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Quando o período chega na idade da brincadeira

O fenómeno é histórico. Desde que há registos, constata-se que as raparigas têm a sua primeira menstruação cada vez mais cedo, mas qual é o limite? Uma marca de higiene íntima lançou pensos higiénicos para meninas dos 8 aos 12 anos. A culpa pode ser da obesidade nas crianças. Ou talvez não.

Têm estampados estrelinhas e coraçõezinhos em verde, amarelo, azul e cor-de-rosa, padrão que parece saído de uma daquelas páginas de blocos coloridos e perfumados de meninas pequenas, mas são pensos higiénicos que parecem brinquedos.

“São mais pequenos e estreitos para se adaptarem ao teu corpo”, anuncia a marca norte-americana Kotex, que tenta assim apelar às raparigas que têm a sua primeira menstruação cada vez mais cedo.

Com uma linha de produtos inicialmente dirigida às mulheres dos 14 aos 22 anos, esta marca de produtos de higiene íntima decidiu lançar este ano esta gama de pensinhos “18 porcento mais pequenos do que o tamanho normal”, que vêm em caixinhas coloridas e infantis. Têm como público- alvo raparigas dos 8 aos 12 anos, isso mesmo, dos 8 aos 12 anos.

A primeira vez que ouviu falar deste tipo de produto, que não existe em Portugal, Susan Kim, co-autora do livro Flow: The Cultural Story of Menstruation (“Fluxo: A história cultural da menstruação”), confessou ao New York Times que ficou assustada.

“A minha primeira reacção foi: ‘Oh meu Deus, pensos para miúdas de oito anos!’”, mas depois pensou que era uma resposta do mercado ao que está a acontecer: a primeira menstruação (cujo termo técnico usado é “a menarca”) está a surgir cada vez mais cedo.

O fenómeno é histórico. Em meados do século XIX, a idade média da primeira menstruação nas populações europeias era de 16 a 17 anos; entre o início do século XX e a década de 1960, verificou-se uma diminuição dos 15 para os 13 anos.

Nos Estados Unidos, a diminuição entre meados do século XIX e meados do século XX foi de 17 para os 14 anos. “O adiantamento da idade da menarca observado em vários países ocorreu a uma taxa constante de cerca de três em cada cem anos (3,6 meses por década)”, resume Raquel Leitão na sua tese de doutoramento na área de Saúde Infantil, no Instituto de Educação da Universidade do Minho.

Em estudos mais recentes, o abaixamento é documentado em vários países desenvolvidos. A investigadora dá dois exemplos: na Alemanha houve uma variação de 13,3 para 13,0 anos entre 1979/80 e 1989; em Espanha parece persistir um declínio acentuado na idade da menarca, de cerca de 0,22 anos por década.

A antecipação da menarca começou por ser vista como algo positivo, um ganho civilizacional — a menstruação surgiria mais cedo porque hoje as raparigas comem melhor, têm mais acesso a cuidados de saúde, mais cuidados de higiene do que tinham no passado, enuncia a antropóloga da Universidade de Coimbra, Cristina Padez, que elaborou um estudo sobre o tema.

As conclusões a que chegou (em 2003) — depois de questionar perto de 500 raparigas entre os 9 e os 19 anos, nascidas nos anos 1980 — colocaram a idade média da primeira menstruação nos 12,4, tendo descido dos 15 anos nas raparigas nascidas em 1880. Mas, enquanto há países onde esta idade continua a diminuir, outros parecem tender para a estabilização, nota Raquel Leitão.

A constatação do fenómeno tem atraído muita curiosidade académica, refere a investigadora. Assim, “a lista de potenciais factores com influência sobre a idade da menarca descritos na literatura é vastíssima” e vai desde a genética, ao ambiente intra-uterino, à actividade física da rapariga, à sua alimentação, estado de saúde, dimensão corporal, mas também ao seu número de irmãos, ordem de nascimento, nível educacional, estatuto sócioeconómico, profissão dos pais, grau de urbanização do sítio onde vive, níveis de poluição química e até o clima e altitude a que habita.

