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EDITORIAL: Terça-feira, às três da tarde

Na passada terça-feira, tomava eu, remansadamente, um café na esplanada do Franco-Moçambicano – diga-se de passagem local bem aprazível -, ali com a Sé e o Conselho Municipal como guardiões, aguardando pelo meu entrevistado, quando ouço uma estridente vozearia: Agarra ladrão! Agarra ladrão!

A minha curiosidade jornalística impulsionou-me para junto da balaustrada para melhor observar a cena. Vi então um sujeito baixo, a ser brutamente levado por outros dois. Um puxava-o pelo braço, enquanto o outro carregava-o quase em peso por um buraco nas calças junto à zona onde entra o cinto.

O ladrão tentara, em vão, roubar o telemóvel de uma miúda que não devia ter mais de 10 anos. Mesmo junto dos degraus da catedral alguém deu o alerta travando os intentos do malfeitor que imediatamente se colocou em fuga.

Para mal dos seus pecados, uma praça circular não é a melhor geografia para uma fuga. Depois de uns gritos, facilmente se fi ca rodeado, caindo-se nas garras dos perseguidores. Foi o que aconteceu.

O ladrão foi trazido para junto da vítima, que, ainda em estado de choque, chorava compulsivamente. Enquanto isso os seus algozes iam fazendo justiça pelas próprias mãos, dando-lhe sonoras bofetadas – pelo barulho deviam doer bem – e pregando-lhe rasteiras que o derrubaram várias vezes.

Pouco a pouco, foi-se juntando cada vez mais gente para apreciar o espectáculo deprimente dos socos, pontapés e choros da vítima e da menina. Um dos justiceiros repetiu:

– Pede desculpa à menina, malandro!

– Já pedi e ela já me perdoou – referiu o ladrão num tom de súplica.

– Mentira – disse o outro justiceiro.

As bofetadas e os pontapés redobraram de intensidade. Da polícia, que normalmente anda sempre por ali à cata da multa, nem sinal. Por instantes, percebi como as coisas, com uma facilidade incrível, podem descambar num linchamento, embora o ambiente ali não pudesse ser mais adverso ao julgamento popular mas, mesmo assim, assistiu-se a um triste espectáculo.

Nem quero imaginar se não estivéssemos em frente da catedral, se não estivéssemos numa zona movimentada e com estrangeiros por perto e se os justiceiros, em vez de serem dois jovens da classe média, fossem 20 com instrução rudimentar.

Provavelmente, se transportássemos a cena para um dos bairros suburbanos seria o fim do ladrão. Imaginem a mesma cena num Zimpeto ou num Benfica, com gente por todos os lados a gritar: Mata! Mata! Ou pneu! Pneu! Nem quero enveredar por esse exercício de ‘faz de conta’.

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