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Uma história de amor que acabou num inferno

Uma história de amor que acabou num inferno

Às vezes a realidade imita a ficção. Danilo Mabecuane, de 22 anos de idade, nunca imaginou que a sua vida mudaria do dia para noite, como aconteceu às duas 2 horas de 30 de Janeiro quando despertou com a cara e os braços queimados pelo fogo que a mulher ateou na cama onde dormia embriagado.

Tarde de sexta-feira, 29 de Janeiro. Mabecuane inicia uma maratona de bebedeira numa das barracas do bairro Chamanculo, diz, para afogar as mágoas de uma relação marital amargurada.

Ainda estava lúcido quando a mulher passou por ali, acompanhada com outro homem e o seu espanto surgiu ao ver Sidónia, violentar verbal e fisicamente uma jovem que estava consigo e trajava uma camisola sua.

“Parecia estar fora de si. Largou o companheiro e atacou a menina do meu lado, exigindo que tirasse a minha camisola e ameaçou quebrar uma garrafa de cerveja na sua cabeça”, conta Mabecuane, deitado no leito do Hospital Central de Maputo, com a tristeza vincada na chaga em que o seu rosto desfi gurado se transformou.

“Em plena discussão ela disse que não passaria o dia sem que acabasse comigo”, acrescenta. Ao cair da noite, tudo parecia ter ficado para trás. O jovem voltou para casa dos avós onde estava hospedado e dormiu.

De repente uma nuvem de fumo que vinha do quarto despertou a atenção dos familiares, que só se levantaram quando este começou a gritar. O pânico instalou-se. Uma dezena de pessoas aproximou-se. Uns para prestar os primeiros socorros, outros para denunciar o suposto culpado.

Embora sem dar a cara, testemunhas disseram ter visto a mulher entrar e sair do quarto na calada da noite. Mabecuane, que estava com os sentidos embotados, não faz ideia do que aconteceu. “Só me lembro da discussão da tarde anterior”, diz. No dia seguinte os familiares foram ao encontro da suposta criminosa.

“Encontrámos a moça a chorar porque pensava que o marido morreu. Na hora ficou calada, mas o seu comportamento fez-nos concluir que tinha a ver com tudo ”, disse o irmão da vítima, para quem a jovem regou a cama do marido com benzina, um produto químico com propriedades tóxicas que pode causar cancro da pele.

Especialistas duvidam que o jovem foi vítima de gasóleo ou de gasolina. Com esses combustíveis, os ferimentos seriam mais graves e afectariam gravemente a vista do rapaz. Mabecuane sofreu queimaduras do primeiro grau e que não atingiram a segunda camada da pele, por isso ainda tem hipóteses de recuperar, mediante a aplicação de uma pomada e uma série de cuidados intensivos.

O processo

Detida na cadeia civil de Maputo, a suposta criminosa aguarda por uma auscultação. Na segunda-feira os familiares e a moça que acompanhava Mabecuane na tarde do dia 29 estiveram na PIC da cidade para apresentarem o testemunho dos factos.

Entre várias versões conta-se que Dorca, como é conhecida, assumiu a culpa justifi cando que estava fora de si, além de andar farta de aturar o marido que não a deixava em paz, mesmo depois da relação marital de ambos ter acabado.

Na esquadra onde o processo deu entrada, ficou registado com o número 26/18ªESQ? M de 30.01.11 e foi transferido para a PIC. Na primeira audição apenas prestaram declarações os familiares da vítima e tudo indica que nos próximos dias o casal estará frente a frente para se proceder à sua auscultação.

Os familiares de Dorca recusam- se a tecer qualquer comentário para não infl uenciar o desenrolar do processo. “Não tenho nada a dizer. O leite já foi derramado. Escreve tudo o que os familiares da vítima contam”, disse uma mulher que simplesmente se identifi cou como irmã da acusada. “Vou ouvir o nosso advogado e voltarei a contactar para lhe responder”, acrescentou.

Os últimos dias no inferno

Muito antes do episódio do dia 20/30, Mabecuane assume que os últimos momentos da relação eram infernais. A mulher com quem partilhou quatro anos e fez um filho, levava na sua ausência uma conduta que não primava pelos bons costumes, sobretudo desde que começou a trabalhar nas barracas do Museu. As coisas pioravam à medida que a advertia. “Já a encontrei três vezes com o mesmo homem e ela dizia que eu não servia para si”.

Há duas semanas, a mulher resolveu ir ao seu encontro para lhe devolver o filho com o braço inchado. “Disse que já não tinha tempo para cuidar dele”, conta.

Para dar a conhecer a situação, Mabecuane dirigiu-se aos familiares da mulher, que lhe disseram estar completamente à margem do que se passava. “As irmãs asseguraram que não conheciam outro cunhado além de mim.”

Com o filho de dois anos, tinham junto de si uma menina de quatro anos fruto de uma relação anterior da mulher. Antes da separação, viviam em casa dos progenitores do marido.

Quando a relação atingiu níveis insuportáveis o jovem foi viver com os avós e a mulher voltou ao convívio dos familiares. Para trás ficou uma vida marcada por dissabores, angústia e contrariedades.

Cansada dos problemas, um dia a mulher ateou fogo na moradia onde o casal e o filho se encontravam trancados. “Valeu a minha pronta intervenção e o facto de o combustível que ela usou não ser infl amável. Era óleo queimado”, disse.

Em consequência dos problemas que iam atravessando, Mabecuane lembra também que a esposa já tentou um suicídio, com recurso a comprimidos, além do facto de o jovem ter fracturado o braço numa das habituais agressões.

“Vivíamos aos pontapés, mas eu só queria salvar a nossa relação e acalmar o meu coração que doía cada vez que ela me traía e saía nas noites deixando-me a cuidar da criança”, disse.

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