Para continuarmos  a fazer jornalismo independente dos políticos e da vontade dos anunciantes o @Verdade passou a ter um preço.

Verdade Comum: Desjogar é possível!

Verdade Comum: Desjogar é possível!

Temos de concordar que em todos os desportos se pode jogar bem ou mal. Que há uns melhores e outros piores. Que há quem tenha mais jeito do que outros. Como em todas as actividades que conhecemos. Com o que não podemos concordar é que seja possível no futebol, o que não é possível noutros desportos e em todas as outras actividades; jogar o jogo ao contrário… Desjogar por assim dizer, centrando as nossas ambições a partir de certo momento, não em marcar golos ou no jogo em si, mas numa espécie de estupidificação colectiva em que o único objectivo é que os segundos do relógio avancem.

E o mais divertido disto tudo, é que a exigência do cumprimento das regras nestas alturas, é aleatório. Há árbitros que marcam, há outros que não. E isso evidentemente irrita. Sou da opinião que grande parte da injustificável violência que tristemente existe no futebol, vem da estagnação a que as mais altas instâncias organizativas votaram este extraordinário desporto. Quando um treinador está a ganhar e decide fazer uma substituição dois minutos depois da hora regulamentar, isso é desjogar.

Quando um guarda-redes demora três minutos a fazer um pontapé de baliza e isso lhe é permitido, isso é além de desjogar, gozar com toda a gente que pagou para ver. O jogo torna-se desonesto e irritante. Invariavelmente e como o comum dos mortais, faço comparações. Com outros desportos.

E olhando por exemplo para o rugby, que tantas tradições tem no continente africano, tendo o seu expoente máximo nos vizinhos da África do Sul, tenho o exemplo que procuro. Não há ano em não haja proposta de alteração das regras. Em favor do jogo. E da verdade desportiva. Num desporto qualificado de violento, não há desporto em que impere mais respeito pelo adversário, pelo árbitro e pelo seu bem mais importante. As pessoas que assistem. O Rugby é uma marca.

Tratada como tal e gerida para o sucesso. Sem medos dos clubes mais ricos. Sem receios dos países mais fortes. No Rugby defende-se o desporto em si e a sua essência. Claro que é uma indústria. Claro que hoje em dia movimenta milhões e milhões à sua volta. Que paga bem aos jogadores. Mas soube-se focar. Naquilo que realmente interessa. O espectáculo que se oferece a quem paga para ver.

E na discussão da nossa medíocre indústria de futebol local, temos de deixar de nos enganar. Em Portugal o futebol não vende porque é mau. Os jogos são maus. Os árbitros são péssimos. Os treinadores não são ambiciosos. Os dirigentes são nojentos e perseguem sempre os mesmos objectivos. Fama e fortuna. Não é por acaso que o futebol e a política local são tão chegados.

É que a massa de que se fazem os actores que actuam nesses palcos, é exactamente a mesma. Quem está no rugby, está pelo rugby. Provavelmente como noutros desportos. Defendem-se os árbitros. Castigam-se exemplarmente os que devem ser castigados. De uma forma célere. E justa. Dá-se prioridade ao ritmo. Ao espectáculo que se apresenta. Assistências médicas no decorrer do jogo; vídeo árbitro; rigor disciplinar dentro do campo; respeito pelo jogo, pelo árbitro e pelos espectadores por parte de quem joga; paragens de cronómetro quando necessárias; substituições rápidas.

Por fim o rugby tem algo que o futebol nunca há-de ter: desde cedo ensinam-se os valores a ter dentro de campo e a importância deles. Desde cedo se educam os miúdos que é importante ganhar, mas que não é só isso que conta. Desde cedo se ensina que só quinze ganham um jogo e não apenas um ou dois. Desde cedo se passa a paixão pelo jogo e o prazer de jogar, que torna os jogadores verdadeiros exemplos de vontade, empenho, orgulho e acima de tudo humildade.

Tudo o que o futebol não passa. Apenas porque quem manda, não quer. Não sei se existe rugby em Moçambique. Mas com uma tão boa e possível influência que existe por perto, ninguém teria nada a perder. Só a ganhar. A começar pelas crianças. Que não se descriminam pelo jeito que têm ou não para chutar na bola. Onde não interessa se são gordas ou magras. Altas ou baixas. Todos são importantes para o objectivo comum. Jogar. É mais que um desporto. É uma escola de virtudes.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Posts

error: Content is protected !!