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Revista Tempo 40 anos depois – Uma parte da História que se perde

Revista Tempo 40 anos depois - Uma parte da História que se perde

Dos arquivos solta-se um fedor bolorento, mas cinco, dez, 27 funcionários põem-se a caminho todos os dias úteis, religiosamente, ao encontro dos escombros que sobram da Revista Tempo. A podridão e a fé dos funcionários, à espera de uma indemnização há 18 meses, andam juntos naquela que foi a maior publicação moçambicana da década de setenta. E enquanto isso, distraidamente, a água que emerge do piso térreo vai absorvendo uma parte da história de Moçambique.

À primeira vista nada faz antever que as instalações da Tempo são frequentadas por seres humanos: um ambiente fúnebre, o ‘total’ estado de abandono e a deterioração dos meios de trabalho são alguns dos aspectos mais visíveis no local onde funcionou a lendária Revista Tempo, cuja primeira edição saiu à rua em Setembro de 1970 e, por sua vez, a última em Junho de 2008. Situado na Avenida Ahmed Sekou Touré, o enorme edifício (prédio Invicta), onde funciona(va) a Tempográfica SARL, proprietária daquela publicação, alberga três espaços para serviços. Desses compartimentos, um situa-se no sexto andar, outro no rés-do-chão e o último na cave. Actualmente, os três espaços estão votados ao esquecimento. Dadas as péssimas condições de salubridade e falta de conservação, ficar ali durante algumas horas constitui um desafio à saúde.

“As coisas começaram a ficar mal em 2000 quando a empresa foi privatizada”, referiu um funcionário. “O que se vê nos dias que correm é o corolário de um processo que já dura há mais de dez anos”, acrescentou um outro. No rés-do-chão funciona o sector administrativo. Ali, à semelhança do arquivo (antiga redacção), tudo vai de mal a pior. Até porque actualmente o local se transformou num charco. A água corre por todos os lados num nível que chega a atingir o tornozelo. Na origem desta situação está a constante infiltração de que o prédio Invicta sofre, provocando assim, uma imundície que, por sua vez, cria um forte cheiro nauseabundo. “Além de não haver tarefas, a falta de condições de trabalho obrigam-nos a ficar do lado de fora para ‘captar’ outros ares”, afirmam alguns trabalhadores.

Mais a baixo, está a cave o lugar onde operavam as oficinas gráficas e que agora parece um cemitério, pois jazem, por ali, as máquinas que outrora imprimiram milhões e milhões de volumes da história do país.

Apagar a memória colectiva do povo

Quando foi criada há quarenta anos por um grupo de profissionais de Imprensa, na altura conhecidos por “Os Democratas”, descontentes e amargurados com o estado da informação da época, aqueles pensavam em criar um jornal. Mas um meio que informasse e não fizesse obstrução à informação, que falasse da linguagem saudável e necessária, que defendesse aquilo que era tido como vontade da maioria, no caso concreto do povo, mesmo quando tinha que ser feito contra os interesses políticos e económicos.

Segundo consta no seu primeiro editorial, até 20 de Setembro de 1970 quando foi lançada a primeira edição, a empresa contava com cerca de 50 profissionais afectos às mais diversas áreas de trabalho. “Somos hoje, já não um pequeno grupo de românticos sonhadores com as mãos vazias, mas um grande, um imenso conjunto de vontades, perfeitamente consciente do seu destino: a nossa organização envolve já investimentos da ordem de milhares de contos e trabalham nela em regime de tempo integral cerca de 50 profissionais dos diversos ramos ligados à leitura do jornal”, lêse no documento.

A partir de 1975, ou seja, após a independência nacional e o advento das nacionalizações, a publicação passou a pertencer ao Estado moçambicano e a servir como um dos mais notáveis instrumentos de propagação e disseminação de mensagens e ideais pró-governamentais da época do partido único. Este período é tido nalguns círculos da opinião pública como a fase crucial no desempenho daquela que foi a maior revista de grande informação de Moçambique.

