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Quando a rua vira palco!

Quando a rua vira palco!

Há poucos meses de completar 365 dias de “vida” – o que acontecerá em Agosto – o Grupo de Teatro Lareira já conta com duas obras: “A Cavaqueira do Poste” e “Cinzas sobre as mãos” que estreou há dias. Com “A Cavaqueira do Poste”, este ano, esta colectividade teatral participa, no Brasil, pela segunda vez consecutiva no FestLip, um festival internacional de teatro. Entretanto, engana-se quem pensa que o Lareira nasceu num berço de ouro. Muitos abrolhos tiveram que ser removidos. A exiguidade de salas de teatro, que se faz sentir por todo o país, é o principal.

Constituído por dois actores, Diaz Santana e Sérgio Mabombo (sob direcção artística do actor moçambicano Elliot Alex), o Teatro Lareira participa no 4º Festival de Teatro de Língua Portuguesa que decorre no Brasil, de 20 a 31 de Julho. De Moçambique juntam-se ainda a conceituada actriz Lucrécia Paco e o teatro Kudumba que apresentarão, respectivamente, as peças “Mulher asfalto” e “Ser mulher”.

Depois da sua fundação, em 2010, o Grupo Lareira tomou parte, em solo pátrio, o Festival Internacional de Artes – Tunduro, uma iniciativa que se viu imediatamente engolida pela ‘ganância’ do seu mentor, Filimone Mabjaia.

Na mesma ocasião, Lareira participou na 3ª edição do Festival do Teatro da Lusofonia – FestiLuso decorrido em Terezina, Brasil. É, no entanto, sobre a experiência invulgar do Grupo Lareira que conversámos com Diaz Santana.

De acordo com o actor, que em tempos estudou e praticou jornalismo com fervor, a fundação do Grupo Lareira advém da necessidade de se romper a comodidade que se faz sentir em alguns grupos, supostamente estabelecidos.

Como tal, “eu, Dias Santa, e o meu colega Sérgio Mabombo, criámos o Teatro Lareira com os olhos voltados para as oportunidades que o mercado internacional oferece”, comenta.

Se a visibilidade e a evolução que os actores estão a ter na esfera do teatro não pode significar “ventos de mudança”, sobretudo, na esfera internacional em Moçambique ainda está-se a caminhar a passos de camaleão. Afinal, de uma ou de outra forma, para Santana “ser artista em Moçambique é muito complicado”.

“Recordo-me que no princípio não tínhamos espaço para ensaiar. Ensaiávamos na rua. Por exemplo, nas partes intrigantes da Cavaqueira do Poste, discutíamos na rua feitos dois loucos até que as pessoas nos confundiam com pessoas dementes”, conta o actor visivelmente emocionado pela experiência e, acima de tudo, com sucesso da “Cavaqueira do Poste”, uma obra escrita pelo colega Mabombo.

Outro exemplo é que durante os dois meses da montagem da obra, bastas vezes, mesmo sem fome, “tivemos que almoçar em bares para aproveitar o espaço ensaiando. É verdade que a nossa experiência não é singular porque há muitos grupos que não têm espaço fazer teatro no país”, realça.

Um parceiro incasável

Porque “querer é poder”, no meio de dificuldades, eis que surge o Centro Cultural Franco- -Moçambicano – que tem sido – um verdadeiro parceiro da cultura no país. Mas nem por isso o anseio se minora: “Gostaríamos de ensaiar noutros palcos. Mas trabalhar no Teatro Avenida acarreta custos e não temos fundos. Outro aspecto é que o Cine Teatro Gilberto Mendes encontra-se ocupado durante todo o ano”.

De qualquer modo, “porque nós somos artistas, quando o bichinho pica em nós, mesmo sem condições, não temos outra alternativa a não ser ensaiar na rua”.

Cinzas sobre as mãos

Na semana passada, o Centro Cultural Franco-Moçambicano acolheu a exibição em pré-estreia da obra “Cinzas sobre as mãos” escrita pelo francês Laurent Gaudé e encenada por Elliot Alex.

A contrapor – na intriga – Diaz Santana, Lucrécia Noronha e Violeta Mbilane, ambas estudantes finalista do curso de teatro na Escola de Comunicação e Artes – ECA, “Cinzas sobre as mãos” é uma obra que retrata a guerra. Dois coveiros – Diaz Santana e Violeta Mbilali – incineram e enterram os corpos. No meio disso, encontra-se uma sobrevivente – Lucrécia Noronha.

Porque, escrito por um actor francês, encenar o “Cinzas sobre as mãos” é, em parte, “uma homenagem ao Centro Cultural Franco-Moçambicano pelo apoio que tem prestado à arte e cultura moçambicana”.

Por outro lado, a peça tem alguma relação com a experiência dos moçambicanos, uma vez que “passámos por várias situações de guerra com particular destaque para a dos 16 anos”.

Mas a relação do tema belicista que se explora na peça extravasa a França ou Moçambique, e estende- se a alguns países africanos como o Sudão, a Líbia, a Etiópia, entre outros. Massacres em que se dizimam civis e pessoas honestas e inocentes sem nenhum fundamento.

Segundo Santana, montar a peça “Cinzas sobre as mãos” tem um duplo sentido: primeiro, um desafio enquanto representação de um autor estrangeiro, segundo e, mais importante ainda, mostrar de forma incisiva às pessoas que a guerra não compensa. Muito pelo contrário, devasta.

