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Viver na gandaia e continuar a ser gente

Viver na gandaia e continuar a ser gente

Estamos na lixeira do Hulene – nos arredores da cidade de Maputo – onde o tempo, para aqueles que vivem na gandaia (acto de revolver lixo), não conta. É um território estranho, desumano, repugnante e, até certo ponto, cruel. Vivem ali – dos detritos que são despejados diariamente – homens de todas as idades, incluindo velhos e crianças, que nos vão dizer, sem qualquer remorso, que “nós comemos carne todos os dias”. Mas essa carne de onde é que vem?! E eles sabem perfeitamente de onde é que vem essa carne! “Vem nos camiões da Neoquímica”. A Neoquímica é uma empresa que tem camiões cuja vocação principal é recolher para a lixeira restos de comida que já não servirão para o consumo humano, mas que tem comensais especiais: os sobreviventes da gandaia.

Chegámos de manhã e, como não tínhamos ainda a informação detalhada do que estava a acontecer, ficamos receosos – depois de estacionar a viatura que nos transportava – e ansiosos: descemos ou ficamos à espera de orientações? Alguém nos dizia que será extremamente perigoso andar por perto da lixeira, onde aqueles jovens perderam toda a sensibilidade humana. Eles podem te agredir, violar e até matar, por isso, todo o cuidado será muito pouco. E nós queríamos compartilhar com o nosso leitor, o outro lado da vida, que é protagonizada diariamente por homens e mulheres, incluindo velhos e crianças, que medram alimentando-se de comida putrefacta e dormindo ao relento e fazendo filhos na lixeira.
Mas o que chamou a nossa particular atenção foi sabermos que existem “sobreviventes da gandaia” que frequentam cursos de fotografia e dança, numa casa de caridade tutelada por italianos e que está situada quase paredes-meias com a lixeira do Hulene. E o mais intrigante ainda foi sabermos que, depois das aulas, esses mesmos jovens voltam ao local onde vivem, revolvendo o lixo para continuarem a (sobre)viver, “porque o que nos dão durante as aulas não é suficiente”.

 

Trabalho puxado

Não será, entretanto, das entranhas da lixeira por onde vamos começar, pois um grupo desses desafortunados estava cá fora. Com roupa limpa, diante de um computador e alguns deles com máquina fotográfica em punho. Ouvem explicações de um trabalho que eles aprenderam com um italiano “puxado” pela sensibilidade de um padre que quis valorizar o lado humano de jovens que parece já não esperarem nada. Eles – os jovens – por aquilo que vimos, na verdade, aprenderam bem aquilo que depois materializaram. Vimos fotografias, com certeza, captadas com olho sensível, como se aqueles “sobreviventes da gandaia” já alguma vez tivessem andado por aqueles caminhos. Algumas das imagens – espectaculares – são verdadeiras obras de arte. Não obstante, paira uma pergunta: depois do curso, o que será daqueles miúdos? Aonde é que eles irão implementar aquilo que aprenderam?

Sair de casa para comer no lixo

Perguntámos a Rachid Augusto, um dos seleccionados do curso, como é que ele teria ido parar à Lixeira do Hulene. “Vim para aqui porque em casa não temos nada para comer”. Esta resposta de Rachid traz um peso demolidor quando pensamos que alguém foge de casa por falta de comida e procura essa comida numa lixeira.
Quanto à sua participação no curso de fotografia, este jovem não se mostrou muito entusiasmado. “Gostei do curso, mas prefiro ficar na lixeira do que vir todos os dias para aqui”. Estes jovens, para além dos lanches a que tinham direito diariamente durante dois meses de duração do projecto, recebiam 30 MT para o almoço. “Esse dinheiro não chega para nada, gastamos num instante e voltamos a ficar no zero. Na lixeira é melhor porque, para além da comida que retiramos dos restos que vêm dos camiões da Neoquímica, apanhamos materiais feitos de plástico, alumínio e ferro e vamos vender. Isso dá-nos algum lucro, que nos permite viver mais ou menos. Agora aqui não temos essa oportunidade, por isso sentimo-nos melhor na lixeira do que estar aqui”.

Maria Letizia Cacciatori é uma italiana envolvida neste projecto, juntamente com o padre que se interessou por um grupo de jovens que, segundo ele, tinham que pensar na vida, para além do simples acto de pensarem na comida. A primeira coisa que o grupo de italianos fez foi retirar as mulheres que viviam na lixeira e dar-lhes uma ocupação, como, por exemplo, cuidar da criança que vive no bairro do Hulene. Segundo Letizia, “nós queríamos que os jovens fizessem alguma coisa, para libertarem a sua iniciativa criadora e terem uma vida condigna e o que nos pôs espantados é que eles aprenderam com muita facilidade. Fizemos um curso idêntico no ano passado, com uma duração de dois meses e este ano também repetimos isso, com o mesmo tempo. E tudo correu como o previsto”.

Exposição em Itália

Sobre o destino a dar a esse grupo de jovens que acedeu ao convite de participar num curso de fotografia e dança, Letizia respondeu-nos que esse é um problema que lhes ultrapassa. “Provavelmente alguém saberá desta iniciativa e oferecerá a sua mão para dar continuidade a um projecto que quer dar dignidade a um grupo de jovens que podem ser muito úteis ao país amanhã”.
Em relação às fotografias feitas pelos “sobreviventes da gandaia”, Letizia disse-nos que as mesmas serão levadas para a Itália onde serão expostas numa mostra a ser levada a cabo nesse sentido, também poderá ser escrito um livro sobre a vida destes miúdos e daquilo que podem fazer como arte.

