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“1º de Maio”: bairro de mil castigos!

“1º de Maio”: bairro de mil castigos!

Depois de ser transportado como lenha, devido à falta de transporte e por precariedade das vias de acesso, quem mora no bairro “1º de Maio” – também conhecido por Khongolote, a leste da Matola – corre o risco de ser cataneado ao desembarcar. É também lá onde ninguém remove o lixo, os assaltos às residências multiplicam-se e fornece-se água e energia de péssima qualidade.

18 horas. Uma estimativa dá para entender que, entre os sentados e os arrumados no corredor em trés filas indianas dentro de um chapa “rosa” concebido para 32 passageiros, somos cerca 50 de passageiros. Mesmo de pé, não nos é possível enxergar o motorista, pois, naquilo que se chama cabine estão apinhadas cerca de dez passageiros. Nas duas filas, com duas cadeiras cada, estão três ou quatro passageiros sentados uns em cima dos outros.

Entre vários problemas daquele bairro o maior é, certamente, o castigo de os moradores serem transportados como mercadoria. Mas entre proibir e tolerar que pessoas sejam levadas de forma desumana, os próprios castigados elegem a primeira opção. E justificam: “Mesmo viajando como animais, estamos vivos. Impedindo seria decretar a nossa morte!”.
Ainda assim, estamos incompreensivelmente entusiasmados com a ideia de viajar nas rotas que levam a Khongolote. Vamos conhecer um lugar que um dia ficou famoso e abriu (tele)jornais devido a um suposto lobisomen, ou o homem-cão, uma fábula que alguém inventou inspirando-se numa novela brasileira.
A viagem Museu-Zona Verde é, afinal, apenas o inicio do calvário que parece nunca ter fim. Aqui dentro devem ser 40 graus. Por isso, uma mulher implora para que se abram as janelas pois “sinto que vou desmaiar”. Quem teve a sorte de se sentar à janela responde que não pode: “é para os “ninjas” me arrancarem o meu celular e brincos?” De repente, o carro ronca e arranca. Para se saber onde estamos há que escutar os gritos do cobrador :”Belita alguém desce? Malanga? Romos? Mangueira? Jardim? Choupal? Benfica… “Nesta hora da ponta, com todo o mundo que parece querer fugir da cidade, a ordem do cobrador é esta: “Onde desce um entram 5”.

E nesta penosa viagem de duas horas, nada mais se pode pedir ao bom Deus a não ser que cheguemos o mais rápido possível. Para descansar do castigo.

Puro engano, o que nos espera, afinal, é o pior: da Zona-Verde ao terminal do mercado Licuacuanine é uma viagem feita numa rota agreste. “Empacotados” no banco de trás – a lembrar um guarda-redes de hóquei em patins – estamos com os pés penosamente apoiados sobre os guarda-lamas de uma sucata de caixa aberta. O Américo Chongo, o nosso guia e companheiro de viagem, apela-nos para que tenhamos calma pois até chegar no terminal “temos ainda cerca de oito quilómetros à frente para percorrê-lo nesta posição de guarda-redes de hóquei.

Depois de várias e perigosas curvas e contracurvas, chegámos no Nkonoloene, a sede política do bairro 1° de Maio. Em posição de combate, 5 membros da Força de Intervenção Rápida, FIR, que estacionaram debaixo de um canhoeiro o BTR com a chapa de inscrição PRM-000347, mandam parar e exigem licença de transporte de passageiros. O motorista diz que não tem. Os passageiros, atormentados, tentam implorar: “ chefes… é apenas uma ajuda que ele está a fazer, pois os TPM´s nunca chegam aqui!” Perca de tempo: a ordem é irreversível: somos “descarregados” aqui. Os restantes cinco quilómetros são feitos a pé. São 22 horas. Dói-nos o corpo todo. Não há mais nada a fazer senão solicitar uma cama.

