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Seropositivo luta pela sobrevivência sem o apoio da família

Em 2013, ele descobriu que é portador da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA), foi estigmatizado, e ninguém da família quis aceitá-lo nem os amigos. Decidiu matar-se, mas recuou pois percebeu que essa não era a solução para o seu problema. Não baixou os braços e, hoje, luta miseravelmente pela sobrevivência sem ninguém com quem dividir a sua dor.

Carlos Meleco, de 37 anos de idade, residente no bairro do Zimpeto, na capital moçambicana, é um homem resignado, e leva uma vida penosa desde aquele ano. As pessoas com quem devia contar para ampará-lo consideram-no uma ameaça para a saúde delas e viraram-lhe as costas por ignorância. Não compreenderam que não é por viver ao lado de um seropositivo, por partilhar utensílios domésticos, por um aperto de mão ou por um abraço, que o vírus é transmitido de uma pessoa para outra. Esta atitude apavorou-o, tendo pegado nos seus pertences e saído de casa sem nenhum destino. Por algum tempo viveu na rua como um desgraçado.

Os piores momentos vividos por Carlos desde que descobriu que era seropositivo foram os de discriminação, estigma e preconceito, que algumas vezes causaram nele uma sensação de morte lenta. Passou a “carregar” uma identidade deteriorada e desacreditada. A repulsa da sua família em relação à sua doença e a humilhação por que passava fez com que o jovem se lembrasse do dia difícil e horrível em que recebeu o seu diagnóstico.

Este cidadão, a quem, por várias vezes, foram negados abrigo e comida, e deixado à sua sorte, perdeu o emprego na companhia onde trabalhava, cujo nome omitimos por uma questão de decoro, por ter revelado que estava infectado. “Os meus patrões disseram-me que eu era um indivíduo inútil, com capacidades limitadas e com um futuro incerto alegadamente porque previam uma morte precoce”.

Em 2010, o desgosto do jovem piorou: perdeu o filho e a mulher num parto, nenhum parente se aproximou e tornou-se numa pessoa duplamente magoada. Entretanto, seguiu em frente e só não morreu como um cão graças à sua vontade de viver e ao apoio das pessoas para quem fazia pequenos trabalhos remunerados em troca de um prato de comida ou dinheiro. Com a alma ferida por ter sido desvalorizado e excluído do convívio familiar, ele diz que não entende por que motivo na sociedade há pessoas cruéis e capazes de acelerar a morte de alguém recorrendo à discriminação e ao estigma.

Em Moçambique, onde há 1.4 milhões de pessoas infectadas pela SIDA, 200 mil são crianças, 550 mil homens e mais de 850 mil mulheres. O flagelo do Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) afecta uma percentagem bastante significativa da população e muitas pessoas morrem por amargura e como indigentes por falta de informação sobre como se lidar com um seropositivo e como ajudá-lo psicologicamente para superar os efeitos nefastos da doença. E são poucas as pessoas com a consciência de que quem discrimina e rejeita mata mais que o próprio vírus.

Na altura em que Carlos Meleco foi rejeitado, não sabia quase nada sobre a doença que o apoquenta nem como proceder para beneficiar de um tratamento médico, e tão-pouco no que diz respeito à prevenção. Em 2010, envolveu-se sexualmente com uma jovem, por sinal, também contaminada pelo vírus da SIDA. Volvido algum tempo, a namorada engravidou e, infelizmente, na hora de dar à luz teve complicações de parto e perdeu a vida com o seu bebé.

Os anti-retrovirais são remédios que não funcionam em estômagos vazios, por isso, quando Carlos começou o tratamento, enfrentou uma vida difícil por falta de alimentação. Todavia, apesar de estar doente, ele tomou uma decisão: ao invés de cruzar os braços e queixar-se de ser vítima de estigma ou discriminação, passou a carregar trouxas de alguns vendedores e compradores que se fazem ao Mercado Grossista do Zimpeto. A partir dessa actividade, que concorria para o agravamento do seu quadro clínico, Carlos obtinha dinheiro para se alimentar e continuar com a medicação.

Costuma-se dizer que o que mata uma pessoa infectada pelo vírus da SIDA é o preconceito. Contudo, a pessoa a que nos referimos sobreviveu a essa intolerância. E hoje, ela é uma prova inequívoca de alguém com SIDA pode manter-se vivo por muitos anos, bastando para o efeito cuidar-se e cumprir rigorosamente a terapia médica. Aliás, o nosso entrevistado é igualmente um testemunho de que um seropositivo não identificado é que constitui uma ameaça para a sociedade, contrariamente ao que pensava a sua família.

Presentemente, Carlos só carrega trouxas às costas ou à cabeça para transportar produtos dos lugares de aquisição para a sua casa arrendada – cujo pagamento provém da sua banca na qual vende um pouco de tudo. Entretanto, os momentos de tristeza, angústia e alguma incerteza relativamente ao seu futuro ainda persistem.

O nosso interlocutor diz que é um homem solitário e, apesar da mágoa, sente falta de apoio e afecto dos seus parentes que já não querem saber dele. E está-lhe a ser difícil acreditar que o destino de quem padece de SIDA não é a morte.

A história de Carlos é provavelmente igual a de muitos jovens que ainda não deram a cara e que, para além de terem sido rejeitados pelas suas famílias, sofrem calados sem ninguém a quem recorrer. Este é um mal com que a sociedade se debate. Urge tomar medidas para contê-lo, sobretudo para evitar que a discriminação e o preconceito dos seropositivos façam mais vítimas.

Recorde-se que os dados da Agenda 2025 dão conta de que em Moçambique, até esse ano, haverá entre 15 a 20 porcento de infecções, cujas consequências se notarão no desenvolvimento da sociedade, uma vez que afectam os adultos, maioritariamente o grupo etário mais activo e produtivo.

E haverá efeitos perniciosos nos recursos humanos dos serviços governamentais, especialmente aqueles cuja força de trabalho é móvel e de risco. Incluem-se aqui trabalhadores de construção civil, de estradas, condutores de camiões de mercadoria, mineiros, forças policiais, militares e paramilitares, e quadros de nível superior especializados que, por razões de serviço, têm que viajar por todo o país ou fora dele.

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