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SELO: A “caça furtiva” de Mr. Bow – Por José Domingos

Neste artigo não se pretende fazer críticas, mas apenas uma observação em torno da recente música lançada pelo cantor moçambicano Mr. Bow, ou simplesmente, King Bow, com o tema: “caça furtiva”.

Este artigo surge da análise do conteúdo da música moçambicana, a marrabenta. Conforme vários autores, um dos tipos de música comercial moçambicana mais conhecidos é a marrabenta, originária do sul do país, que não é apenas música e dança, mas tem frequentemente uma letra com grande conteúdo social.

Sendo Mr. Bow o músico que se identifica com o estilo musical, houve a necessidade de se fazer menção das características deste estilo mais predominante na zona sul. O conteúdo social da marrabenta é que tem aberto as portas para o seu sucesso, principalmente quando o mesmo retrata as vivências reais (alegria e tristeza) da sociedade.

A música de Mr. Bow intitulada “caça furtiva”, a nível estrutural, tendo em conta o estilo da letra, é composta por 8 estrofes irregulares (sem observação rigorosa do esquema rimático) e métrica irregular, o que leva a concluir que o conteúdo da música é que determinou a forma da letra e não o contrário.

Em relação à análise do conteúdo, esta vai se basear na divisão estrófica, pelo que raramente se encontra a música moçambicana (marrabenta) registada.

A música é cantada por um moçambicano aos moçambicanos. O músico lança um apelo à sociedade para que tome consciência em matérias de conservação dos recursos faunísticos, numa altura em que a procura pelos troféus e marfim é a principal causa de matança de rinocerontes e elefantes no Parque Nacional do Limpopo (Moçambique) e no Kruger Park (África do Sul).

Face a este fenómeno, Mr. Bow, na sua música apresenta, ainda mais, um sentimento de dor, porque muitos homens perdem a vida, muitas mulheres ficam viúvas e, em muitos casos, os mandantes saem vitoriosos nesta luta desencadeada pelos homens da caça furtiva contra os homens da conservação faunística.

Em quase toda a música, Mr. Bow faz uma denúncia contra este mal e através do seu grito, fica claro que este mal provavelmente pode envolver figuras que ocupam lugares cimeiros na máquina governativa.

O que chama atenção a qualquer pessoa que for a escutar a música é a invocação de alguns nomes dos que passaram pela máquina governativa e não a todos. Numa das estrofes diz-se:

Txuvukani mfumu wa Moçambique

Wayi yala Mhaka leyi B’ava Chissano…

Angayi lavi mhaka leyi Hosi ya hina Nyusi

Wayi yala Mhaka leyi

Traduzindo para a língua portuguesa (sem rigorosidade linguística exigida), entende-se o seguinte:

“Observem, o governo moçambicano não quer que este fenómeno aconteça.

Pai Chissano e Presidente Nyusi, nosso Presidente, não admite a ocorrência deste fenómeno”.

O que não se consegue entender nesta estrofe é a invocação, na sua música, de duas figuras (presidentes), onde uma já passou pela máquina governativa (Joaquim Chissano) e a outra ainda no poder (Filipe Nyusi).

Parando no tempo e no espaço, e visitar um pouco a história de Moçambique, entende-se que o país, desde a sua independência até ao lançamento da música em análise (2016), conta com quatro (04) presidentes, Samora Machel (1º Presidente e já falecido), Joaquim Chissano (2º ex-Presidente) , Armando Guebuza (3º ex- Presidente) e Filipe Nyusi (actual Presidente).

Mr. Bow, denuncia a prática da caça furtiva de animai e apoia-se nos governantes que, em particular em duas figuras que, segundo ele, são humildes, com espiírito de misericórdia, respeito e amor com o povo. Ora vejamos: Sem incluir Samora Machel, o país conta com dois ex-presidentes ainda em vida. E a questão que se coloca é a seguinte:

Por que é que Mr. Bow na sua denúncia popular contra a caça furtiva apenas invoca o ex-presidente Chissano e o actual presidente Nyusi, como figuras que se objectam a este mal? Será que o cantor terá se esquecido do ex-Presidente Armando Guebuza?

Por José Domingos

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