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Where’s The Black Box?

Where’s The Black Box?

Talvez a pergunta-título da nossa matéria – onde está a Caixa Preta?, na língua portuguesa – seja uma dentre as várias indagações com que muitos apreciadores das artes plásticas visitam a mostra patente no Centro Cultural Franco-Moçambicano. Treze anos depois, The Black Box, como se chama, marca o retorno do conceituado artista plástico moçambicano, Vasco Manhiça, que reside na Alemanha, a Moçambique.

Treze anos depois de ‘abandonar’ Moçambique para Alemanha, no seu retorno à Moçambique, o artista plástico Vasco Manhiça expõe igual número de obras, numa mostra individual que se chama The Black Box.

De uma relação entre o tempo que o criador esteve, fisicamente, ausente na sua terra-mãe, pode-se depreender que cada quadro – de pintura ou de desenho – foi criada num intervalo de um ano. Desengane-se quem assim pensa. As obras apresentadas foram elaboradas, alinhavadas e concebidas de 2012 a 2013 entre Alemanha, África do Sul e Moçambique, no contexto do seu percurso artístico em busca de novas estéticas.

Fica-se, às vezes, com a impressão de que este 13 – do tempo em que esteve distante de nós, do universos da obras que expõe e do décimo terceiro ano deste século XXI – possui um valor simbólico na exposição do The Black Box. Os motivos associam-se a todos os argumentos expostos, com enfoque para a ausência.

O que se sabe sobre as obras?

Para falar sobre a criação de Vasco Manhiça, o célebre artista plástico Ulisses Oviedo – cujo comentário resume muito do que se irá dizer neste texto – estabelece a premissa segundo a qual “a virtude de uma obra reside na adesão que ela estimula imediatamente. Inicialmente, não se trata de compreendê-la, mas de sentir que ela nos é necessária”.

E não lhe faltam argumentos: “É justamente por estes atalhos que encontramos Vasco Manhiça, a liderar uma pintura que não precisa de apresentaçÕes, pois esquiva definições de enquadramentos e evidencia uma coerência visual que esvazia qualquer discurso retórico ou elucidativo”.

Nessa produção artística, além da linguagem pictórica ou imagética, a sua essência – mensagens revolucionárias e progressistas – é consubstanciada por um conjunto de discursos semânticos cravados nas telas. “The Big Boss has something to say: ‘This country is poor’” – uma mensagem que se lê num dos quadros – é um dos exemplos que expressa a visão presidencial sobre a pobreza no país.

Entretanto, The Black Box é também rotulado pelo jovem ensaísta moçambicano, Cremildo Bahule como sendo uma “exposição em que se exibe uma arte de unificação maciça”.

Ao que tudo indica, a posição de Bahule não é vulgar. Por isso, explica que “The Black Box nos remete para um problema de tensão entre o que unifica e separa a natureza humana. O que nos desagrega está à vista de todos: a língua, as tradições e o maquiavelismo. O que nos une é mais subtil e nem sempre é suficientemente visível para obter consenso e consumo: a mesma natureza humana expressa na capacidade de separar o bem do mal”. E não lhe faltam argumentos: “Compreender a natureza humana é difícil, mas é necessário. Assim, ao arrostar The Black Box, veremos que a grande preocupação, o grande sentimento de inquietação de Manhiça se centra em ‘humanizar o Homem”.

Talvez, todos atraídos pelos problemas causados e enfrentados pelo Homem de que Manhiça também, e acima de tudo, fala Oviedo e Bahule centram-se no humanismo patente nessa pintura e desenho que nos sugerem que a solução para as nossas crises deve ser vasculhada numa Caixa Preta.

É por essa razão que, para Ulisses Oviedo, “este conjunto de obras, oferece-nos, o abraço que se pretende envolvente, urgente e humanizador. Exige-nos, um olhar atento e cuidadoso para ver e rever, guardar do único modo que se nos propõe, merecidamente”. Afinal, de acordo com esse pintor, “Vasco Manhiça, um nome em suma, de quem temos muito a esperar, não está de braços cruzados e junta-se àqueles que acreditam que ‘a arte existe para demostrar que só a vida não basta’”.

Uma arte de/para a transformação

É em relação à transformação e construção social, no bom sentido, que esta arte também cumpre o seu papel. Afinal, de acordo com Manhiça, “nas circunstâncias em que vivemos hoje, em Moçambique e em África, a arte deve transcender a mera criação estética. Ela deve ser usada como um instrumento de sensibilização, consciencialização, emancipação, educação e, particularmente, como uma ferramenta de luta para o progresso de um povo”.

Como tal, como conclui Cremildo Bahule, The Black Box pode, até, ser a caixa que contém os segredos de uma aeronave ou a parte negra da humanidade. Contudo, “ela, agora, assume-se como uma ‘arte instrumental, arte plena, arte de acção’. Ou seja, aquela que engloba a plenitude da razão lógica e da razão axiológica, e que tem como desígnio construir o Homem na sua amplitude antropológica”.

Somos impelidos a convir com Vasco Manhiça ao considerar que – sendo uma dádiva das forças divinas – “a arte deve ser empregue não, apenas, para gerar benefícios pessoais ou privados, mas para aproximar os Homens”.

Para apreciar, The Black Box foi inaugurado a três de Setembro e encerra no dia 28, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo.

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