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“Frustrados” com o futebol, os gémeos Manhiça tornaram-se músicos e querem ser empresários

“Frustrados” com o futebol

Elias e Augusto José Manhiça são gémeos, produtores e tocadores de instrumentos musicais que – tendo visto as possibilidades de se tornarem futebolistas geniais a minguarem, em resultado do desacordo dos seus pais, em relação à prática desportiva – desde a infância até os dias actuais, dedicam-se às artes. Com 26 anos de idade e 10 de carreira, os artistas têm o sonho de edificar uma empresa de produção e venda de instrumentos de música tradicional.

O estimado leitor há-de convir que qualquer moçambicano que não tenha praticado futebol, na infância, teve uma experiência um tanto frustrante. É que apesar de o nosso país, Moçambique, não ter tradição nessa modalidade- rainha, o que se depreende a partir da escassa e, muitas vezes, menos bem-sucedida participação da nossa seleção nos certames futebolísticos do continente africano, quase todas as crianças – com ou sem uma bola convencional – jogam futebol.

Os “xingufos”, bolas de farrapos, muitas vezes, manufacturados pelos petizes, substituem a bola. Entretanto, Elias e Augusto José, simplesmente, não jogaram continuamente à bola porque os seus pais, com alguma razão, assim não queriam, o que em parte foi importante, afinal criou as bases para o vínculo dos jovens ao mundo das artes. Acompanhe, estimado leitor, nos próximos parágrafos a conversa mantida com os gémeos.

@Verdade: Quando e como começa a vossa relação com os instrumentos musicais?

Gémeos: Digamos que a nossa relação com os instrumentos de música tradicional começa em 2003, altura em que os nossos pais contestaram o hábito que tínhamos, ainda petizes, de praticar futebol. Na verdade, a sua oposição foi causada pelos ferimentos que vínhamos sofrendo sempre que nos deslocávamos a um campo de jogos. Face a esses problemas, os nossos pais impediram-nos de continuar a jogar futebol.

Então, passámos a dedicar-nos à arte, aos instrumentos musicais. Passado algum tempo, no dia 27 de Fevereiro de 2003, com alguns amigos de infância, construímos aparelhos de som. O material era feito de latas e tecidos velhos, incluindo plásticos. Nessa época contávamos com o apoio do nosso irmão que, na altura, esculpia a medeira em casa. Então, na mesma data, fizemos o nosso primeiro ensaio, em que discutimos e escolhemos o nome do agrupamento.

Entre as várias alcunhas passiveis de serem adoptadas para a nossa identificação, optámos pelo nome “Crianças da Paz”, que nos dignificou. No entanto, nos finais de 2004, tivemos um convite para fazermos parte da Associação Cultural Wuchene. Aceitámos, pois ainda estávamos à busca de experiência. Trabalhámos com eles, embora durante um curto período de tempo, mas sem largar o projecto “Crianças da Paz”.

No mesmo ano, recebemos outra solicitação para fazermos parte da Organização Continuadores de Moçambique. Em 2005, aceitámos outro pedido para sermos membros da Companhia Xindiro, considerada uma das melhores colectividades de dança tradicional em Moçambique. Nessa agremiação trabalhámos durante um ano pois, mais tarde, fomos enquadrados no conjunto Miloro em que actuámos com artistas conceituados. Em 2009, tivemos que nos incorporar na Companhia Nacional de Canto e Dança. Foi, então, a partir de 2010 que decidimos trabalhar especialmente para a Associação Wuchene.

@Verdade: Participaram em vários agrupamentos de música tradicional em Moçambique. A que se deveram essas mudanças?

Gémeos: Acreditamos que todas as mudanças acontecem por causa da busca de algo melhor. Por exemplo, quanto mais a nossa vontade de aprender crescia, sentíamos a necessidade de pedir a nossa mãe para que nos ensinasse algumas canções folclóricas. No entanto, apesar de essa experiência ter sido útil ao nosso desenvolvimento, isso não bastava.

Queríamos mais. Por isso, continuamente, filiámo-nos em vários grupos. De todos os modos, vale a pena esclarecer que, antes de passarmos por todas estas organizações, fomos membros do Grupo Coral da Igreja Apostólica. Lá aprendemos a dançar, a cantar e a desenvolver uma série de actividades afins do movimento artístico, em jeito de súplica e louvor a Deus.

Nunca estivemos estabelecidos durante muito tempo na mesma associação cultural. Esse dinamismo deveu-se à necessidade contínua de querer crescer e aprender mais para sermos os melhores no que fazemos. De todos os modos, isso não significa que os agrupamentos por onde passámos não tinham as condições de que precisávamos.

@Verdade: Chegaram a actuar no estrangeiro?

Gémeos: Felizmente já tivemos várias participações fora do país. Em 2010, pela primeira vez no estrangeiro, fomos convidados a fazer parte da Expo Xangai, na China. Esse evento coincidia com os 35 anos de independência e de cooperação entre Moçambique e China.

No ano seguinte, 2011, participámos no Festival da Lusofonia que teve lugar em Macau e numa apresentação alusiva ao 19 de Outubro, em Mbuzine, na África do Sul. Em 2013, participámos num festival de dança, na Suécia. Acreditamos que conseguimos representar Moçambique ao seu mais alto nível, pois nos países estrangeiros sempre mostrámos os instrumentos tipicamente moçambicanos como, por exemplo, o xitende, e também aprendemos muito.

@Verdade: Para além de batuques, que instrumentos tocam?

Gémeos: Diríamos que tocamos todos os instrumentos tipicamente moçambicanos, tais como timbila, mbira, xigovia, xitende, xipendane, entre outros.

@Verdade: Como e onde aprenderam a tocar esses instrumentos, uma vez que não fazem parte de nenhuma academia de música e muitos deles são mais usados no norte do país?

Gémeos: De facto, é verdade o que diz. Aprender a tocar instrumentos musicais tem sido uma tarefa difícil, pois a maioria deles é fabricada em zonas rurais, para uso doméstico, sobretudo nas celebrações familiares. Como as comunidades rurais conhecem a utilidade de cada um, valorizam-nos. Portanto, de vez em quando uma delegação do nosso grupo viaja até as províncias, onde ainda se preserva cada instrumento, a fim de trazer exemplares. Além disso temos a cultura de participar em workshops, incluindo o Festival Nacional da Cultura, onde também aprendemos a tocar e a utilidade sonora de cada material.

@Verdade: Ainda têm desejo de jogar à bola?

Gémeos: Por incrível que pareça, sim. Mas é preciso realçar que não nos arrependemos de estar a seguir as artes. O futebol é emocionante, mas a arte possibilita-nos a manifestação da nossa cultura. É uma forma de se dizer o que se sente, através de recordações e histórias. Por exemplo, a dança Xigubo aborda o tempo da guerra de resistência ao colonialismo português. Hoje podemos revisitar a história, através da dança. Então a arte tem essa abertura e esse mistério revelado através de manifestações.

@Verdade: Que planos têm para o futuro?

Gémeos: Temos planos de abrir uma oficina de produção e reparação de instrumentos de música tradicional. Queremos que os materiais de música estejam mais perto dos artistas. Pretendemos que os artistas da capital moçambicana valorizem estes artefactos, tal como acontece nas zonas rurais.

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