Império de estupros

Às 4 da manhã do sábado somos sacudidos: “se querem estar na cidade às 7 horas é bom começar a procurar por ´chapa´ agora!” Podemos considerar-nos jornal de sorte, no entanto: sentada no banco de madeira, Catija Armando, 22 anos, está a chorar. “Fui violada”, disse ao oficial de permanência. Eram 19 horas da sexta-feira, 25 de Abril, quando um jovem, descrito como consumidor incorrigível de “cannabis sativa” – vulgo soruma – agrediu-a e violou-a sexualmente. O pior: “Ele não usou preservativo”.
Reconhecido pela vítima, agentes da PRM foram prender o criminoso. Mas como um mal nunca vem só, o estuprador escapuliu-se das autoridades. É isto que o senhor Khossa, chefe do sector policial montado em Março no mercado “7 de Abril”, classifica de “inexperiência profissional”. Ali há falta de quase tudo, incluindo algemas – a única que existe está estragada, o que facilitou a fuga do estuprador – e bastão, duas armas tradicionais da Polícia. Longe da cadeia, a única solução foi tentar recapturá-lo.

Para tal, a PRM recorreu ao seu tio e dono da casa onde o violador mora(va). Não é preciso ser criminalista para perceber que ninguém responde pelo abuso cometido por outrém. É por isso que, até às 11 horas da segunda-feira, 27, isso não passava de simples intenção pois, notificado, o tio do suposto criminoso ainda não se tinha apresentado à Policia.

Enquanto isso, o chefe Khossa tentava convencer a vítima a ir fazer um teste de espermatozóide – e possivelmente de HIV/SIDA – para se averiguar a gravidade da agressão sexual. Mas para tal era necessário que, desde sexta-feira, dia do crime, até segunda-feira, a Catija não tomasse banho. Tomar banho significa remover evidências criminais, abrindo espaço para dúvidas que favorecem o violador.

Catanadas…

Até Dezembro, o bairro sobre o qual escrevemos era calmo. Mas isso acabou porque, de Janeiro a esta parte, pelo menos cerca de 10 moradores foram cataneados e despojados de dinheiro e telemóveis. No principio, cogitou-se que se tratava de ajustes de contas. Mas, a partir da altura em que o número de vitimas foi aumentando, o povo afastou tal hipótese e passou a acreditar que são vítimas da escalada criminal que até ano passado (ou)viam nos (tele)jornais como assunto exclusivo de Chamanculo, Mafalala, T-3 ou Zona-Verde.

O jovem publicitário João Tembe sabe o que é ser roubado na sua própria casa: “Deviam ser 2 horas da madrugada quando, por instinto, fui à de sala e vejo um sujeito com um gorro na cabeça, pronto para colectar leitores de DVD e outros aparelhos domésticos.” Como todo o cuidado é sempre pouco e com ladrões não se deve brincar, João Tembe diz que teve que se afastar do estranho visitante noctívago. Solução? Gritar. Resultado: “O ladrão escapuliu-se da mesma janela que para entrar havia arrombado. Mas já havia roubado dois telemóveis e uma carteira que continha documentos pessoais.”

Em Janeiro, Sérgio Mangue, 18 anos e estudante nocturno de 11ª classe, foi assaltado três vezes quando regressava da Escola Secundaria Josina Machel. Não é o único que conta que “primeiro arrancaram-me telemóvel. Depois a pasta escolar. No terceiro dia bateram-me porque não tinha nada que interessasse aos bandidos: dinheiro!” Para não desistir da escola, como muitos fizeram, Sérgio teve de “fugir” do “1º de Maio”.

Bandidos “made in” Chamanculo…

Pedro Mucave, chefe do quarteirão 19, pensa que os cataneadores “são jovens desempregados que migraram da Zona-Verde, Chamanculo, T-3 e fazem do bolso alheio fonte de sobrevivência.” Com 300 famílias a seu cargo, Mucave pensa que o policiamento comunitário pode resolver a crise. Mas há um entrave que contraria essa boa vontade: falta dinheiro para pagar salários a esses voluntários. Cada vez mais desmoralizados, ao invés de proteger, os policias comunitários evoluíram para o lado mais ruim da sua missão: torturar e roubar os próprios moradores.

Uma experiência mal sucedida em Ndlavela e “Unidade D”, o policiamento comunitário foi banido. O próprio mentor-mor e polícia graduado Nataniel Macamo, já não fala mais sobre o assunto. Recentemente, reapareceu nas câmaras de TV a espalhar o novo “evangelho” da “International Policy Association” – IPA, que reuniu agentes da região austral para, mais uma vez, reafirmar a importância de os países cooperarem na luta contra o terror transfronteiriço.