Os muitos milhões de páginas da história do país foram na sua maioria produzidos nessa era. Desse repertório constam informações que vão desde a proclamação da independência, a 25 de Junho de 1975, passando pelas decisões tomadas nos congressos do partido Frelimo, o processo da Ofensiva Política e Organizacional que culminou com a privatização das “lojas do povo”, os dramas vividos nas aldeias comunais com as habituais rusgas domiciliárias nocturnas, as duras leis do período revolucionário responsáveis pelo descontentamento de muitos cidadãos, as peripécias das nacionalizações das infra-estruturas coloniais, os ataques à Matola pelas forças armadas sul-africanas em Janeiro de 1980, os contornos do Acordo de Inkomati em 1984, os conteúdos dos comícios populares, a morte do primeiro presidente do Moçambique independente, Samora Machel, em Outubro de 1986, ainda os acordos de paz em 1992 culminando com os últimos acontecimentos que se deram no país até 2008, ano em que saiu à rua a última edição.

Portanto, segundo alguns analistas, votar este material ao esquecimento é o mesmo que apagar a memória colectiva de todo um povo. “É pois necessário incentivar a todos aqueles que ainda possuem dados e documentos que possam contribuir para que essa história se faça e não se extinga com a falta de vontade de algumas pessoas de deixar algum legado para as futuras gerações e manter viva a memória colectiva de todo um povo”, apelam.

O drama dos trabalhadores

Pelo que se pode notar, os trabalhadores vivem ao deus dará. Queixam-se do patronato por lhes ter tirado os direitos laborais e, sob o olhar cúmplice de quem de direito, foram transgredidos vários compromissos rubricados com o Governo aquando da privatização da Tempográfica. O Ministério do Trabalho diz que a empresa faliu e por isso não há motivos para agir. Até ao momento, já vão em 13 os meses sem salário, sem mencionar as quantias referentes a horas extras desde 2007.

Ao todo, actualmente existem cerca de 29 trabalhadores que todos os dias sobrevivem à intempérie mergulhados na incerteza do dia de amanhã. Há pouco tempo, dois deles morreram e a maior parte frustrada, devido à falta de assistência e o caos em que a firma se encontra. Paira, igualmente, um ambiente de incertezas em relação ao futuro. Segundo relatos, o processo está a ser negociado entre o patronato e o sindicato dos trabalhadores.

Desse diálogo, os funcionários esperam soluções claras. Provavelmente, as decisões serão publicadas nos princípios de Maio próximo. Por enquanto as coisas estão reservadas ao foro empresarial. Na mesa estão por aclarar questões ligadas à venda das instalações, uma das soluções tidas como ideal para indemnizar os trabalhadores. Não se sabe ao certo se a empresa vai continuar ou não. Enquanto tal não acontece, o ambiente prossegue fúnebre e melancólico, numa rotina que se resume na assinatura do livro de ponto. A acrescentar as mágoas existe o velho problema do Instituto Nacional de Segurança Social (INSS) tudo indicando que durante o período de vigência da Tempografica, os descontos não eram canalizados ao INSS.

Sendo assim, os muitos funcionários em idade de reforma estão privados de receber as pensões e outros benefícios cedidos pelo comité sindical aos seus membros. Entretanto, apontase que uma das medidas para salvar a empresa era transformação do empreendimento em cooperativa gerida pelos e para os trabalhadores. De acordo com alguns funcionários veteranos, “neste caso tínhamos dado alguns passos. Havia já um centro social, e vários planos para melhorar cada vez mais as condições de trabalho. Contudo, o Estado decidiu privatizar e hoje aqui estamos sem nada para fazer”, contam. Portanto, a revista Tempo foi privatizada em 2000, uma acção em que a maior parte dos trabalhadores (75%) foi indemnizada, havendo um grupo que se manteve na instituição.

