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Sapateiros de esquina em permanente sobrevivência

Eles recusam-se a ser chamados biscateiros. “Porque temos trabalho todos os dias”. E mais, “exercemos as nossas actividades no mesmo lugar, mais ou menos às mesmas horas”. Mais ainda, “temos um horário para cumprir e o biscateiro é um “nómada”, quando acorda não sabe se terá trabalho ou não, enquanto nós estamos sempre em exercício”.

Contam-se aos dedos os que exercem esta profissão na cidade de Inhambane e eles próprios é que se autopromoveram. A vocação de esquina é para engraxadores, mas o tempo ensinou-lhes que passar a vida a engraxar sapatos não compensa muito, é necessário fazer mais alguma coisa.

Dezanove é um deles, um homem que tem um nome que nos pode paralisar. É um deficiente físico, arrasta as pernas para andar, e todos os dias pendura-se numa cadeira de rodas e vai ao trabalho. Ele próprio diz-nos que ser deficiente não é uma fatalidade, é um desafio.

“Faço a minha vida como qualquer outro. Não tive a sorte de progredir nos estudos, mas a vida não é só para aqueles que estudaram. Podemos fazer muita coisa sem ter ido à escola, como agora que estou aqui, engraxando sapatos e arranjando calçado que precisa da intervenção de um sapateiro”.

O seu local de trabalho situa-se na zona do mercado, mais concrec- tamente junto ao Botlestore do Julinho. Está ali todos os dias, com os seus companheiros que fazem o mesmo trabalho e ainda na compa- nhia de duas ou três mulheres que vendem fruta e tubérculos. Sempre que passamos por ali vêmo-lo atarefado.

“Aqui nunca falta trabalho, há sempre alguma coisa para fazer, ou engraxar sapatos, ou concertar uma sandália, ou outro tipo de calçado”.

Sobre se compensa estar ali todos os dias exercendo aquela actividade, Dezanove respondeu-nos afirmando que “o mais importante é você sair de casa para aqui, o resto depois acontece. Graças a Deus nunca dormi com fome, e isso nunca vai acontecer enquanto existirem pessoas que gostam de andar com o sapato polido, ou com o salto em condições”.

Mas a vida de Dezanove não termina por aqui; traz sempre na cabeça um gorro com as cores dos “rastafari”, e esse gosto não vem por acaso. “Sou músico e o meu estilo é o regae. Bob Marley é o meu principal ídolo”.

Na verdade este homem é músico, conhecido em toda a cidade de Inhambane e em quase todos os distritos da província. Concilia a sapataria à arte de cantar. “Mas o que me dá mais dinheiro para ali- mentar a minha família são os sapatos”.

Onde há um sapateiro há cigarros

Realmente, onde estão estes sapateiros da sobrevivência, há cigarros à venda. Avulso. O dinheiro dos sapatos não chega. Segundo Kham- bula, outro deficiente físico que superou há muito tempo o seu estado, com trabalho e crença, “não podemos dormir apenas de um lado. De vez em quando tempos que mudar de posição”.

Khambula trabalha na “Esquina do Jethá”, com outros colegas da área. Como no “território” de Dezanove, para aqui também são atraídas vendedeiras de fruta e tubérculos e coco fresco (lanho) cuja água é vorazmente consumida na cidade, sobretudo neste tempo quente.

Khambula é sapateiro-engraxador há muitos anos e através deste tra- balho sustenta a sua família. Como Dezanove, ele também pendura- -se numa cadeira de rodas, com a ajuda dos seus parentes, e ruma para o mesmo lugar, na luta pela vida.

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