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‘@ Verdade Maior – Não é assim tão preto e branco

Entre aquelas cinco mil pessoas reunidas dentro e fora da Igreja Protestante Africânder de Ventersdorp no passado dia 9 de Abril para o funeral do líder do AWB Eugène Terre’Blanche não havia nenhum verdadeiro africânder.

Naquela igreja, reuniu-se gente para enterrar um homem que representou valores retrógrados da África do Sul: o racismo, a extrema-direita, os desiludidos, a supremacia branca e o separatismo. Aquela gente ali reunida representava o pior do nosso país. Não eram africânderes, pelo que é impróprio referir-se a eles como tal. Os africânderes que eu conheço escolheram FW Klerk e Roelf Meyer e rejeitaram Terre’Blanche. Os africânderes com os quais muitos negros sul-africanos partilham o local de trabalho são os que, em 1990, votaram esmagadoramente pelo “Sim” às reformas rejeitando o racismo de Terre’Blanche e dos seus comparsas.

Singer Steve Hofmeyr e muitos dos seus apoiantes estão a tentar sequestrar este africânder. No funeral de Terre’Blanche, Holmeyr tentou convencer o mundo de que o africânder estava ferido pela morte de Terre’Blanche. É mentira. Na semana passada, a África do Sul viveu num falso frenesim e numa falsa consciência. Fiquei pasmado com os comentadores políticos que sugeriram que a morte de Terre’Blanche é uma boa oportunidade para nos confrontarmos com o “nosso, ainda não resolvido, passado racista”.

Tal cataclismo está muito longe da verdade. Isto sugere que três milhões de africânderes são racistas como Terre’Blanche. Isto sugere igualmente que os negros são vítimas como as vítimas de Terre’Blanche ou, pior, racistas da natureza de Julius Malema. Disparate. A maioria dos africânderes, com os seus problemas, receios e esperanças, não apoiam sequer uma ínfima parte dos pontos de vista de Terre’Blanche. A maioria dos negros sul-africanos está revoltada com Malema e com as suas declarações doentias.

Já é tempo de parar com estas mentiras. Nós não estamos à beira da guerra nem estamos prestes a cair na loucura de um confronto racial de consequências imprevisíveis. Terre’Blanche e os racistas que apelidaram os repórteres negros de “babuínos” são uma pequeníssima franja de lunáticos. Assim é também Malema, mas com um pouco mais de poder.

O pior é que estes fait-divers como o de Malema vão-nos desviando dos problemas fundamentais que assolam a África do Sul. Mesmo as questões mais óbvias levantadas pelo assassinato de Terre’Blanche passaram para segundo plano colocando em evidência os ultradireitistas brancos e os acólitos de Malema. Uma dessas grandes questões é o nível salarial, extraordinariamente baixo, dos trabalhadores agrícolas. Analisando somente o caso de pagamento de salários dos trabalhadores – parece que Terre’Blanche pagava 300 rands por mês aos seus trabalhadores – a tragédia traz à baila o país distorcido em que vivemos.

Como é que é suposto alguém viver com uma ninharia dessas? A resposta ao assassinato de Terre’Blanche mostra que estamos novamente sem saber como lidar metodicamente com a aspiração dos negros. Dezasseis anos após as primeiras eleições multirraciais e do início da verdadeira democracia, as aspirações legítimas dos negros ainda são olhadas com suspeição e irritação.

Tal atitude por parte das empresas, dos media, da liderança política e de outros sectores é a receita para o desastre. Não podemos, como povo e como país, continuar a pretender que os negros não entrem nos diversos sectores da economia, pelo que precisamos de acelerar o caminho até ao dia em que seremos julgados em função daquilo que realmente valemos e não pela cor da pele. Isto exige uma acção muito dura na frente política, que só se consegue com grande determinação e trabalho árduo dos nossos políticos e da sociedade em geral. Se isto não se verificar, então o populismo grosseiro dos Malemas deste mundo continuará a triunfar em detrimento das reais soluções dos nossos problemas.

A morte de Terre’Blanche deveria estimular-nos a fazer algo de diferente. Em vez de uma obsessiva discussão acerca das relações entre as raças, devia servir de instrumento de pressão sobre o Governo para que este atacasse as causas de uma possível polarização à volta das questões raciais: a desigualdade e a pobreza. Esta não é uma batalha “sexy”. Não é uma batalha que os Malemas deste mundo tenham pressa em aderir. Mas é seguramente um problema real e urgente que o nosso país enfrenta.

Esta é uma batalha que exige cabeça fria e calma. Se não fizermos nada para atenuar as desigualdades na nossa terra, então o aviso de Mbeki – poderá haver uma explosão se este sonho de nivelamento continuar eternamente adiado – deverá tornarse realidade. *Colunista do jornal sul-africano “Sowetan”

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