Para continuarmos  a fazer jornalismo independente dos políticos e da vontade dos anunciantes o @Verdade passou a ter um preço.

Publicidade

“Quando se encontra uma causa já nada mais importa”

“Quando se encontra uma causa já nada mais importa”

Nuno Cardoso, o irmão caçula de Carlos, abriu para @ VERDADE algumas páginas da vida do irmão que, segundo ele, morreu por querer contar a verdade aos moçambicanos. Aqui ficam os principais pontos da conversa.

Qual é a recordação mais longínqua que tens do teu irmão Carlos?

Nuno Cardoso (NC) – Lembro- me de quando ele estava a estudar na África do Sul, na Witbank High School, e vinha cá a Moçambique passar férias. Em 1972, lembrome de ir com ele e com toda a família a Portugal passar férias e de ele me ter levado ao estádio da Luz.

O livro “É Proibido pôr Algemas nas Palavras” refere que Carlos Cardoso terá tido uma infância austera. É verdade?

(NC) – O meu pai era duro, rigoroso, muito disciplinado. Aliás, quando os meus dois irmãos começaram a chumbar a algumas cadeiras o meu pai resolveu metêlos num colégio interno na África do Sul, em 1964. Comigo já não foi assim. Lembro- me que o meu irmão José Manuel tinha medo do meu pai. Já o Carlos não, e, muita vezes, enfrentava-o. Mas esta austeridade vem da avó Maria, mãe do meu pai, que tinha uma escola. O meu irmão mais velho conta que um dia estava na aula e pela porta viu a avó Maria passar com o Carlos pendurado pelas orelhas. Ele tinha ido à carteira da avó roubar o dinheiro todo para comprar sorvetes para a malta toda do bairro. Foi sorvete para o povo todo.

Em 1975, quando chega a independência, ele adere imediatamente aos ideais da Frelimo.

(NC) – É preciso que se diga que ele foi expulso da África do Sul pelas suas convicções políticas. Foi depois deportado para Portugal e voltou a Moçambique para assistir à independência, em Junho de 1975. Nessa altura engajou- se logo no marxismo/ leninismo ao qual a Frelimo tinha aderido.

Esse mergulho de alma e coração não causou choques familiares?

(NC) Não. O meu pai saiu aqui de Moçambique porque, como dizia, “já era velho demais para ser comunista”. Foi-se embora em finais de 1975, um bocado influenciado por toda aquela gente que estava em debandada. Mas, que eu saiba, nunca discutiram os ideais do Carlos. Não havia qualquer confronto entre eles. Encararam sempre a luta do meu irmão através do jornalismo como algo de positivo.

Mas o teu pai não era um homem de esquerda?

(NC) Não, não era. Ele dizia, com graça, que a política “era um filho de uma mãe solteira sem pai certo.” Política, para ele, não existia.

Podes descrever como era a tua relação com o Carlos?

(NC) Durante muito tempo, devido à diferença de idades – 14 anos -, não era muito próxima. Eu, para ele, era o bebé de quem tinha de tomar conta. O estreitamento da relação inicia-se em Portugal quando eu começo a perceber os princípios, o projecto de vida e a sua missão. Mas nunca tive uma grande hipótese de me deixar contagiar por esses ideais porque ele em 2000 é assassinado. Mas nessa altura já tínhamos conversas muito interessantes quando ele vinha a Portugal.

Com a morte de Samora Machel, em Outubro de 1986, Carlos começa a afastar-se da Frelimo. Ele conversou com a família acerca da morte de Samora?

(NC) – Está escrito no livro [É proibido pôr algemas nas palavras] que ele teve uma previsão muito clara do que aí acontecer, tendo avisado para essa viagem não se efectuar. Ele dizia que não se tratava de previsões estilo espiritualista, mas sim realista. As suas conclusões partiam da análise dos factos, das circunstâncias, e depois tirava as suas próprias conclusões.

O que é que o levava a dizer isso?

