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Revista de CD’s: Conselhos do travesseiro

Revista de CD’s:  Conselhos  do travesseiro

Devo confessar que sou daquelas pessoas que têm dificuldades em arrumar a sacola para uma pequena viagem de três a quatro dias longe de casa porque vou ficar longe daquelas coisas de que gosto mais; logo a começar seria o meu travesseiro, pois melhor do que ele não há. A solução é fazer uma selecção muito bem-feita do que realmente é importante levar connosco.

Tal acontece com a escolha, selecção musical que deverá sempre fazer parte do nosso recosto. Ah, já me estou a imaginar a ouvir alguns com opiniões de conhecimento tecnológico actualizado dizendo que se pode compilar centenas de CD’s no dito IPod ou leitor de MP3 e levar-se assim, no bolso da camisa, toda a discografia que alguma vez a música há-de ter produzido, evitando este exercício de selecção.

Bem, neste caso tenho de estar de acordo com o um amigo quando diz e bem dito que uma coisa é engolir o vinho e outra coisa é degustar o vinho; na segunda situação é-nos permitido conhecer todas aquelas sensações que o néctar da uva nos pode proporcionar. O mesmo se passa com a escolha e, subsequentemente, com a audição musical; uma coisa é ouvir e a outra coisa é escutar; embora sinónimos bem próximos, o acto de escutar subentende uma audição com maior atenção, ou seja, com rigor, estando o nosso ouvido, por isso, atento a todos os pormenores que nos são transmitidos pela música. A acção de se escolher e/ou seleccionar um CD na estante é um ritual que culmina com o processo de audição.

O Conselho de Travesseiro para esta semana vem de e com o Sexteto de George Russel “At the Five Spot” remasterizado pela Verve e originalmente trazido pela editora Deca Records.

Russel é o pianista e arranjador, com Al Kiger no trompete, David Baker ao trombone, Dave Young Saxofone no tenor, Chuck Israels ao contra-baixo e Joe Hunts na bateria. Todos estes nomes são desconhecidos.

A gravação data do ano de 1960 e contém seis temas, nomeadamente: Sippin’ at Bell’s (Miles Davis), Dance Class e Beast Blues (Carla Bley), Swingdom Come (George Russel), 121 Bank Street (David Baker) e Moments Notice (John Coltrane).

Russel é um didáctico por excelência; desde muito cedo dedicou parte da sua acção à música e ao ensinamento; na altura desempenhava o papel de catedrático no Conservatório de Música de Nen England, sendo que em paralelo escrevia arranjos e composições musicais para big bands e band beaders. Para quem é mais ligado aos conceitos teóricos musicais, Russel criou o que chamou de Conceito Lidio Cromático de Organização tonal, um conceito ligado à composição e à interpretação. “Coisa séria – palavras do própio Russel– pois a composição ganha uma ropagem fora do comum a que estamos habituados”, embora Russel, quando faz interpretações de temas de outros compositores como Miles e Coltrane, não choque com aquilo que é a intenção do autor da obra, consegue fazê-las com outras nuances saindo desta forma dos parâmetros comuns a que estamos habituados. Isto é notável no disco proposto, acabando, assim, por se estar perante uma música muito para além do Jazz.

Porque ele esteve ligado sempre ao ensinamento, tinha o cuidado de explorar e tirar mais-valias dos seus estudantes que mais se destacavam na aprendizagem em composição e interpretação, daí que no presente disco faz questão de trazer composições dos mesmos que julgo serem de uma extrema preciosidade.

O disco foi gravado não no dito Five Spot como pode parecer à primeira vista, mas sim depois de várias sessões que ocorreram no local, onde na audiência estiveram figuras como Mingus, Monk, Miles e Coltrane. Vale a pena ir ao amazon.com e encomendar o disco.

 

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