…

(V) – Música brasileira não se ouvia?

(AC) – Não muita. A música brasileira que eu escutava era sobretudo a que passava à tarde na Rádio Popular muito ouvida pelas babás (empregadas). Dos intérpretes brasileiros o meu pai gostava muito de João Gilberto e a minha mãe de Elis Regina. Mais tarde, já na adolescência, descobri a música brasileira que não era bem a das empregadas que passava na Rádio Popular. Fiquei louca com Maria Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque.

(V) – Quais são, então, as suas grandes referências musicais?

(AC) – É um tripé constituído pela música erudita transmitida pelos meus pais; as canções populares ouvidas na rádio com as empregadas, eram o oposto disto mas considero que foi muito importante na minha formação porque eu não hierarquizava a música; e a música brasileira interpretada por Bethânia, Caetano e Chico, Gil, etc.

(V) – Qual é o instrumento com que melhor se relaciona?

(AC) – De todos os que já experimentei sem dúvida que é o violão. Mas já constatei que, quanto mais tempo nos afastamos dos instrumentos, mais difícil é a recuperação da perfomance. Ficam muito zangados quando nos apartamos deles.

(V) – Quando é que começou a tocar mais profissionalmente?

(AC) – Aos 18 ano quando comecei a tocar em bares e clubes de Porto Alegre mas sempre de voz e violão, nunca com banda. Aprendi muito também com os colegas da noite, muitos deles tinham convivido com o Luciano Rodrigues que já tinha morrido, mas era um ícone.

(V) – Quando é que disse para si: vou abraçar a profissão de músico?

(AC) – Eu, como todas as crianças, pensei em ser astronauta, missionária, mas ao mesmo tempo tinha uma certeza: ia viver da música.

(V) – Trabalhou também para teatro?

(AC) – Sim, mais no início. Era muito importante para mim entender essa coisa da cena. Na perfomance teatral eu ficava sempre com a parte musical.

(V) – O seu primeiro álbum intitulou- se “Enguiço”. Foi assim tão difícil como o nome sugere?

(AC) – Foi bastante difícil. Esse reportório tinha muita subtileza e ironia e isso não passou para o disco. Não fiz aquelas músicas a pensar num álbum. Por isso na passagem perdeu-se toda a ironia. O álbum não traduz aquilo que na verdade eu estava a fazer. Estava a fazer aquilo com os meus músicos que entendiam o que eu estava a fazer e aquilo não foi transposto para o disco.

(V) – Acha que o sucesso ou insucesso de uma carreira pode depender muito do primeiro álbum?

(AC) – Acho que não. Se o músico for bom lança outro álbum a seguir e obtém facilmente sucesso. Também depende se é alguém que quer fazer a sua música ou simplesmente obter sucesso musical. Depende dos objectivos e igualmente, como em tudo, da persistência e perseverança.

(V) – Houve uma altura que chegaram a compará-la a Elis Regina. Porquê?

(AC) – Foi a imprensa que me comparou quando cheguei ao Rio (de Janeiro). É um facto que fui muito influenciada por ela porque a minha mãe talvez tenha sido a maior fã que a Elis alguma vez teve. Na música brasileira a Elis era a paixão da minha mãe. Mas atribuo essa comparação ao facto de sermos as duas de Porto Alegre.

(V) – Quando actuava não procurava os trejeitos da Elis?

(AC) – Sim tinha, de facto, uma influência muito grande dela. Mas não era a única, havia muitas outras. Mas a imprensa escolheu-me. Mas, mesmo na época, senti que aquilo ia passar.

(V) – Sentiu muito a sua morte prematura?

(AC) – Foi um grande choque. Tinha visto, pouco tempo antes da sua morte, o seu último espectáculo em Porto Alegre. Fiquei mesmo muito abalada. Direi mesmo traumatizada.

(V) – A poesia é também uma das suas paixões. Chegou mesmo a musicar poemas de Mário Sá Carneiro. Gosta especialmente deste autor?

(AC) – Gosto muito. O meu primeiro contacto mais estreito com a poesia portuguesa foi esse trabalho de musicar poemas de Mário Sá Carneiro. Foi uma encomenda que me fizeram para o dia do lançamento da obra completa de Mário Sá Carneiro no Brasil. Convidaram- me para musicar poemas seus à minha escolha. Confesso que até aí conhecia mal a sua obra. Nem sabia que tinha escrito para teatro. Foi uma noite muito especial.

(V) – Na poesia de língua portuguesa quais são as suas grandes referências?

(AC) – São muitas. Entre os contemporâneos destaco António Cícero, Waly Salomão, Alice Santana, Atília Lopes, Alexandre O’Neil, e todo o cânone brasileiro: Manuel Bandeira, Vinicius de Morais, Carlos Drumond de Andrade, João Cabral e Ferreira Goulard.

(V) – Conhece alguma coisa da poesia moçambicana?

(AC) – Muito pouca coisa.

(V) – Nem José Craveirinha?

(AC) – Sim, esse sim (risos).

(V) – Em 2004 fez uma incursão pelo universo infantil acabando por lançar o álbum “Partimpim”. Como é que explica o enorme sucesso obtido?

(AC) – Acho que no Brasil a música infantil, nem gosto desta classificação, teve sempre uma produção muito fraca no sentido em que não entusiasma nem estimula as crianças. Acho que o Brasil só possuía um único modelo de música infantil. Estava há anos a fazer-se a mesma coisa. Achei, por isso, que era altura de inovar. O sucesso foi tão grande que quisemos várias vezes pôr termo aos espectáculos mas não conseguimos. Houve um grande apelo das crianças. Estivemos quase um ano representando.

(V) – Porquê Partimpim?

(AC) – Quando tinha três ou quatro anos e as pessoas me perguntavam o nome eu dizia que me chamava Adriana Partimpim. Não tenho memórias disso, mas o meu pai sempre me contou esta história. Até hoje ele só me chama Partimpim. Adoptei esse nome como um heterónimo.

(V) – Conhece alguma coisa da música moçambicana?

(AC) – Muito pouca coisa. Mas desta vez prometo que vou levar mais uns CD’s na bagagem.

(V) – No Brasil, há um grande desconhecimento do que se passa em Moçambique. Como é que explica, embora falemos a mesma língua, esse alheamento?

(AC) – É uma característica dos brasileiros. Sabem muito pouco de Portugal, da própria América Latina, do mundo lusófono. Estou a falar de uma maneira geral, depois, claro, que há grupos que conhecem bem, mas são uma minoria. Muitas vezes, a população em geral, quando ouve o português de Portugal não compreende, acha que estão a falar uma língua estrangeira. As pessoas de pouca instrução acham que Portugal não é uma coisa contemporânea. Sabem que foram os portugueses que descobriram o Brasil, mas acham que é uma coisa do passado, que o país já não existe.

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