A esse conjunto pertenciam 20% das acções da empresa e eram geridos pelo Estado. Quando a firma passou a operar em regime privado, as coisas estavam pouco claras, ou seja, desconheciase a essência e a natureza da empresa que adquirira as acções. Suspeitase que tenha sido uma firma fictícia. Entretanto, dois anos depois, a Tempo entrou em colapso. É assim que, em 2002, foi chamado o segundo classificado no concurso público que tinha sido feito, no caso concreto a ZECAB Investimentos que, embora igualmente vista como estranha, dirigiu os destinos da Tempografica.

E tudo o tempo levou

Nada voltará a ser como antes. Tudo com o tempo se foi é o que se diz nos corredores da “maior escola de jornalismo em Moçambique”. Por lá pontificaram nomes que forjaram e influenciaram em grande parte a forma de fazer jornalismo no país. Desses grandes obreiros constam colossos como Rui Cartaxana, Ricardo Rangel, Areosa Pena, Kok Nam, Albino Magaia, Calane da Silva, Carlos Cardoso, Mia Couto, Mendes de Oliveira, Fernando Manuel, Naíta Ussene, entre outros. Nos tempos áureos, nos finais da década de setenta a princípios de noventa, a empresa produzia cerca de 40 mil revistas por semana para satisfazer o número de leitores que não parava de crescer um pouco por todo o país.

Para fazer face a esses desafios passouse a trabalhar por turnos. Contase que tudo corria sem sobressaltos. Aos trabalhadores não faltavam direitos como divisão de lucros, bónus, cabaz de diversos produtos e os salários referentes ao décimo terceiro mês. Além de magazines, produziase naquela instituição embalagens para produtos como bolachas, chá, café cevada e não só.

Faziam-se, igualmente, calendários, cartas de mesa, cheques para bancos e havia uma carteira de clientes fixos para os quais se forneciam serviços. Alguns deles eram empresas como a Electricidade de Moçambique (EDM), Companhia Industrial da Matola (CIM), Banco Standard Totta (actual Standard Bank) e algumas pessoas singulares. Hoje, segundo os trabalhadores, olhando o passado e o presente, nada mais se pode esperar senão passar os dias a recordar os bons velhos tempos que se foram, levando para sempre os momentos marcantes da longa trajectória da lendária Revista Tempo.

Directores da Tempográfica 1970/2008

Durante 38 anos foram publicados 1574 edições.

A revista começou com 64 páginas, atingiu 80 em 1973, passou para 50 nos anos ´80, e em 2008 fechou com 64 páginas.De lá até o seu encerramento, o número de exemplares por edição variou bastante. Começou com 5 mil e houve épocas em que atingiu os 25 mil sem nunca ter ultrapassado os 40 mil. Terminou com 20 mil. Desde sempre teve uma periodicidade semanal, mas com a privatização passou a ser mensal e a cores.

Enquanto existiu, os seus destinos foram dirigidos por vários directores, a saber:

