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SELO: O que me lixa – Por Ricardo Santos

O que não me lixa é ler por aí que alguém vai ser condenado a ver oito lustros aos quadradinhos ou a ser absolvido para sempre a sete palmos de terra. Nem ver, ouvir ou ler os mesmos argumentos estúpidos de aprendizes de feiticeiro.

O que não me lixa também é ver intelectos amorfos de espinha dorsal flexível, como almas emboscadas com a cauda entre as pernas. E nem a desfaçatez dos duas-caras que julgam que nos enfiam sempre o barrete, pensando que nos aldrabarão para sempre com a sua ladainha de afastar outros iguais para ficarem sozinhos no pasto. Nem isso me lixa. Acreditem!

O que me lixa é esta endémica cegueira que nos impede ver a ponta do nariz. O nosso próprio nariz.

Como contratos ruidosos, mas opacos, continuam a amarrar belicismo com energia. Ambientalismo com lavandarias respeitáveis de investimentos turísticos e imobiliários. Aeroportos e portos. E sabe-se o que mais. Contratos bilionários à porta de cavalo. Feitos aos fins-de-semana. Em jantares de família. Amigos de infância. Ou simples conhecidos de ocasião. Em todo o lado. A todo o momento.

Mesmo com a hecatombe das dívidas ocultas, o Estado nunca deixou de entrar como Avalista, a mando da mesma prole de parasitas engravatados, de contratos que já se sabe nunca poderá pagar. Mesmo com a garantia de parcelas de terra. Subsolo rico. Para putativos parques eólicos. Solares. Eucaliptos. Ou madeira preciosa. Tudo na ponta do nosso nariz.

Contratos que continuam, cada vez mais, a ser selados em nome de companhias do tamanho de uma James Bond. Móveis. Computadorizadas. De face oculta e ao alcance do click de poderosos e opulentos investidores off-shore, com a certeza absoluta que, tarde ou cedo, o Estado lhes cairá maduro. De joelhos, perante uma Corte internacional. Para se transformar então de vítima em culpado. Premiando os empreendedoríssimos impostores.

Assim, o dinheiro drenado dos shitholes da moda torna-se perfumado e limpo como um Chanel numa conta bancária do hemisfério norte. E toda burrada se limita então a um pequeno detalhe estatístico da conta geral do estado, sustentado por mais um oportuno reajustamento estrutural imposto pelos mesmos.

Se os péssimos artistas burlescos que nos entretêm de momento, não fossem tão sôfregos e apressados, teriam feito como os seus mentores. Canibalização e reexportação, durante uma década, do erário público que embolsaram. E não com a pressa de perderem o posto na outra legislatura.

E ainda seriam condecorados pelos honrosos serviços prestados à pátria. E reeleitos para cargos de ainda maior prestígio e responsabilidade. Pois afinal, não é o que temos sempre visto, numa escala menor, na nossa obediente função pública? Erro de principiante.

E isso é o que me lixa mesmo. A convicção plena é de que, dentro de pouco tempo, uma vigarice ainda maior será destapada debaixo da ponta do nosso descuidado nariz!

E a culpa morrerá solteira, nas nossas mãos.

Por Ricardo Santos

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