Completamente recuperáveis

“Muitos deles nem falam a língua portuguesa, mas isso nunca foi obstáculo no curso que ministrámos. O mais espantoso é que eles penetram facilmente na emoção de uma imagem, sentem a expressão do estado da alma e fazem o click. Isso significa que, apesar de estarem a viver na lixeira, não perderam a parte emocional do ser”.

Na verdade, ao conversar com os jovens, sentimos que o lado psico-emocional deles, não está completamente perdido. Eles ainda podem ser recuperados pela sociedade. “Quero recordar-te apenas dum episódio: uma vez dispensámos-lhes as máquinas, foram com elas para a lixeira a fim de fazerem imagens e, ao contrário do que pensávamos, regressaram com os instrumentos intactos. Eles falam comigo de forma educada, tornaram-se até, de certa forma, meus amigos. São miúdos completamente recuperáveis e o que mais admiro neles é que preferem ser “sobreviventes da gandaia”, do que serem meninos de rua, onde vão viver de esmola.

 

Fazer filhos e morrer na lixeira

Na lixeira há velhos que de lá nunca mais vão sair. Depois da sua morte serão abandonados como fazendo parte do próprio lixo, como o são agora. Não têm onde ir e ninguém – aparentemente – sabe deles. Quando anoitece, conforme nos conta Lucas Mondlane (um jovem que não conhece a idade, mas que sabe dizer que está ali há catorze anos), queimam qualquer coisa para se aquecerem e dormem. O pior é quando chove: entregam os seus corpos às bátegas, implacáveis, sem poderem fazer seja o que for. São velhos duramente cozidos pelo sofrimento e pelo castigo e já não têm qualquer horizonte.

Dos jovens – segundo nos conta Lucas Mondlane – também não se pode esperar muito. A primeira constatação que se pode ter é a de que eles têm uma forte terapêutica de grupo. Colam-se fortemente uns aos outros, como se um não pudesse viver sem o outro. Perguntámos-lhes se não havia homossexualismo entre eles e eles encolheram os ombros sem nos dar resposta. Quanto às mulheres que vivem na lixeira, quisemos saber como é que elas se arranjam, sabido que ainda estão em idade sexual. Os jovens simplesmente responderam: têm maridos ali mesmo na lixeira. Fazem filhos na lixeira, que também passam a fazer parte da “casa”.

Sobre se, entrando um estranho na sua zona, eles não agem agressivamente, os mesmos responderam-nos que não. Mas todas as informações que temos levam-nos a duvidar da resposta peremptória dos jovens. É bastante arriscado entrar na lixeira. Você pode ser recebido pela própria morte.
No que toca a comida, o caso é arrepiante. Um indivíduo exibiu-se diante de uma máquina fotográfica a esfolar um gato morto algures fora da lixeira e transportado no carro da Neoquímica. Depois de esfolado, ainda diante da câmera, foi cortado em pedaços e cozinhado numa panela nunca lavada, depois degustado com prazer. Lucas diz que aquilo é bastante normal. “Mesmo quando a carne está podre nós comemos e ninguém fica doente”.
Pois é: viver na gandaia, no bairro do Hulene, é isso! Ou mais ou menos isso!

Mundzuku Ka Hina

Se nos formos a debruçar sobre as fotografias captadas pela retina dos “sobreviventes da lixeira” e deixarmo-nos conduzir pela brutal realidade de que esses jovens não têm outra casa senão aquele lugar imundo, então estaremos a ver a vida do lado de um inferno anormal. Será difícil explicar que um ser humano, mesmo chafurdando como um cão abominável, ainda encontra espaço na sua mente para compartilhar outros lugares com pessoas civilizadas.

Na escola – que faz paredes-meias com a lixeira – onde estes jovens foram aprender a fazer fotografia e filmar e dançar, há um aspecto que não nos vai passar despercebido: eles dialogam à vontade com as pessoas como se vivessem ali, com essas mesmas pessoas, desde que nasceram. Trazem roupa limpa e sabem comportar-se nas carteiras onde estão sentados a receber aulas. Respondem às perguntas com educação e, entre eles, parece haver compreensão mútua, ou seja, sabem repreender-se uns aos outros, quando for o caso.

Olhamos para as fotografias e perscrutamos as suas mensagens. Nenhuma delas parece ter sido feita ao acaso. Há um sinal de chamamento em quase todas elas, o que nos deixou literalmente espantados. Porque os “sobreviventes da lixeira” nunca antes tinham lidado com uma máquina fotográfica, muito menos com uma câmara de filmar. Mas eles – perante esses instrumentos – comportavam-se como se já o tivessem feito antes.

Este sinal é simplesmente arrebatador, porque o trabalho foi feito por jovens que vivem na gandaia e que à gandaia – depois de tudo aquilo – regressarão, como os próprios homens que vêm do pó e que, depois de tudo, regressam ao pó. É doloroso também saber que fotografias de valor artístico não desdenhável, foram carinhosamente amanhadas pelo olho de jovens que não sabem muito bem qual é o seu futuro. Aliás, o futuro, para eles, provavelmente, será aquele mesmo: nublado.

Seja como for, o espectáculo está na capacidade de eles acreditarem – mesmo sabendo que isso pode ser utopia – que o futuro deles ainda há-de vir. Um dia. Por isso escolheram como nome para a sua escola “A Munzuku Ka Hina”, que significa, traduzido livremente para a língua portuguesa: “O Nosso Amanhã”. E, perante este ensinamento humano, não teremos medo de arriscar perguntando: não poderão sair daqui, nesta utopia toda começada por Mundzuku Ka Hina, grandes homens do amanhã?

 

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