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Reduto de Khadafi resiste sob contagem regressiva

As forças do novo governo líbio que cercam um dos últimos redutos de Muammar Khadafi deram nesta terça-feira dois dias para que os moradores de Bani Walid deixem a cidade antes de iniciarem uma ofensiva militar. O prolongado impasse na cidade – terra da maior tribo líbia, a Warfalla – transformou esse obscuro oásis, 150 quilómetros ao sul de Tripoli, num ponto focal na guerra civil do país, iniciada há sete meses.

Os combatentes do Conselho Nacional de Transição (CNT), estacionados no portão norte da cidade, querem subjugar Bani Walid, mas temem que uma táctica agressiva demais provoque revolta na tribo Warfalla, dificultando os esforços pela criação de um governo nacional abrangente. Uma rádio da vizinha Tarhouna tem feito um apelo para que a população procure áreas mais seguras.

“Não queremos matar ninguém, não queremos transformá-los em inimigos”, disse o combatente Abumuslim Abdu, com cinturões de munição cruzados sobre o peito. “Estamos sob ordens dos nossos comandantes para agir com muito cuidado e evitar danos a civis.”

O CNT já fez sucessivos ultimatos pela rendição de Bani Walid e outros bolsões de resistência, mas até agora evita uma ofensiva total. Sirte, cidade natal de Khadafi, e Sabha, nos confins do Saara, também continuam leais ao regime deposto. Em Bani Walid, partidários de Khadafi posicionaram franco-atiradores no centro da cidade e têm disparado foguetes e morteiros contra as posições do CNT.

Combatentes e moradores dizem que muitas famílias locais continuam a apoiar Khadafi e hasteando desafiadoramente a bandeira verde do seu regime sobre as suas casas. Por outro lado, muitas famílias têm deixado Bani Walid em camionetas e carros abarrotados de bagagens. Combatentes do CNT estimam que metade da população civil tenha fugido para o norte, na direcção de Tripoli e de Misrata.

Depois da tomada relativamente tranquila de Tripoli no mês passado, a inesperada resistência em Bani Walid intriga até os combatentes locais. Moradores dizem que muitos membros da tribo Warfalla temem retaliações por causa dos seus tradicionais laços com a tribo de Khadafi.

O rochoso terreno local – diferente do deserto plano que caracteriza grande parte da Líbia – também contribui com o impasse militar na cidade. Por enquanto, as forças do Exército nacional e de brigadas locais anti-Khadafi aglomeram-se em torno de Bani Walid à espera de ordens para avançar.

Novo líder líbio promete um Estado civil e um islão moderado

Foi na Praça dos Mártires de Tripoli que o presidente do novo governo líbio, Mustafa Abdul Jalil, falou na passada terça-feira pela primeira vez ao país para prometer um Estado civil e um islão moderado. Há uns meses, quando a praça se chamava Verde, Khadafi fez ali o discurso em que chamou “ratazanas” aos políticos e combatentes do Conselho Nacional de Transição (CNT).

Jalil anunciara que o novo governo não se instalará em Tripoli antes de o país estar “completamente livre”. Há vários focos de resistência por parte das forças leais a Khadafi e, num ataque ontem na região petrolífera oriental, foram mortos 15 combatentes, pelo que a deslocação é temporária. Porém, vários membros do CNT têm chegado à cidade para começar a preparar a mudança. Perante a praça cheia, o primeiro-ministro interino pediu aos líbios que ajudem a construir um país democrático, baseado na lei islâmica, mas moderada. E apelou a que não haja vingança.

“Que não haja retaliação, que não se faça justiça pelas próprias mãos. Espero que a revolução não vacile devido a qualquer destas coisas”, disse Jalil, citado pela estação de televisão Al-Jazira. Enquanto falava, ouviam-se aplausos e palavras de ordem como “Ergam bem a cabeça, são líbios livres”.

Alguns, relatou a Al-Jazira, choravam. “Lutamos por um Estado de direito, por um Estado próspero, por um Estado em que a sharia (a lei islâmica) seja a base da legislação”, disse Jalil à multidão. Também falou às mulheres: “Vocês apoiaram-nos, são a arma contra quem tentar sequestrar esta revolução.” Segundo a enviada do jornal El Mundo, prometeu criar uma cota para incluir mais mulheres em postos de decisão.

Para o investigador da universidade americana de Colombia Younes Abouyoub, tratou-se de um discurso importante e feito no momento certo. “Ele quis garantir que o povo percebe que o país não vai derrapar nem para um liberalismo ocidental, nem para o extremismo que muitos desejam”, disse o investigador à Al-Jazira.

Ainda esta semana, o CNT foi reconhecido por mais uma instituição, o Banco Mundial, pela China e abriu a primeira embaixada temporária em Tripoli, a do Canadá.

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