Engenheiro Rogério de Moura 1970

Rui Baltazar 1974

Mota Lopes 1975

Muradali Mamadussene 1976

Luís David 1977

Alves Gomes 1978

Mia Couto 1979

Albino Magaia 1980

Simião Cachamba 1989

Roberto Uaiene 1997

João Banze 1998

Amade Ossemane 1999

Abílio Bichinho (PCA) 2002…

Memórias dos antigos trabalhadores

A revista saiu num domingo. A concepção da capa foi do Aníbal Martins e as fotografias foram minhas. A ideia era grandiosa. Pôr os principais acontecimentos que faziam a actualidade em Setembro de 1970 na capa da revista. Todo o processo foi cativante. Era novo, com sangue na guelra, como todos os outros. O director-adjunto era o Rui Cartaxana. Era adjunto porque o sistema não permitia que a revista tivesse um director não licenciado. O Mota Lopes, Areosa Pena, Ribeiro Pacheco e Ricardo Rangel eram jornalistas accionistas. Para mim, Miguéis Lopes Júnior, Maria de Lurdes Torcato e muitos mais, começava uma nova era nas nossas vidas. A primeira edição foi um sucesso. Tinha uma capa a cores e uma tiragem inicial de 5 mil exemplares. Custava sete escudos e quinhentos. Esgotou rapidamente e foram feitas mais reedições. O primeiro número vendeu ao todo 15 mil exemplares, o que era bastante na época. Foi a primeira revista a ser editada em offset e, além do mais, era proprietária de uma gráfica. No dia do seu lançamento, fomos todos comemorar para o Sheik, um “must” na época. Chegámos felizes ao fim do dia 20 de Setembro. No dia seguinte, a ressaca é que incomodava um pouco, mas, mesmo sendo segunda-feira, continuávamos felizes./www. estradapoeirante.blogspot.com

Kok Nam (fotógrafo)

Entrei na revista Tempo em 1971/72. O grupo que a fundou, entre eles o Rui Cartaxana, Mota Lopes, Areosa Pena, Ribeiro Pacheco, trabalhou comigo no jornal notícias nos finais de 1968/69. Eles diziam muito bem que para entrar naquela publicação era preciso amadurecer um bocado. Na altura, apesar de haver censura oficial, trabalhavase muito porque a concorrência era forte. Tínhamos de fazer a aprendizagem no processo da busca de notícias e reportagem dos factos. Foi assim: eles entraram, organizaram e a Tempo apareceu logo com aquela faceta anticolonial e de oposição nítida. Alguns tempos depois a censura começou a ser forte. Chegouse a publicar páginas em branco e só mais tarde as pessoas perceberam que tal acontecia por causa da censura. Depois da independência, éramos a única revista que circulava em todo o país. Havia escassez de documentos e livros. A publicação servia como tal.

A tiragem passou de 18 para os 25 mil exemplares, o que suportava os custos. Lembrome de que tivemos uma perturbação que durou três meses quando houve aquela questão da saída dos técnicos, que nos obrigou a pedir dinheiro ao banco por duas vezes. Depois, eu e o Ricardo Rangel fomos a Tete, fizemos uma rede de distribuição, por lá também produzimos umas reportagens e idealizámos a cooperativa que seria a proprietária daquilo. Assim, a empresa passou a pertencer aos trabalhadores. Não era do Estado, era nossa. Depois começaram a aparecer novos profissionais, dentre eles o Carlos Cardoso e a revista retornou ao estilo antigo com reportagens que contradiziam até a própria linha Marxista e artigos que denunciavam injustiças. A morte do Presidente Samora Machel foi um dos momentos mais terríveis porque eu tinha de viajar, mas dias antes fui a Luanda. Foi igualmente terrível porque ele tinha insistido para viajarmos juntos, contudo eu tinha de ir ao Brasil no dia 20. Portanto, é importante sublinhar que foi um tempo de clivagens, mas também uma época de muitos avanços.

Calane da Silva (Jornalista)

Só nos resta dizer que foram bons os tempos em que a Tempográfica funcionou como tal. Cheguei à empresa em 1977. Passei aqui toda a minha juventude. Nessa altura o director era o Luís David. Éramos um grupo de jovens guiados por sonhos e optimismo em relação ao futuro. A revista saía às sextas-feiras e era vendida não só dentro das fronteiras nacionais, mas também em Angola e noutros países da região. A certa altura a Tempo foi o órgão de comunicação que melhor pagava aos funcionários. Por outro lado, lembrome também de que tínhamos a melhor equipa de profissionais a qual o partido Frelimo passou a recolher para dirigir outras instituições de comunicação social como a Agência de Informação de Moçambique (AIM), a Televisão Experimental (TVE), actual Televisão de Moçambique, mas isso não abalou a nossa empresa porque éramos um grupo coeso e organizado. Enfim, é triste que a verdadeira Tempo, o tempo tenha levado e deixou apenas lembranças dos momentos áureos e amarguras dos dias tristes como os que actualmente vivemos.

Anónimo (trabalhador há 33 anos)

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