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Viver até aos 130 anos: a incrível revolução da ciência

Pela primeira vez, o homem pode criar vida, juntando moléculas como peças de Lego. As perspectivas são vertiginosas: regenerar ou modifi car órgãos, quando não fabricá-los de raiz. É a utopia alucinante de um mundo de “pós-humanos” imortais. Sonho ou pesadelo?

Moscovo. O homem desenha curvas e fórmulas matemáticas no quadro negro. Cabelos brancos, barba desalinhada, enormes olhos por detrás de óculos de lentes grossas, parece flutuar dentro de um fato de cor incerta. Vladimir Skulachev não se preocupa muito com a sua aparência. Passou a maior parte da vida a pesquisar porque ficamos menos belos, menos tonifi cados e menos ágeis. É um especialista nos complexos fenómenos do envelhecimento.

Se parece agitado em frente ao seu quadro é porque quer explicar como funciona o medicamento antienvelhecimento que descobriu. A novidade ainda não agita as águas, a comunidade científi ca é sempre céptica perante comprimidos milagrosos.

Vlaldimir Skulachev não é um charlatão. É membro da Academia das Ciências russa e reitor da Faculdade de Engenharia Biológica da Universidade de Moscovo. Pensa que o seu medicamento será comercializado daqui a cinco anos.

“Neutraliza o envelhecimento dos tecidos em qualquer fase.” Tem tido apoio pessoal do Presidente Dmitri Medvedev e financeiro do milionário Oleg Deripaska. As investigações são apoiadas pela Rosnano, empresa estatal responsável pelas nano- -tecnologias, com um investimento de 440 milhões de euros.

A muitos milhares de quilómetros de distância, no célebre Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em Boston, ninguém considera ficção científica os trabalhos de Vladimir Skulachev.

Num laboratório de biotecnologia do instituto, uma equipa liderada pelo professor Leonard Guarente trabalha há vários anos no gene que prolongará a vida de todos os organismos. A activação deste gene nos ratos apresenta efeitos surpreendentes: permanecem magros, saudáveis e vivem mais tempo. O professor Guarente espera vir a utilizar este gene em medicamentos.

Última fronteira: reprogramar a vida

Milhares de cientistas exploram o caminho da longevidade. São os protagonistas “de uma evolução sem precedentes da biologia”, explica Joel de Rosnay na sua obra Et L’Homme créa la vie (E o homem criou a vida). “Chegámos à última fronteira e ao último tabu: escrever ou melhor, reescrever o livro da vida.”

Já em 1958, o cientista francês Jean Rostand tinha previsto esta mudança. Perante um público de eruditos aturdidos anunciara o advento de um homo biologicus e a “certeza de que o homem vai viver muito mais tempo”.

Roland Moreau, médico e biofísico, inspector-geral dos Assuntos Sociais e autor do livro L’immortalité est pour demain (A imortalidade é amanha), partilha esta convicção. “Hoje sabemos que a ‘máquina humana’ está programada para uma determinada duração, uma longevidade de cerca de 120 anos. Temos a possibilidade teórica de chegar a esta idade e, para alguns, até de a ultrapassar.”

Eliminar as desigualdades genéticas

A fazer fé nas estatísticas, uma em cada duas crianças hoje nascidas em França chegará aos 100 anos. E isso passará a ser a regra geral para os nascidos pós-2027… “Isto enquanto o estilo de vida nos países desenvolvidos não se degradar”, afi rma Roland Moreau. Alguns dos nossos filhos ou netos poderão festejar alegremente o seu 130.º aniversário.

A eliminação do tabaco, a redução do consumo de açúcar e de gorduras na alimentação e o exercício físico regular serão as fundações desta longevidade. A possibilidade de eliminar a desigualdade genética e lutar contra as doenças degenerativas completará o quadro.

Roland Moreau explica: “Os factores genéticos são responsáveis por algumas doenças e pelo envelhecimento das nossas células. Por exemplo, investigadores alemães estão a estudar 138 japoneses centenários. Aparentemente, esta capacidade de atingir idades avançadas é devida a um património genético ligeiramente diferente É um exemplo daquilo que a ciência vai permitir compreender, corrigir ou imitar”. Serge Braun, director científi co da Associação Francesa contra as Miopatias (AFM), é dos maiores especialistas na matéria.

“A investigação genética está prestes a identifi car muitos dos mecanismos de envelhecimento. É o caso de uma doença da infância extremamente rara, a progeria, caracterizada por um dramático envelhecimento prematuro. Uma equipa de Marselha conseguiu identificar uma proteína que se acumula de forma anormal nas células. Administrando uma combinação de medicamentos, os investigadores conseguiram travar aquela perigosa proliferação. Isso ajudou a perceber melhor um dos mecanismos do envelhecimento.”

Vai ser possível limitar o envelhecimento provocado pelos pesados tratamentos do cancro ou do HIV, melhorar o fim de vida dos idosos e fazer recuar efi cazmente doenças degenerativas como Alzheimer ou Parkinson. Daqui a quanto tempo?

As opiniões divergem. São necessários cerca de 15 anos para que um medicamento bioactivo passe os testes pré-comercialização. E já há centenas em experimentação.

As descobertas que valeram o Prémio Nobel a três investigadores norte-americanos em 2009 sobre o papel dos telómeros no envelhecimento das células e as do professor japonês Yamanaka, que encontrou a fórmula para transformar qualquer célula numa célula tronco, para depois a reprogramar, vão amplifi car enormemente os progressos.

“Já existe”, proclama Joel de Rosnay, “e pode resumir-se a duas palavras: medicina regenerativa.” Sabemos cultivar células de pele e reconstituir ossos e tendões. Vai ser possível fazê-lo injectando localmente células especializadas para combater uma defi ciência.

Os laboratórios estão interessados em saber porque é que certos animais apresentam uma capacidade de regeneração tão surpreendente.

Serge Braun confirma: “Actualmente, tentamos reconstituir neurónios para lutar contra as doenças de Parkinson e Alzheimer. Ou pâncreas para produzir insulina contra a diabetes. Estes medicamentos são para amanhã”.

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