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Viver do que os outros jogam fora

Viver do que os outros jogam fora

Aquilo que é lixo para a maioria das pessoas é fonte de renda para alguns devido à reciclagem. A vida de Albertina – colectora de lixo – é tão irreal para quem a vê de fora como tão dramaticamente real para quem a vive: ganha dinheiro e ainda ajuda a preservar o ambiente.

Albertina Alberto Dzedze, 43 anos de idade, é mãe de seis filhos. Devido ao desemprego, a senhora que mora no bairro Polana Caniço “B” decidiu retirar o sustento de uma actividade invulgar: procurar lixo reciclável.

No princípio, a ideia era apoiar o marido nas despesas caseiras, mas com o andar do tempo compreendeu que há muito coisa de valor no lixo.

Albertina não se coíbe e solta o verbo para falar sobre o seu dia-a-dia: “procuro resíduos junto às lixeiras de Maputo. O material reciclável que encontro vendo. Não dá muito dinheiro, mas serve para apoiar o meu esposo, sobretudo na aquisição de alimentos”.

O dia laboral começa nas primeiras horas, enquanto o sol se espreguiça nas cortinas do céu Albertina já está nas ruas. O rumo, esse, é incerto: “não há um lugar específico onde posso encontrar lixo. Pode ser em qualquer canto, embora existam locais estratégicos”. Por exemplo, os estabelecimentos comerciais, as praias e os jardins produzem lixo que dá dinheiro devido ao fluxo de pessoas.

É sempre assim. Das seis às 11 horas, altura em que regressa ao lar para confeccionar a refeição para os seus. Depois do descanso retoma o seu trabalho. Mas fá-lo no quintal de casa onde separa os produtos por espécie.

“Existem três tipos de resíduos sólidos: metais, plásticos e garrafas de vidro”, conta. Primeiro “vendo os metais e, no regresso, aproveito para apanhar mais lixo para não andar de braços cruzados”, explica.

Terá algum proveito

À primeira vista os objectos que Albertina apanha não revelam nenhum valor, mas o resultado desse trabalho é que garante, em parte, o pão para um agregado de oito pessoas. Efectivamente, os metais (panelas, copos e tigelas) nos melhores dias garantem pouco mais de 300 meticais. É com esse dinheiro que cuida das refeições da família.

No que diz respeito ao plástico, a estratégia é outra: acumula e só vende no fim do mês. O processo é simples: depois de reunir uma quantidade considerável deste material uma empresa interessada vem comprá-lo nos seus aposentos. Em média consegue arrecadar 2000 mil meticais por mês.

O vidro é o negócio menos rentável, mas nem por isso Albertina deixa de coleccionar garrafas. Aliás, não só dá pouco dinheiro como carece de um sentido de conservação muito grande.

“As garrafas requerem muita atenção em termos de conservação, ainda que sejam pouco rentáveis. Para a venda é necessário reunir grandes quantidades para render alguma coisa. Cada lote de 100 garrafas é adquirido por 30 meticais”, conta.

Mas Albertina olha para as garrafas como um dinheiro guardado. Uma espécie de poupança imaginária. Só depois de juntar 1000 garrafas é que pensa em vender. “Às vezes levo 10 dias, mas sempre consigo juntar o número desejado. Ganho 300 meticais, o que já dá para alguma coisa”.

“Sinto-me bem como colectora”

A nossa fonte afirma que “não envergonha” exercer um trabalho conotado por estereótipos pejorativos. Muito pelo contrário, “sinto-me realizada e útil” porque “consigo ajudar na melhoria da qualidade de vida da minha família”. Apoio o meu marido que nem sempre consegue dinheiro nos seus biscates.

“Ser colectora é um trabalho digno, pois não fico na rua a pedir esmola. O meu marido tem muito orgulho de mim porque consigo comparticipar nas despesas domésticas. Juntos levamos uma vida digna. Cuidamos bem dos nossos filhos, podem não ter tudo, mas têm alimentação garantida. Ainda com o pouco dinheiro que consigo quero colocar-lhes na escola”, promete.

Mas nem tudo são rosas na actividade de Albertina. O que lhe mágoa é o facto de, não raras vezes, os colectores serem confundidos com ladrões e mendigos.

“Nós não somos ladrões. Somos pessoas honestas que procuram o sustento sem prejudicar a vida dos outros”.

Apesar desse rótulo Albertina não perde a fé no trabalho e ganha dinheiro com o que os outros jogaram fora. Ganha a vida sem prejudicar o próximo e, sem saber, ajuda a preservar o ambiente.

Colectores e a reciclagem

Não se pode falar de colectores de lixo sem reciclagem, ou vice-versa, pois é nos locais de reciclagem onde eles comercializam os materiais que recolhem nas ruas. Em suma: a reciclagem não existe sem eles e o seu trabalho não teria sentido sem a reciclagem.

A nossa equipa de reportagem visitou há dias uma casa que se dedica à reciclagem de resíduos sólidos. Trata-se da Associação Moçambicana de Reciclagem (AMOR), uma agremiação sem fins lucrativos, criada em 2009 por ambientalistas e especialistas de reciclagem.

A AMOR promove e organiza uma reciclagem social dos resíduos, no que diz respeito à capacitação dos colectores, à valorização da sua vida, e à formação destes para exercerem o seu trabalho de uma maneira digna. Ou seja, sem recurso ao roubo nem à violência para ter acesso aos resíduos sólidos recicláveis.

Os principais parceiros da AMOR são, nomeadamente, os Conselhos Municipais de Maputo e Matola, DUNAB (Fundo do Ambiente), entre outras organizações nacionais e estrangeiras.

Para a obtenção dos resíduos recicláveis a associação dispõe de sete ecopontos ou centros de compra e de recolha dos resíduos recicláveis, distribuídos pelos seguintes locais como Museu, Baixa, Mercado Janete, Costa do Sol, Triunfo e Mercado Santos.

Os ecopontos são geridos pela Xidzuki, uma associação que dá assistência e apoio às mulheres seropositivas que trabalham com os resíduos recicláveis separados em papel, papelão, metal, vidro, plástico e resíduos electrónicos.

Depois de recolhidos, a AMOR transforma-os em matéria-prima e exporta para países como África do Sul, China, Paquistão entre outros.

Dados em nosso poder dão conta de que a AMOR recicla pouco mais de 50 toneladas de diversos resíduos sólidos por mês. 500 pessoas fazem a separação dos produtos.

A nível económico, 18 actividades geradoras de renda foram criadas e 60 colectores particulares vendem aos ecopontos os resíduos que recolhem. No que concerne à vertente social, 12 membros seropositivos da associação Xidzuki foram formadas para gerir os ecopontos assim como três colectores foram formados na recolha móvel.

A AMOR, como qualquer outra associação, deseja crescer e afirmar-se no mercado de reciclagem.

Segundo apurámos junto aquela agremiação, um dos planos em manga passa por ter um total de 15 ecopontos contra os actuais sete; reciclar 400 toneladas de resíduos por mês; criar 50 empregos para grupos socialmente marginalizados (seropositivos); e criar uma fonte de rendimento para pelo menos 150 colectores.

Dentre outros projectos constam a limpeza de praias, jardins e parques públicos, promoção de reciclagem, concursos escolares e a transformação dos resíduos sólidos em objectos social e economicamente úteis.

O grande desafio da associação moçambicana de reciclagem é trabalhar em todo o país.

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