1º de Maio pertence a Infulene, posto administrativo mais populoso da Matola. É lá onde o povo já passou a recusar dar os cinco meticais que cada família devia coercivamente, por mês, pagar. Mas o senhor Amílcar continua firme porque recebe 1.200 meticais pagos pelo parque de automóveis localizado no “centro”. Devoto como sempre, ele foi transferido para o posto policial “7 de Abril”, onde o encontrámos empunhando a sua AKM como se de uma enxada se tratasse.

Diário penoso de moradores

Numa conversa matinal atrapalhada pelos ruidos de motores e pelas barreiras linguísticas entre o português e ci-changana – variante linguística do tsonga mais falada no sul do país – dá para perceber do sofrimento que o precário estado da estrada traz para quem mora por aqui. São operários e camponeses a tentarem, desde as primeiras horas do dia, o lugar no primeiro “chapa” que ronque por estas bandas. Há também mecânicos, pedreiros e escriturários. Jornalistas, polícias e arquitectos. Agrónomos, pedagogos, professores e estudantes secundários e univesritários. Motoristas, taxistas e revendedoras informais. Politicos e vagabundos também.

Um deles é Américo Chongo, que não receia expor a sua biografia: “O meu desempenho profissional baixou significativamente desde há cinco anos após ter migrado da baixa de Maputo para morar aqui”. Isto porque “basta um sinal de chuva para eu perder a força e a vontade de tudo”, afirma esse jovem de 28 anos e pai de 2 filhos.

Como muitos outros moradores do 1° de Maio, Américo Chongo não se ressente quando afirma que costuma até perder o apetite de “amar” a sua bela esposa. Motivos? “Assim que a qualquer hora da noite comece a chover” E não só: “Mesmo no meu posto de trabalho também perco força e inspiração quando chove ou noto haver uma nuvem escura no céu”.

Em Abril chove pouco em Maputo mas para Chongo chegar à Zona-Verde tem de lutar para conseguir lugar num autocarro de 16 lugares que transporta quase o dobro. Ou tem de se pendurar num camião e percorrer um troço cheio de poeira. Nos meses chuvusos leva uma hora. A pé leva trés horas no mesmo percurso, porque tem de enfrentar oito quilómetros de lama vermelha. “Ou devo rezar para conseguir lugar num desses camiões que também rezam para que chova porque é sua fonte de sobrevivência”.

Chongo foi baptizado pela igreja católica-apostólica-romana, mas há cinco que “migrou” para a brasileira Universal. Não obstante possuir essa fé toda, garante que por inúmeras vezes foi tentado a pecar. E explica: “Às vezes sou tentado a interrogar-me: “Se realmente o bom Deus existe, porque não nos socorre, nós os filhos Dele daqui do 1° de Maio?”…

Porque a asfaltagem foi adiada?

Porém, é desde Maio de 2008 que os moradores de 1° de Maio/Khongolote, ao notarem os movimentos de engenheiros, painéis de sinalização e máquinas a descarregar areia vermelha – tirada ali ao lado – fê-los cogitar que, finalmente, o castigo de viajar como lenha nas rotas que ficam seis meses lama, e outros seis meses poeira, chegaria ao fim.

Pura ilusão: esse sofrimento ainda durará por mais tempo, não obstante nesse mesmo Maio – já passa 1 ano! – a governadora de Maputo, Telmina Pereira, e a ex-presidente interina do Município da Matola, Maria Vicente, terem escalado a zona para lançar a “primeira pedra” para a construção de cinco – dos oito – quilómetros de estrada que liga o 1° de Maio à Zona-Verde.

É um castigo que se prolonga há mais de 8 anos e que já inspirou apelos, lamentações e manisfestações. Nem sempre pacíficos, os moradores de Khongolote já começaram a acreditar que estão a viver num bairro onde se pode dormir crente no futuro melhor prometido – desta vez por Arão Nhancale – e acordar sacudido com uma notícia de que esse sonho está definitivamente adiado. Pior: sine die.

Ao tomar pela segunda vez posse como presidente do município, Carlos Tembe prometeu resolver o drama da via com que se debate o povo de Khongolote. Foi assim que, dentro de um plano ambicioso, o governo municipal procurou parceiros e lançou um concurso para a obra. Porém, de acordo com um engenheiro afecto ao projecto de endereçamento do Município da Matola, que rogou anonimato porque “não vão ficar as coisas mais azedas para o meu lado”, o tal concurso não passou de mais uma trafulhice que permitiu a Infra-Engineering SARL – empresa cujo PCA é um antigo combatente – ganhar em detrimento de outras empresas concorrentes tidas como honestas.

