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Viver o teatro

Viver o teatro

Maria Atália tem tudo para ser uma grande actriz e encenadora. A meio ano para obter a licenciatura em “Encenação e Dramaturgia do Curso de Teatro”, a jovem deixa o mundo do anonimato para a ribalta das artes cénicas. E, diga-se, fá-lo com mestria e revela o segredo: “É preciso transformar tudo em teatro”, num país em que esta vertente cultural é vista como “uma palhaçada”. Não lhe falta fôlego, até porque, diz, “não sei fazer nada na vida que não seja teatro”.

Durante 20 anos, dos quais quatro na academia, ela teve uma relação intensa com o teatro. Encenou e participou em inúmeras obras. “Culpado?”, “Amores da dona Perlipim”, “Medeias de Sócrates”, “O fogo da rainha Marhumana”, “A história repete-se I e II”, e “O candeeiro do vizinho” são alguns dos trabalhos memoráveis. Mas a lista não termina por aqui.

Também participou em “O meu celular” e “Mulheres, guerra e harmonia”, respectivamente nos Grupos M´Beu e Ntiyinso, além de uma aparição em “Lobolo”, uma das melhores obras que o imaginário cinematográfi co moçambicano já produziu. Mas não há dúvidas de que é no teatro onde a actriz encontra “um buraco para a sua agulha”.

Combater os estereótipos

Actualmente, com vários conceitos sobre o teatro, as transformações que a escola operou na actriz não somente se traduzem numa enciclopédica performance em palco, como também na teoria.

“Se antes acreditava que o teatro era uma imitação da vida, agora descubro que não se deve apenas imitar a vida e tão-pouco levar para o palco o que ela é. Mas também é preciso fazer algo completamente diferente dela”, explica.

Afinal, devido aos estereótipos de certos grupos de teatro, “quando se pretende representar um pobre, leva- -se para o palco um indivíduo com roupa suja e rota. Esquece-se que há muita gente pobre que não anda suja. A pobreza não deve ser associada á porquice”, comenta.

A jovem actriz diz que há vezes que o naturalismo “não serve para o teatro” e, por isso, o conceito adequa-se aos objectivos do dramaturgo. “Mas se eu pretender montar uma peça com atitudes naturalistas, posso dizer-te que o teatro é a imitação da vida. Penso que nem os naturalistas, nem os realistas, nem mesmo os que não defendem nenhum dos dois conceitos estão errados, tudo depende da situação teatral”, esclarece.

Criatividade e imaginação

Se, por um lado, durante muitos anos, os actores e os dramaturgos se viram obrigados a obedecer a unidades teatrais como o tempo, o espaço, o enredo e a acção, resultantes da rigidez dos paradigmas do teatro clássico, por outro, o teatro contemporâneo revela-se dinâmico, deixando, assim, os dramaturgos com mais liberdade.

No teatro contemporâneo, segundo Maria Atália, as pessoas não se prendem à estrutura do texto. “O texto é apenas um elemento de partida para a construção de uma série de situações teatrais que não tem muito a ver com o mesmo”.

Assim, os actores não precisam de se apegar às regras do teatro clássico e, com efeito, as reclamações sobre a falta de texto e de uma obra que se adeqúe à realidade moçambicana deixam de ser justificação para a letargia criativa. “Podemos criar uma peça teatral a partir de uma lista telefónica ou de um jornal. O fundamental no encenador e no actor é a criatividade e um forte imaginário que o possibilitem trabalhar no teatro”, diz.

Da mesma forma que o teatro contemporâneo não se aprisiona ao texto, também não clama por um espaço físico altamente adequado – uma sala de teatro. Até porque se pode fazer um espectáculo teatral na rua sem nenhuma estrutura especial. “A minha preocupação é o facto de o actor continuar preso ao texto, à palavra. Sinto que há necessidade de se partir de um texto e descosturá-lo como a gente entender”, afi rma.

