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Uma moçambicana no topo do Kilimanjaro

Uma moçambicana no topo do Kilimanjaro

Das planícies do sul de Moçambique, bem como dos planaltos do centro e norte do país, ninguém ouvia a sua voz. Foi preciso que Maria Maposse escalasse o monte mais alto de África, o Kilimanjaro, para que, de viva voz, gritasse para todo o mundo: “Basta a violência contra a mulher”.

Localizado na Tanzânia, o maior de África, com uma altitude calculada em 5893 metros, o monte Kilimanjaro foi o ponto encontrado pela ONU Mulher para que mulheres vindas de todas as partes do mundo, com maior destaque para os países africanos, clamassem pelo fim da violência contra a pessoa do sexo feminino.

A moçambicana Maria Maposse foi a apurada entre as três candidatas nacionais que concorriam para a efeméride. Ela conta que, devido ao medo e à noção da altitude que o monte tem, chegou a fazer preces para que não fosse a seleccionada. “Roguei a Deus para que não fosse a seleccionada, mas foi tudo em vão porque, segundo a comissão organizadora, eu reunia melhores qualidades para o que se pretendia”.

Feita a selecção e já em solo tanzaniano, o medo que “residia” na sua alma começou a ser suplantado pelo propósito pelo qual faria a difícil e dura escalada ao monte mais alto de África.

“Poucos dias antes da escalada ao monte, comecei a perceber o quanto seria importante, para mim, galgar a maior elevação do continente. O propósito disso interiorizou-se em mim e a minha coragem aumentou. Foi aí que percebi que o que ia fazer teria um grande impacto na vida de muita gente no que diz respeito ao combate à violência contra a mulher”.

Os três dias inesquecíveis

Percorrer 5893 metros num relevo ligeiramente vertical, é o que a nossa fonte apelida de impossível. Foi pensando nessas dificuldades que a comissão organizadora dividiu a escalada em três partes que seriam cumpridas em três dias.

Maria conta que, no primeiro dia, estavam presentes todos os representantes dos países inscritos, sendo que Moçambique foi o único país dos PALOP a participar no evento.

Antes da escalada, a equipa teve um encontro com o Presidente tanzaniano, Jakaya Kikwete, que tratou de encorajar os participantes, assim como alertá-los sobre as iminentes dificuldades que encontrariam.

“Depois do encontro com o Presidente Tanzaniano, subimos todos alegres, afinal era o começo de algo que aparentemente seria uma grande aventura. No centro do nosso debate estava a primeira componente do combate contra este mal, a prevenção”.

Embora essa escalada parecesse uma aventura, no início, começaram a perceber que a missão que os movia para o topo do monte extrapolava o simples conceito de aventura. Cada dificuldade que encontravam durante a escalada, significava as adversidades que a mulher enfrenta no seu dia-a-dia.

Para criar um maior interesse pela escalada, no primeiro dia, a missão tinha como propósito reflectir sobre a necessidade de prevenir a violência. “No primeiro dia percorremos pouco mais de 7 quilómetros e, até aí, ninguém reclamava. Havia muito entusiasmo nos participantes e, acima de tudo, o compromisso com a causa continuava a ser o grande factor motivador”.

No fim do segundo dia, alguns representantes dos 50 países começaram a desistir. Já no terceiro e último dia, que coincidiu com o dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, a comitiva chegou ao pico da montanha.

“Dos 50, só chegámos 20. Senti- me engrandecida, afinal de contas à semelhança da Lurdes Mutola e outros moçambicanos, tive a oportunidade de elevar o nome de Moçambique.

As dificuldades que foram encontradas ao longo da escalada, em função dos temas, revelavam o quanto difícil é combater a violência no campo da promoção da justiça para que se quebre a impunidade dos que a praticam, daí que no terceiro dia, quando o tema de debate era esse, havia poucos intervenientes”.

Segundo ela, quanto mais gente desistia da escalada, isso revelava a fraqueza das lideranças no combate a algumas barreiras que minam o sucesso desta luta.

“Não foi fácil”

Embora tenha chegado ao topo e conseguido gritar, em nome de Moçambique, pelo fim da violência contra a mulher, Maria Maposse confessa que a jornada não foi fácil. “Houve factores que poderiam ter ditado uma provável desistência da minha parte, mas não o fiz por perceber que não estava ali por mim, mas em nome de todas as mulheres vítimas da violência”.

Um dos factores que poderia ter precipitado a desistência da representante moçambicana foi a baixa temperatura que se verifica naquele ponto do continente. “Fazia um frio que nunca tinha sentido antes. Mesmo agasalhada, sentia que o frio era tão forte que algumas partes do meu corpo pareciam estar paralisadas”.

A nossa entrevistada recorda que no terceiro e último dia ela percorreu pouco mais de 11 quilómetros em cima do gelo, da meia-noite até às 10 horas, altura em que içou a bandeira nacional no cume do Kilimanjaro e deu o seu grito contra a violência. “Sendo a fase conclusiva, os desafios tornaram-se maiores ainda, mas o importante é que vencemos.”

“A violência contra a mulher afecta a todos nós, a uns de forma directa, aos outros de forma indirecta. É importante que cada um dê o seu contributo para que este mal não continue a flagelar o nosso país, o nosso continente e o nosso mundo”, é este o apelo que Maria Maposse lança a todos os moçambicanos.

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