Uma coisa é certa: o que começou por ser visto como o refl exo de avanço social tende a ser entendido “como um problema”, constata Raquel Leitão, que é professora de Nutrição no Instituto Politécnico de Viana do Castelo. No seu caso, o que lhe interessou foi seguir o caminho de estudos que documentavam uma relação entre a precocidade da menarca e a obesidade na infância.

Na sua tese de doutoramento A obesidade da infância para a adolescência: um estudo longitudinal em meio escolar, Raquel Leitão estudou 109 raparigas dos 7 aos 15 anos e o que encontrou foi maiores níveis de obesidade naquelas que tinham tido menarca precoce (defi nida como menor ou igual a 12 anos): a incidência de obesidade nestas raparigas foi de 24,1%, bastante mais do que os 13,8% das meninas que tiveram a sua primeira menstruação a uma idade média entre os 12 e 13 anos e as que a tiveram mais tarde (após os 13 anos).

Mas, tal como noutros estudos, encontrou a associação mas não chegou à conclusão se é o aumento da obesidade nas crianças que está a acelerar a maturação sexual das raparigas ou se será a precocidade da menarca que predispõe para a obesidade. Ainda se está na fase “em que não se sabe se é o ovo ou a galinha”.

Uma coisa são as causas, outra as consequências. Sabe-se que ter a menarca demasiado cedo aumenta a probabilidade de vir a desenvolver uma série de patologias na idade adulta, como é o caso do cancro da mama, doença cardiovascular, diabetes e obesidade. Existem dados suficientes para dizer que “as raparigas com maturidade sexual precoce têm maior mortalidade total”. Assim, Raquel Leitão defende que o conhecimento da idade da menarca deve receber mais atenção por parte dos profi ssionais de saúde.

Já conversou com a sua filha?

No site que anuncia os micropensos americanos, convida-se as raparigas a deixarem testemunhos da chegada da sua primeira menstruação e dão- -se ferramentas para que mães, assustadas, preparem as suas primeiras conversas com as filhas sobre o assunto. “Há raparigas que chegam a ter o período com oito anos”, lê-se. “Já conversou com ela?” Hayley Smith, que hoje tem 14, começou a ter peito com cinco anos, contou à revista Intelligente Life.

Um ano depois, ainda na pré-primária, veio-lhe o período. Imagine-se o que é lidar com oscilações de humor, dores menstruais e dores de cabeça ao mesmo que se está a aprender e a escrever, recorda. Todos os meses faltava à escola esses três a cinco dias por mês.

Aos seis, era olhada de lado pelos pais das outras crianças que achavam estranha aquela criança em corpo de adolescente. “Diziam aos filhos para não andar comigo. Foi muito doloroso.” A mãe, Debbie, confessou que “não se está preparado para falar com a nossa filha de seis anos sobre o período”.

A pediatra Maria do Céu Machado reconhece que “às vezes é um choque para a família”, mas é preciso referir que, “quando se percebe que vai haver menarca precoce, não é de repente”. Antes disso — entre 1,5 anos a dois anos —, há vários sinais da entrada na puberdade: os pelos púbicos, o crescimento do peito e os pelos nas axilas.

A menarca é a última fase, o que signifi ca que, nestas crianças, a puberdade começou bastante tempo antes. Um artigo publicado no passado na revista científi ca Pediatrics dava conta de que 15 por cento das raparigas norte-americanas iniciam a puberdade com sete anos.

A pediatra refere que “já é frequente terem raparigas com a menarca aos dez anos, aos nove é raro e aos oito raríssimo” e “se começar antes dos seus seis anos é francamente anormal e pode até signifi car um tumor cerebral”, alerta a directora do serviços de Pediatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

Maria do Céu Machado reconhece que, nestes casos, é preciso “preparar a família e a criança”, mas, de acordo com a sua experiência, “há uma adaptação emocional” da rapariga, até porque, defende, “a sociedade actual é promotora da consciência sexual”, através do meio que a rodeia, que vai desde a publicidade às séries de televisão. “Tem de haver um cuidado das famílias”, uma vez que estas raparigas tornam-se férteis muito cedo e poderá haver mais riscos de gravidez indesejada.