(NC) – Todo o movimento que estava em curso do lado de lá da fronteira contra Samora Machel e a Frelimo, o movimento do apartheid e o seu interesse na desestabilização de Moçambique. Ele previu isso mesmo na véspera do acidente.

Ele atribui a morte de Samora exclusivamente ao governo sul-africano?

(NC) – Sim, isso é claro.

Depois da morte de Samora, Cardoso inicia aos poucos um afastamento em relação à Frelimo?

(NC) – Bem, eu não diria um afastamento. O Samora, naquela altura, era parecido com o que é hoje o Mandela na África do Sul, ou seja, um perfeito exemplo de um determinado regime e de uma forma de estar na sociedade. O Samora foi sempre uma pessoa do povo, ligada ao povo e a pensar no povo. O Samora não pensava nele enquanto pessoa que podia ter muitos bens ou que pudesse retirar dividendos dos seus cargos. Tudo o que ele fazia era em prol do povo. Com a morte do Samora começam a surgir outro tipo de interesses com os quais o Carlos não se identificava. Por isso é que, em 1990, ele, desiludido, abandona o jornalismo e começa a pintar.

Sendo ele um paladino da liberdade de imprensa como é que conviveu com a forte censura dos primeiros 15 anos de independência?

(NC) – Não tenho muito a noção disso. Dá-me ideia que ele nessa altura estava em início de carreira e não tinha bem noção desse controlo.

Achas que não tinha a noção que a imprensa era tão controlada?

(NC) – Penso que era mais o facto de não ter muito claro os efeitos disso. Acho que o período de Samora foi muito rico, de grande entrega à causa da liberdade de um povo e isso cegava um pouco as pessoas em relação aos aspectos menos positivos.

Quando é que ele começa a pintar?

(NC) – Em 1990. Estava na cozinha do seu pequeno apartamento e olhou para o forno e começou a imaginar as coisas que podiam sair do forno. Começou então a meter coisas lá para dentro e depois pôs o forno no máximo. Inventou a fornografia, como ele dizia.

O que o fez depois voltar para o jornalismo?

(NC) – Foi o facto de querer dizer a verdade ao povo. Ele dizia que o povo tinha o direito de saber a verdade. Ele entrega-se à causa jornalística como forma de demonstrar a sua revolta por uma causa que deixou de existir. É através do jornalismo que o povo irá saber a verdade, porque tem esse direito. Esta é a sua missão.

Vocês, família, à distância, tinham a noção do perigo que ele corria?

(NC) – Sim, claramente. Tínhamos perfeita noção que mais tarde ou mais cedo aquilo ia acontecer. Dávamos- lhe conselhos para ele mudar de rota, para não andar tanto a pé, para mudar as rotinas. Ele já tinha tido algumas ameaças mas quando alguém encontra a sua verdadeira missão na vida, como ele encontrou, já nada mais importa, já não se pensa em mais nada.

Achas que ele pressentiu que ia morrer?

(NC) – Sem dúvida e em relação a isso há um episódio de arrepiar. Em Agosto de 2000, três meses antes do assassinato, encontrei-o na casa de banho a fazer a barba. Perguntei-lhe porque é que ele estava a rapar a barba e ele disse-me: – Quero que a minha mulher e os meus filhos me vejam sem barba antes de morrer. Ele estava a preparar-se para aquilo que lhe aconteceu. Também sempre que ele se despedia a minha mãe lá recomendava: – Tem cuidado que ainda levas um tiro. E assim foi.

Como é que soubeste da morte dele?

(NC) – Por uma chamada telefónica do meu irmão José Manuel que me contou o que se tinha passado.

Achas que hoje, passados dez anos, se fez justiça ao teu irmão?

(NC) – Acho que não. Mas o que é fazer justiça? A maior justiça que se pode fazer não é ao nível dos tribunais. A justiça deve estar na consciência de cada um. Essa é melhor forma de fazer justiça.

E a palavra que melhor definia o teu irmão?

(NC) – Verdade.

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on telegram
Telegram

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

error: Content is protected !!