Os pais do Marquinhos estavam preocupados. Depois de dois lacónicos cartões postais (“Tudo bem” e “Je suis OK”) mandados de Paris, não tinham mais notícia dele. Semanas, meses, e nenhuma notícia. Que fim levara o Marquinhos?
A mãe imaginava coisas. Marquinhos preso. Marquinhos acidentado. Marquinhos desmemoriado, vagando pelas ruas de Paris.
Bem que ela dissera, quando Marquinhos anunciara a sua intenção de ir para Paris:
– Fazer o quê em Paris, meu filho?
– Me dedicar à arte.
– E viver de quê?
– Eu me viro. O pai avisara:
– Não conte com dinheiro de casa.
Marquinhos repetira:
– Eu me viro.
A preocupação da mãe era essa. Como o Marquinhos estaria se virando em Paris? E porque não mandava notícia?
A mãe tomou uma decisão. Iria a Paris procurar o filho. E foi. Só tinha uma pista para começar a busca. Num dos seus cartões postais, Marquinhos incluíra um endereço de remetente.
A mãe escrevera para o endereço várias vezes, sem resposta. Marquinhos, provavelmente, não estava mais lá. Mas talvez alguém se lembrasse dele no endereço. Talvez alguém tivesse uma ideia de onde encontrá-lo. Ou pelo menos onde procurá-lo.
Nada.
A mãe pediu ajuda ao consulado brasileiro. Fizeram um levantamento nos hospitais da cidade. Nos abrigos de indigentes. Na polícia.
Nada.
Nem sinal do Marquinhos.
Um dia, a mãe estava atravessando uma ponte sobre o rio Sena, já sem esperança de encontrar o filho, já resignada a voltar para casa sem saber que fim levara o Marquinhos, quando ouviu um “pst”. Olhou em volta. Várias pessoas também atravessavam a ponte e algumas paravam para apreciar uma estátua dourada colocada sobre um pedestal na calçada.
Outras seguiam em frente. Nenhuma parecia ser a origem do “pst”. Mas a mãe ouviu outro “pst”. E viu que… Não podia ser. O “pst” vinha da estátua!
A estátua não era uma estátua. Era uma pessoa imóvel, envolta numa espécie de toga, fingindo de estátua. Pintada de dourado da cabeça aos pés. Uma alegoria de alguma coisa. E a alegoria estava falando. Com o canto da boca, esforçando-se para que o movimento dos lábios não fosse percebido.
– Mamãe, sou eu.
– Marquinhos?!
A estátua fez que “sim” movendo a cabeça alguns milímetros.
– Meu filho! O que eu vou dizer pró seu pai? Todo o dinheiro que ele gastou na sua educação pra você virar estátua?!
– Em Paris, mamãe. Em Paris
– disse o Marquinhos, pelo canto da boca.
A mãe voltou para casa. Diria ao marido que o Marquinhos estava bem e se dedicando à arte. Não precisaria entrar em detalhes.