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SELO: Os Ritos de Iniciação: uma vítima de contradição cultural – Por Wilson Nicaquela

Este é  daqueles textos em que manifesto a minha indignação para todos os efeitos, tanto cultural assim como cientificamente. Circulou nas redes sociais, ao longo da semana de 18 a 25 de Julho de 2016, uma notícia segundo a qual muitas meninas abandonaram a escola grávidas, e a causa imediata são os Ritos de Iniciação (RI). As pessoas continuam a “rotular” as práticas  autóctones como sendo imperfeitas e esquecem que essa imperfeição não foi obra do acaso.

Os defeitos que persistem em torno dos RI são fruto duma engenharia cultural proposta pelos antropólogos eurocêntricos , que no caso moçambicano até existia uma Sociedade de Antropólogos que trabalhava especificamente com os administradores  dos postos administrativos para descrever os modos de vida das populações sobretudo na região norte (em Itoculo), cujo processo culminou com a instalação do “quartel general” do exército português, assim como os hábitos da população do planalto makonde, que diziam ser complexo (Araújo, 2006;Martins, 2013).

Se esquecemos, vale a pena lembrar: o termo RI foi popularizado pelo antropólogo alemão ARNOLD VAN GENNEP, nos princípios do século XX. Outras teorias foram desenvolvidas por MARY DOUGLAS E VOCTOR TURNER, na década de 60.

Essas teorias foram desenvolvidas com toda engenharia comportamentalista, o fim era moldar os nativos e fazer-lhes crer, como creem hoje, que  o elevado índice de gravidez advém dos RI, este pensamento ou tese não passa de alucinógeno.

Pois, o problema de gravidez precoce e promiscuidade sexual entre os estudantes secundários, especialmente, é  um problema universal. Nos Estados Unidos, grande parte das meninas dos 18 anos, entrevistados iniciaram o sexo antes dos 15 anos, e este país apresentas altas taxas acima da Europa (DOPINKS & HILLARD, 2009).

Ademais, eu não estou contrapondo a existência de muitos casos  de gravidez precoce ou abandono escolar, esse é um facto, pois,  os números são assustadores. A minha indignação  reside na MARGINALIZAÇÃO dos RI, aliás, há quem pensa que eles são uma prática exclusiva africana ou em Moçambique são apenas da região norte. Isso é ilusão dos próprios advogados dessa ideia.

Não há nenhuma sociedade que eu conheça, isenta de ritos de iniciação ou no mínimo aquilo que o Prof. BONNET (2002) chama de “Ritos de Passagem” (RP), em que o indivíduo é iniciado a um determinado modo de vida ou realidade, podendo ser a vida adulta, a morte, o nascimento, o funeral, o nascimento, o casamento, a solução de conflitos, etc.

Esses RP são conteúdos que podem ser incorporados ou não nos vulgos RI, variando de uma cultura ou grupo social para outro…

Porém, muitos estudiosos e intelectuais ingenuamente se deixam embalar no malabarismo implantado na era da ocupação efectiva e, preconceituosamente, politizam os RI atribuindo a culpa do fracasso das medidas de promoção da mulher na escola.

Entenda-se, os RI em si, são problema nenhum. Quem os torna problemáticos são as pessoas que sequer ousam estudá-los ou se o fazem, vão com hipóteses validadas e não as testam.

Os RI praticados nesta parcela que muitos apelidam de norte de Moçambique, não podem, por favor, continuar na diabolização infundada ou especulativa. Que se busquem as verdadeiras causas do elevado número de gravidez precoce, que não seja esse regionalismo cultural, pese embora, o regionalismo seja útil e necessário no contexto da Glocolocalização!

Bibliografia ARAUJO, Manuel Mendes(2006). Cidade de Nampula: Rainha do Norte de Moçambique: Finisterra, XL, 79 (209-223), Maputo.

BONNET, João Alberto de Sá (2002). Ethos Local e Currículo oficial : A educação autóctone e tradicional macua e ensino básico em Moçambique. Tese de doutoramento. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

DOPKINS, B.J & HILLARD, P.J.A. (2009). Gravidez na adolescência, glob.libr.As mulheres de med  (ISSN 1756-2228). DOI 10,3843.

MARTINS, Luísa Fernanda Guerreiro (2013), Os Namarrais do Antigo Distrito de Moçambique (1865-1913). In Actas do Congresso Internacional Saber Tropical: História Memória e Ciência, Univ. Évora .

Por Wilson Nicaquela

Psicólogo escolar Mestrando em Educação em Ciências de Saúde (UniLúrio)-Universidade Lúrio/ Campus de Marrere, Nampula – Moçambique.

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