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XÏÏKWEMBO – Da protecção

XÏÏKWEMBO - Da protecção

Agora Estou em África. E na nossa imaginação aqui o clima é quente, as cores são fortes, os cheiros são intensos, os tempos ritmados. Aqui vive-se perto da natureza, da origem do mundo, e nesse viver simples encontra-se algo perto da libertação, da felicidade.

Aqui é o lugar dos encontros, das viagens para o interior de nós. Das mudanças de vida, de consciência, de destino. E eu não sigo pelos caminhos mais pisados, isso é bem claro, e até estou habituada a encontros invulgares, surpreendentes, estranhos nas situações mais vulgares, banais, quotidianas… até a algum tempo não sabia mas eu, eu vim pelos espíritos, é aqui que vivem.

Vim pelos que vivem nas colinas, nas montanhas rochosas. Nas correntes fortes dos rios e nas águas turvas dos lagos. No escuro das grutas e no abanar suave dos coqueiros. No guincho dos morcegos e no bater das asas das águias. Dentro das lamas, entre q g g as areias. Aqui encontrei o espaço e o tempo, aqui encontrei a minha casa.

Aqui recebi a chave – bom, durante algum tempo era apenas saber o truque para abrir a porta através do vidro partido… mas foi assim que lhe senti os sons e as forças, e foi assim que a cuidei. No primeiro dia desço para uma primeira cerimónia de purifi cação: incenso, queimo incenso em todo o lado, queimo a pele com as brasas. Mas não surgem os sons.

Na segunda visita sim, canto uma música que já quase desconhecia e ela surge sem aviso, g surge-me primeiro no coração, depois nos lábios, e q j q g só depois na consciência: g p “eu tenho um anjo, anjo da guarda, que me protege de noite e de dia, eu não o oiço, eu não o vejo…” para mim esta música é antiga e fala de mim, de lá – do lugar onde vivia.

Aqui ainda não sei, não conheço os espíritos de cá. Hoje o Índico está morno, escuro e perfumado de algas, o vento rendilha as ondas de espuma branca. Caminho, sento-me, recebo na brisa a energia da Lua. Feminina e quente. Os momentos são para mim e há muito que não admito intrusos. Aqui tenho a conquista do tempo. O tempo é meu.

Aproximo-me da água e experimento a sensação que só um pontão que avança para o mar – um falo de rochas e pedras alinhando seu caminho mar dentro, recebendo nas costas as ondas, na ponta as algas e as espuma – pode dar. Avanço. O Índico está carregado da energia da Lua e o chamamento é quase verbal, não penso muito, dispo as roupas, avanço para a água, esta maré é para mim. Mergulho numa onda e volto para as minhas roupas, molho as calças entre as pernas, o casaco no tronco, os cabelos pingam pelas costas abaixo, saio da praia com a cor viva e forte, doce e quente, de um banho de mar assim, solitário, bom. Já dentro do carro o meu corpo parece que desce, os músculos descontraem apesar do frio, e como acontece sempre não volto para casa… ainda não conheço os espíritos daqui…

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