Integrar os actores no mercado

Paralelamente a isto, Eliott Alex, actor, encenador, jurista e professor de Teatro revela outra preocupação em relação aos seus formandos. Como tal, convidou Lucrécia Noronha e Violeta Mbilane, de que falámos anteriormente, como forma de integrá-las gradualmente na praça do teatro moçambicano e, porque não, internacional.

Afinal, ficámos a saber que a obra foi filmada para ser divulgada e promovida no Brasil no encontro entre os grandes activistas teatrais da comunidade ocidental.

De outra forma, para Santana, isto prova que o “Teatro Lareira não é uma ilha”. E como tal, “está aberto a colaborar com todo o mundo. Porque somos um grupo com objectivos ambiciosos, vamos levar a obra `Cinzas sobre as mãos` para promovê-la no ocidente de maneira que a gente conquiste, cada vez mais, o mercado ocidental. Queremos vender o teatro moçambicano para a comunidade internacional”, enfatiza Santana que quer aproveitar-se do FestLip – uma plateia cultural em que participam grandes, actores, produtores, encenadores de todo o mundo – para o efeito.

Um artista multifacetado

Formado em Jornalismo em princípios dos anos 2000, Diaz Santana praticou jornalismo televisivo e radiofónico, dedicando-se ultimamente às artes a tempo inteiro.

Diaz afirma: “Não gosto de aparecer, mas a minha relação não é só com o teatro, mas sim com todas as artes. Afinal, já trabalhei com muitos artistas como Rosália Mboa, Wizie Mazuque, João Paulo – já perecido –, entre outros. O teatro é, na verdade, uma paixão.

As artes fazem parte de mim”. “As artes vivem. Fervilham no sangue. E quando o sangue fervilha devido às artes, o artista pula de um lado para o outro. Como artista, penso que escolhi uma boa profissão. Não gosto de me sentar no escritório, à frente de um computador para cumprir os paradigmas de horários. Gosto de ser livre, estar na rua, em todo o lado”.

Défice na valorização das artes

Deficitária é a palavra que mais se adequa ao valor que se dá às artes, no país, conforme Diaz. Por isso, “é preciso valorizar as artes como se valoriza as outras profissões. Afinal, o artista também é profissional. Em Moçambique valoriza-se mais quem trabalha nos gabinetes e muito pouco os fazedores das artes e cultura”, diz.

Diaz Santana revela que já passou por vários estereótipos devido à sua opção profissional. De que qualquer modo, a redução que o seguinte diálogo: “O que é que tu fazes?”. “Eu sou artista”. “Não, refiro-me à tua profissão”, conta acrescentando que ainda estamos muito distantes de um conceito mais justo em relação à profissão de artista.

E revela as razões por que se deve valorizar as artes: “Recordo-me que quando estivemos em Terezina – Brasil – no ano passado, constatámos que as pessoas não sabem nada sobre o Moçambique. Houve, inclusive, algumas pessoas que nos confundiram com os angolanos. Imagine! Então, certamente, existe uma necessidade veemente de se valorizar e promover a nossa produção artística no mundo. Sobretudo porque nós, os artistas, somos os cartões-de-visita que divulga o país no exterior”, diz.

Para suprir o défice de conhecimento que se tem sobre Moçambique, no Brasil em particular, os actores têm realizado palestras sobre a Pérola do Índico, sempre que se deslocam ao exterior.

“Utilizamos mais a figura da Lurdes Mutola – a menina de ouro – que é mais conhecida internacionalmente”, diz Santana. Para depois acrescentar que, apesar disso, os desportistas e os artistas que têm o privilégio de divulgar o país não são muito valorizados.

Perfil de artista

Preguiçoso em relação à leitura, Santana diz que está a ler “As Histórias da Noite” de um escritor islandês. Lamenta o facto de ter terminado.

É igualmente actor de cinema, e aprecia o Afro Music e música latina. De qualquer modo, é pela música da maliana Dobet Gnahoré que o seu faro melódico se satisfaz. Em solo pátrio, Humberto Benfica, ou simplesmente Wazimbo, é o modelo de músico que completa o seu conceito de música moçambicana. Lamenta, porém, que o país não consiga dar valor a Tereza Wafino que é uma artista talentosa.

Cinema

Relativamente aos documentários em que tem participado, Diaz Santana reclama a pouca promoção do cinema em Moçambique.

“Infelizmente, a maior parte dos filmes em que participo não consigo assistir. Por exemplo, tenho-me encontrado com algumas pessoas do estrangeiro que afirmam conhecer-me da Europa, outras ainda apontam exemplos de países em que ainda não fui.

No decorrer de conversa descubro que me viram em filmes documentários. O que significa que a maior dos filmes realizados em Moçambique são mais divulgados e promovidos na Europa”.

“Outro problema é que os nossos canais televisivos não passam os filmes de realizadores moçambicanos – o que é lamentável, porque os filmes que têm passado quando comparados com os Made in Moçambique – pouco contribuem para a construção social do país”, acrescenta.

“Isto resulta da falta de consideração entre nós”, diz. Levando este pensamento ao extremo, Diaz Santana afirma que tal situação ofusca a liberdade de expressão. Afinal, “posso necessitar de falar sobre determinado assunto numa estação televisiva. Mas eu, artista moçambicano, diante do artista estrangeiro estou em larga desvantagem em termos de possibilidades de tempo de antena nos media”, finaliza.

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