A experiência não conta

Maria Atália não se gaba do seu talento. Mas orgulha-se de ser uma das 13 estudantes dos 25 que constituíam a primeira turma do Curso de Teatro da Universidade Eduardo Mondlane – prestes a terminar a formação. “Quando o assunto é galgar o palco, nem a formação e tão-pouco os anos de experiência ajudam. O frio na barriga e o nervosismo prevalecem”, comenta.

Embora conheça todos os exercícios para relaxar e afugentar o nervosismo, ainda sente medo minutos antes de subir ao palco. “Antes de cada actuação tenho feito uma oração. Falar com o meu Deus. É algo que já faz parte de mim”, conta.

Fúria da mulher vs madrasta

Em “Medeias de Sócrates”, um monólogo por si encenado e apresentado na II Feira do Livro de Maputo , além de engrandecer a cultura moçambicana, Maria Atália abordou uma das razões que podem justifi car a onda de “meninos na/da rua”, crianças que, uma vez marginalizadas, se tornam delinquentes, piorando a inoperância do papel social dos nossos governantes.

A obra, em que o encanto não somente se restringe à beleza e actualidade do texto, retrata o dilema de uma mulher traída pelo marido. Como se não bastasse, expulsa-a de casa, com os dois filhos. Com um passado condenatório – matou o irmão para fugir com o marido prevaricador –, ela não pode regressar ao lar paterno.

Pensando nas maldades de que os seus filhos seriam vítimas por parte da madrasta, e desgastada pelo amor que lhe é negado, resolve matar os filhos. O assassinato não é somente para poupá-los de um suposto sofrimento que passariam com a madrasta, mas, acima de tudo, para se vingar do marido. O objectivo é que o marido se sinta culpado por se ter separado dela e tê-la expulsado de casa.

Apesar de a história nos ser familiar, na peça, o acto de “matar os filhos” acaba por metaforizar as 1001 formas furiosas através das quais uma mulher traída pode agir. Por um lado é, igualmente, uma forma de alertar os maridos que na eventualidade de surgirem contendas e desentendimentos, resultantes de traição entre os cônjuges, as crianças não devem ser punidas por erros que não cometeram.

Por outro, a “Medeias de Sócrates” pode ser entendida como uma forma de construir ou reconstruir um conceito que ainda está fortemente enraizado na sociedade moçambicana.

Maus cursos ou maus estudantes?

No cômputo geral, o desprezo por que os estudantes das artes, do teatro em particular, passam, não só revelam a fraca percepção das artes como o que há de mais lamentável no século XXI a ignorância. Segundo Maria Atália, a maior parte dos moçambicanos pensa que a formação superior é apenas Medicina, Direito, Contabilidade e por aí em diante.

Visando este grupo – à guisa de resposta – Atália afirma: “não há melhores cursos, há maus estudantes”. Afinal, “mesmo que alguém faça Direito, se for mau estudante ninguém demanda os seus serviços – o mesmo acontece com o teatro”, salienta. Portanto, o importante, acrescenta, “é transformar a minha arte em algo respeitável. Que faça render. Aliás, eu não sei fazer outra coisa na vida que não seja teatro. Desde que me conheço como gente, o meu primeiro salário veio do teatro”.

Construir novos públicos

Maria Atália defende que, na sua maioria, os que desdenham o teatro nunca tiveram acesso a um concerto de género. Por isso é urgente que se conquiste novo público em novos lugares.

“Em Khongolote, as pessoas não têm noção de teatro. Sinto que uma das razões que faz com que as pessoas desdenhem o teatro é que não têm conhecimento do que seja. Pensam que é palhaçada”, exemplifica, remetendo à necessidade de transformar tudo em teatro. Além do mais, as salas de teatro disponíveis na cidade de Maputo – Casa Velha, Teatro Avenida e Teatro Gilberto Mendes – já têm o seu público-alvo.

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