Soubemos que para que ganhasse oo concurso, a Infra-Engineering SARL terá, propositadamente, proposto que iria construir a estrada apenas com cerca de 15 milhões de Meticais, um valor muito baixo do custo real da obra. Foi com esse truque que o município terá conseguido afastar outros empreiteiros que apresentaram propostas de custos reais da obra que oscilavam, até o ano passado, entre 22 e 30 milhões de meticais.

A empresa do antigo combatente não pôde concluir a obra na data proposta (até 30 de Setembro de 2008) porque enfrentou dificuldades para (re)conciliar o valor constante da proposta (15 milhões de Meticais) com o real custo da obra. Resultado: apenas cerca de dois quilómetros foram precariamente asfaltados. O resto continua uma rota de areia vermelha.

O engenheiro disse que dois cenários se podiam esperar: ou a obra terminaria em terra vermelha batida, ou far-se-iam correcções aritméticas para que fosse realmente asfalto. A optar-se pela segunda hipótese, o governo municipal da Maria Vicente teria de lidar com a “vergonha de aceitar até cerca de 30 milhões de Meticais, os mesmos inicialmente propostos por outras concorrentes tidas como sérias, entretanto chumbadas.”
A decisão política terá suplantado a técnica? O engenheiro diz que “sim, se nos tivessem consultado, teríamos dito que não se pode construir uma estrada decente com cerca de 15 milhões de meticais”. Isto porque “uma estrada de raiz, como a “4 de Outubro”, que liga T-3 ao Benfica, com uma espessura de 4 centimetro custa entre 700 mil a 1 milhão de dólares/quilómetro”. Com esses dados, já basta para refazer a artmética e concluir que cada quilómetro do troço que ligará Zona-Verde a 1° de Maio/Khongolote teria de custar cerca de 120 mil dólares. “É uma estrada de péssima qualidade”, conclui.

Para o técnico, o ideal seria construir uma rota de pavés ao invés de asfalto. A primeira opção é mais cara mas mais duradoira e exige menos manutenção. O asfalto é menos caro mas tem o incoveniente de exigir manutenção regular.” Terá sido por isso que Comiche, depois do descalabro havido no mandato de Canana, tenha finalmente decido construir uma estrada de pavés no troço Magoanine-CMC”? Embora o @VERDADE” tenha feito esforços, não foi possível obter a versão do Município sobre o facto. Idem com a Administração Nacional de Estradas, ANE.

Da exclusão social à barganha política

Água canalizada através de furos privados, jorra quando os donos têm vontade. Idem com a energia eléctrica que se fornece de forma precária. 30 meticais é a taxa mensal de lixo directamente cobrada na compra do crédito de energia através da CREDELEC. Mas os moradores são obrigados a enterrar os resíduos porque ninguém os retira. Questionado, o vereador Lázaro Mbambamba, disse que há falta de meios. A Solução foi tentar implementar a recolha de lixo através de “tchovas”, uma ideia muito apupada pelos munícipes que acharam isso uma brincadeira de mau gosto.

Pode ser verdade que o município não tenha culpa directa pelas falhas do serviços sociais aqui arroladas. O crime e a rodovia, no entanto, tornaram-se a mais valiosa moeda de barganha política que resta a certos grupos políticos que, escondidos por detrás do direito de reivindicar o básico que o poder público deve dar por lei, já adiantaram que as promessas feitas em Novembro último por Arão Nhancale não passam de pura campanha política.

Khossa, chefe do sector policial local, não é muito aberto a diálogos por isso não nos dá muitos detalhes sobre a escalada criminal que há 4 meses assola o bairro. “Estamos há apenas dois meses aqui”, diz. Confirma que, não obstante a falta de quase tudo, o sector que dirige tem recebido queixas quantificadas mas garante ele que os seus elementos têm feito o que podem para contê-las. Amade Camal, Manuel Araújo e Alberto Nkutumula podem ser politicamente divergentes, mas convergem no diagnóstico criminal que assola o país: a pobreza absoluta e a exclusão social é que lançam muitos jovens ao mundo criminal.

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