A Universidade Politécnica promoveu, sábado, 19 de Setembro, em parceria com a Rotaract Clube de Maputo, uma sessão de reflexão sobre a prevenção do suicídio e a promoção da saúde mental, no âmbito das actividades alusivas ao Setembro Amarelo.
Realizada sob o lema “Vamos Falar Para Salvar Vidas”, a iniciativa procurou sensibilizar a comunidade académica para a importância do diálogo, da escuta e da procura atempada de apoio perante situações de sofrimento emocional.
Organizada pelo Núcleo de Práticas Psicológicas da Universidade Politécnica, em parceria com o Rotaract, a sessão reuniu estudantes, docentes e outros participantes em torno de temas relacionados com os factores de vulnerabilidade emocional, os sinais de sofrimento psicológico, a escuta activa e a criação de espaços seguros para a procura de apoio.
Na ocasião, a coordenadora do Curso de Psicologia da Universidade Politécnica, Crisália Tuto, explicou que a iniciativa visa incentivar as pessoas a falarem sobre as suas dificuldades e a procurarem apoio sempre que enfrentem situações e perturbação emocional.
“Quando o suicídio acontece, perguntamo-nos por que razão a pessoa tomou aquela decisão e se não existia outra solução. Quando a nossa dor é partilhada, podemos encontrar um caminho para a libertação e perceber que não estamos sozinhos e que podemos contar com alguém que nos escute sem julgamento”, afirmou.
Durante os diferentes paineis, a psicóloga Brígida Nhantumbo abordou a importância de fortalecer uma cultura de proximidade, solidariedade e atenção ao próximo, salientando que pequenos gestos de apoio podem fazer a diferença na vida de pessoas em situação de sofrimento psicológico.
A especialista chamou igualmente à atenção para a necessidade de abordar abertamente os problemas emocionais, como forma de reduzir o isolamento e incentivar a procura de apoio junto da família, das instituições de ensino, das comunidades e dos profissionais de saúde.
“Nós estamos a tentar trazer essa reflexão para que as pessoas não se sintam sozinhas e para mostrar que há sempre alguém disposto a ouvi-las, a dar-lhes um abraço ou a partilhar o seu tempo, que é a coisa mais valiosa, a disponibilizar o seu ouvido e, acima de tudo, a compreender a sua preocupação. Às vezes, as pessoas só precisam de ser compreendidas para não tomarem a decisão de tirar a própria vida”, acrescentou.
Por sua vez, o especialista em saúde mental Jaime Nuvunga sublinhou que não existe uma causa única que leve uma pessoa a pensar em suicídio, mas uma combinação de factores de risco que podem estar interligados. “Se houvesse um único factor, seria fácil resolver. São vários factores que, por vezes, se tornam muito complexos para uma única entidade trabalhar sobre eles.
Por exemplo, eu, como psicólogo, no que diz respeito à intervenção psicológica num paciente que tenta suicídio, sozinho não consigo”, explicou. Segundo o especialista, alguns desses factores podem ser modificáveis, enquanto outros estão relacionados com aspectos como idade, sexo e determinadas condições de saúde mental, incluindo ansiedade e perturbações do humor.
“A OMS indica que Moçambique está entre os 10 países que mais suicídios registam a nível mundial, sendo que, em África, está no décimo lugar. Para prevenir o suicídio, não basta falar de suicídio em Setembro. A prevenção do suicídio deve ser um modo de vida. Temos de falar sobre suicídio sempre. Temos que criar uma rede de apoio e de suporte multidisciplinar capaz de fazer face a este dilema. Refiro-me à componente hospitalar, à comunidade, à sociedade e também à componente da igreja”, frisou o especialista.
Na ocasião, a terapeuta Nereyda Ah-Hoy referiu-se à relação entre as emoções e as manifestações físicas, explicando que situações de sofrimento emocional intenso podem produzir sinais no corpo antes mesmo de serem plenamente compreendidas pela mente.
“Questões emocionais não são apenas sentimentos ou sensações. São experiências psicológicas intensas, mas com expressão biológica. Muitas vezes, o corpo manifesta estados emocionais intensos antes mesmo de a mente racional processá-los e compreendê-los. Aquilo que pensamos e sentimos não fica apenas na mente. Manifesta-se também no corpo”, afirmou.