A psicóloga Margarida Gaspar de Matos defende que a chegada da menstruação é hoje encarada “com mais naturalidade” e mesmo “crianças com apenas seis e sete anos já tiveram contacto com pensos higiénicos”, notando que continua a ser excepcional a menarca com estas idades.

Longe vão os tempos em que “se achava que se ia morrer, ou que se tinha feito algum pecado”. Mas “a preparação tem de ser feita pelos pais”, notando que os conteúdos da Educação Sexual para estas idades prevêem a abordagem destas questões. “Não estamos a falar de questões como o prazer ou a excitação, estamos a falar de diferenças de género.”

Ficarem menstruadas muito cedo pode levar a que haja uma discrepância, levando a que “a parte social e emocional não esteja ao mesmo nível da parte física”, nota a investigadora e professora na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa.

“Estima-se que só aos 21 e 24 anos se atinge o fim da maturação neurológica”, diz, perguntando até que ponto a menstruação, e as respectivas alterações hormonais, estarão a par do desenvolvimento cerebral de miúdas ainda muito novas.

Com seis a dez anos, o que lhes é pedido socialmente é que estejam na escola, façam amigos, mas se, de repente, fruto do desenvolvimento hormonal que precipitou a menstruação, “chega também o desejo ligado à sensualidade e envolvimento genital como um adulto? A criança pode não estar preparada. Pode ser uma situação de vulnerabilidade que exija acompanhamento”, refere.

Coro de meninos

E os rapazes? Está a acontecer-lhes o mesmo? Ficou famoso o caso dinamarquês de um coro infantil de rapazes, a Escola Coral Municipal de Copenhaga, que de repente fi cou sem vozes infantis sufi cientes para levar a uma digressão americana que tinha agendada. Eram meninos que tinham começado a treinar aos oito anos e começavam a dar sinais de chegada à adolescência antes do esperado.

Em 2003, pela primeira vez desde a sua fundação, em 1924, estavam a ter difi culdade em encontrar rapazes de 12 e 13 anos com vozes angelicais de criança, relembra um artigo da revista Intelligent Life. Os investigadores do departamento de Crescimento e Reprodução do Hospital Universitário de Copenhaga não perderam tempo e decidiram pegar no coro como estudo de caso.

Concluíram que, ao longo de dez anos, a mudança das vozes tinha sofrido uma antecipação de cerca de quatro meses, refere um dos investigadores, o endrocrinologista Anders Juul. Este seria um sinal de que também nos rapazes a puberdade poderia estar a antecipar-se. O mesmo artigo refere que no coro de Leipzig (Alemanha), dirigido pelo compositor J.S. Bach no século XVIII, a idade média de mudança de voz rondava os 18 anos.

A investigadora Margarida Gaspar de Matos diz que os estudos nos rapazes são muito menos conclusivos, simplesmente porque não existe uma marca tão evidente da maturação sexual como a primeira menstruação que possa ser estudada com a mesma facilidade.

No caso dos rapazes, a maturação chega com sinais de crescimento genital só observáveis com exame médico, e mesmo a questão “dos sonhos molhados” é muito mais difícil de perguntar em questionários do que a chegada da menarca. E o surgimento de pelos e a mudança de voz não são sufi cientes, nota.

Vasco Prazeres, especialista em saúde infantil e da adolescência na Direcção-Geral de Saúde, afi rma que estão a acontecer duas coisas ao mesmo tempo.

Por um lado, a chegada mais precoce da maturidade biológica e capacidade reprodutiva e, por outro, o adiamento de situações de estabilidade relacional e de constituição de família, notório no adiamento na idade média do primeiro casamento, que em 2009 era de 28 anos nas raparigas e 30 nos homens — “Este período é maior do que alguma vez foi noutras gerações.”

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