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Semear ventos para colher tempestades

Separe-se a diplomacia da Justiça

É sabido que a violência gera violência e que normalmente os homens violentos morrem de uma forma violenta. Foi o que aconteceu na passada segunda-feira com João Bernardo Vieira, Presidente da República da Guiné-Bissau.‘Nino’ Vieira “foi cortado em pedaços, à catanada”, revelou na quarta-feira à BBC o romancista britânico Frederick Forsyth, que se encontrava em Bissau em busca de inspiração para o seu novo livro. Com os acontecimentos desta semana não deve faltar argumento ao autor do “O Dia do Chacal” e de “Cães de Guerra”.

Se havia personalidade que encarnava na perfeição a história da Guiné pós-independência ‘Nino’ era, sem dúvida, uma delas. Os seus 21 anos à frente dos destinos do país, embora não consecutivos, foram feitos de assassínios, golpes, torturas, perseguições, intrigas, enriquecimento ilícito, corrupção, etc. E isto tudo o que gera? Ódio e, consequentemente, vingança. Foi o que aconteceu na segunda-feira passada.

Estive na Guiné-Bissau uma única vez, em Maio de 1999, enviado para cobrir o conflito que opunha a então Junta Militar a ‘Nino’ Vieira. Na altura, vivia-se um período de tréguas que um frágil acordo de cessar-fogo, assinado uns dias antes, impunha, embora aqui e ali violado. A área controlada por ‘Nino’ estava confinada àquilo a que a Junta, jocosamente, chamava ‘Bissauzinho’, uma zona que abrangia as imediações do palácio presidencial e a área circundante em volta da Avenida Amílcar Cabral, a principal artéria da capital. Na Praça dos Heróis, a do palácio, não se podia circular. Havia ordens para disparar em tudo o que mexesse, por isso, nas poucas vezes que me aproximei, fi-lo com extremo cuidado. E se no espaço ‘Nino’ estava completamente confinado, das gentes então nem se fala. Excepto uma escassíssima minoria de militares guineenses, eram as forças estrangeiras (do Senegal e da Guiné Conacri) que permitiam que ‘Nino’ arvorasse o título de presidente da Guiné. Havia ainda uns 350 “aguentas”, miúdos, alguns deles com 14 ou 15 anos, que haviam recebido apressado treino de dois meses na vizinha Conacri. Sem qualquer experiência e eivados de medo, faziam-me lembrar as crianças que os Kmer Vermelhos recrutavam à força e que aterrorizavam quotidianamente os cambodjanos. Pude observar que os ódios eram profundos e muito enraizados, sobretudo contra a ocupação estrangeira. Quando um soldado senegalês ou de Conacri era morto o seu corpo era passeado rua fora para gáudio de todos, numa imagem que associamos à Libéria ou à Serra Leoa. Não admira, por isso, que a Junta tenha atacado definitivamente o palácio numa manhã poucos dias antes do meu regresso. “Nino”, ao contrário desta vez, conseguiu fugir, refugiando-se na embaixada de Portugal. Foi então incrível presenciar o saque total do palácio rosa já crivado de balas. A poltrona de veludo violáceo em que ‘Nino’ se sentava para tomar a grandes decisões a voar pela janela e os populares a sentarem-se à vez, como quem espezinha o dono. Espelhos, mesas, camas, televisões, aparelhagens, nada restou. A Guiné parecia cortar com ‘Nino’ para sempre.

Mas o velho guerrilheiro, como um gato de sete vidas, fez um intervalo de seis anos, exilando-se em Portugal na sua cómoda casa de Gaia, junto à cidade do Porto. Entretanto, a Guiné conheceu eleições, subiu pela primeira vez um balanta, a etnia mais numerosa, ao poder que com o seu barrete vermelho pretendia unir todos. Pura ilusão. A instabilidade continuou e os golpes sucederam-se, acabando um deles por vitimar o chefe de Estado Maior, o General Seríssimo Seabra. Parece ser este o destino certo do mais alto dignitário militar do país – os últimos três tiveram a mesma sorte.

Diz-se que o ladrão não volta ao local do crime. Mas ‘Nino’, vidrado no poder, voltou, a pretexto da acompanhar a grave doença da mãe. E, num golpe de mestre, candidatou-se às presidenciais de 2005, à revelia do seu partido de sempre, o PAIGC. E o impensável aconteceu: venceu! Vá-se lá entender a Guiné, pensei! Nestes três anos, tal como nos outros todos, “Nino” mais não fez do que tornar a Guiné um narco-estado, onde, segundo sei, enriqueceu como nunca com aquele comércio ilícito. As intrigas continuaram, os ódios acirraram-se e o velho guerrilheiro, que tantas vezes fintou a morte, acabou por ser apanhado à mão, uma humilhação suprema para um militar de sua craveira.

E a Guiné? A Guiné continua a ocupar os últimos lugares dos rankings internacionais, num fatalismo irreversível cada vez mais longe dos ideais de Cabral que sonhava que depois do colonialismo as águas do Geba voltariam a encontrar o Oceano Atlântico.

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