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Requiem para o jornalismo moçambicano

Há duas semanas, terminava este mesmo espaço dizendo: “Moçambique também não escapa a este voyeurismo. Parece que há 996 documentos no portal da WikiLeaks sobre o nosso país, mas o seu acesso continua vedado. Quem é que não gostaria de saber o seu conteúdo?”

Et voilà – como dizem os nossos amigos franceses, gosto muito mais desta expressão do que a equivalente em português –, como quem tira coelhos da cartola, vieram a lume, na quinta-feira da semana passada, quatro desses documentos. Tidos como confidenciais, foram elaborados por Todd Chapman, que ocupava, até ao início do presente ano, o cargo de encarregado de negócios da embaixada dos Estados Unidos em Maputo.

Devo dizer que não privei suficientemente com Chapman para emitir uma opinião abalizada acerca da sua pessoa e muito menos da sua personalidade. Só por uma vez, numa dessas típicas recepções do corpo diplomático, conversei mais demoradamente com ele. Recordo a sua afabilidade (acho que a tinha com todos os jornalistas); o seu português – bastante acima da média desastrosa dos anglo-saxónicos – com adocicado sotaque carioca fruto de alguns anos no Brasil e um conhecimento profundo do meio que o rodeava.

Não admira que fosse, durante o período em que residiu no nosso país, o principal ‘cérebro’ dos norte-americanos aqui. Por ele passavam, seguramente, todas as informações confidenciais para Washington. E foi ele o responsável pelos tais documentos que agora o WikiLeaks colocou à disposição no seu site de Internet.

Os documentos são duros, muito duros mesmo, para com a classe dirigente do país, associando-a, ou pelo menos tornando-a cúmplice, de um dos maiores flagelos da humanidade: o tráfico de drogas. Moçambique, embora ainda não seja um narco-estado, como, por exemplo, a Guiné-Bissau, vive uma situação “inquietante”, no que a este fenómeno diz respeito, de acordo com as informações fornecidas pelo WikiLeaks.

São acusações graves, demasiado graves, para se ter reagido como se reagiu, tanto da parte do Governo como da imprensa. Se o primeiro teve como reacção um ténue desmentido do ministério chefiado por Oldemiro Balói já a imprensa, à excepção do quase proscrito “Canal de Moçambique”, teve uma reacção mais papista do que o papa, tomando as dores do visado, mais do que o próprio. E se nos mais próximos do poder isso era previsível, já nos ditos independentes tal não se esperava, sobretudo entre aqueles que vinham conseguindo manter uma certa independência editorial.

Parece que em relação a este caso há uma ‘orientação única’ a fazer lembrar os tempos do monopartidarismo, quando sair da linha significava levar um valente puxão de orelhas. E isto é a morte do jornalismo, sobretudo do jornalismo de investigação?

Será que já não somos sensíveis ao enriquecimento ilícito, à corrupção ou compadrio e achamos normal que fiscais das alfândegas, que ganham 15 mil meticais de salário declarado, possuam luxuosas vivendas com três pisos no Bairro do Triunfo ou no Belo Horizonte? Se assim é, cada vez mais nos distanciamos da função do jornalismo que é lutar pela verdade dos factos e repor justiças.

Será que este tipo de jornalismo, incómodo, nómada (no bom sentido da palavra), crítico, que abala, de antes quebrar do que torcer, feito para homens de barba rija, morreu com Carlos Cardoso?

A propósito de Carlos Cardoso estou certo de que ele com estas pistas – terá alguma vez tido umas tão boas? – pegava nelas e aí até ao fim. Doesse a quem doesse. Custasse o que custasse.

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