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Quando a doença é (apenas) uma imaginação!

Quando a doença é (apenas) uma imaginação!

No fim do semestre passado, tivemos a oportunidade de assistir a peças teatrais protagonizadas pelos estudantes do Curso de Teatro da Escola de Comunicação e Arte, em Maputo. Entre as obras, ficámos impressionados com O Doente Imaginário de Molière. Um possível retrato da sociedade que se edifica no país…

Se fértil (ou não) a terra em que, em sentido metafórico, a Escola de Comunicação e Arte da Universidade Eduardo Mondlane se constitui é um tema a parte.

O facto é que, ao que tudo indica, em resultado do trabalho que esta instituição de ensino está a desenvolver, num futuro muito breve, em Moçambique, os analistas das artes cénicas terão uma responsabilidade acrescida sempre que quiserem emitir algum julgamento em relação às obras que se desenvolvem na área.

Muito recentemente, a par dos arranjos que a instituição em alusão tem realizado no sentido de divulgar e promover o seu trabalho, tivemos a oportunidade de assistir à peça O Doente Imaginário.

Trata-se de um texto de autoria do célebre escritor, actor e dramaturgo francês, Jean-Baptiste Poquelin, ou simplesmente Molière, que foi recriado por um grupo de estudantes do curso de licenciatura em teatro – nomeadamente Arménio Matavele, Cuanja Mwanza, Horácio Guiamba, Helder Sive e Matilde Conjo – sob a direcção dramatúrgica de Ambrósio Joa.

Ainda que escrito no século XVII, a sua adaptação à realidade moçambicana faz com que a exibição do respectivo enredo seja uma prática oportuna, sobretudo, porque envolve questões ligadas às relações familiares, ao casamento, ao dote que a família da noiva recebe, mas, acima de tudo, à preocupante tendência que o interesse dos pais na relação conjugal dos seus filhos, não somente torna o casamento na prática mais vil (do século XXI), ao mesmo tempo que se denunciam algumas razões que tornam aquele fundamento tradicional para a formação da família um projecto frustrado mesmo antes de ser edificado.

Que doença é essa?

Na cena, Horácio Guiamba, o protagonista de O Doente Imaginário, é uma figura que devido à profunda relação que trava com os fármacos semanalmente (e se, apenas, disso dependesse a formação na área de medicina), podia ser um profissional de saúde apreciável. Conhece as quantidades exactas dos medicamentos que devem ser administrados à pessoa adulta, incluindo a sua reacção, caso se assuma que o seu organismo é um modelo para os Homens.

“O que mais me espanta nos senhores da farmácia é que as suas contas são gentis, mas isso não basta, é preciso que sejam razoáveis e não explorarem os doentes”, O Doente Imaginário comenta consigo mesmo em jeito de contestação à alta dos preços dos medicamentos praticados pelos fornecedores, o que se percebe na medida em que, de forma mais objectiva, afirma: “se continuarem a cobrar assim, ninguém irá querer ficar doente. Fiquem satisfeitos com 40”, diz referindo-se ao dinheiro.

A sua doença é psicológica. Ele pensa que é enfermo, o que não é verdade. Aliás, em cena, o sujeito grita perante e para os seus familiares; faz-lhes troças; realiza os mais criativos e exclusivos movimentos acrobáticos, o que denuncia que (pelo menos) na dimensão física goza de um vigor invulgar, mas, infelizmente, acredita que não é saudável.

Se, perante as manifestações que o artista realiza em palco, o público encontra graça, ri, diverte-se, e consequentemente, reflecte pouco em relação ao problema que se mostra, pode-se gerar um novo dilema, a despreocupação com algumas peripécias (ou anomalias) até então incomuns no espaço social. Mais grave ainda é que, como se viu, em resultado da sua intensa e fantasiosa vontade de se livrar da sua enfermidade o cidadão conduz a sua posição ao estremo, propondo-se, literalmente, vender a própria filha.

Reconheça-se então que se esta peça, além de retratar algumas histórias que ocorrem nas sociedades moçambicanas, é como se nas referidas peripécias sociais o seu autor se tivesse inspirado, o que não é verdade.

Uma questão pertinente

Na verdade, é como se O Doente Imaginário tivesse uma ideia fixa, uma obsessão que lhe faz acreditar que a sua saúde está em ameaça. Em função disso, assume que se ficar indiferente, caso não consuma os fármacos, ainda que manifestamente vigoroso, ele corre o risco de encontrar a morte a qualquer momento.

Não menos relevante é importante perceber num dos seus comentários que, da mesma forma que os medicamentos têm algum poder curativo, o sentido contrário também é válido: “só este mês eu tomei 12 comprimidos, ao passo que no passado foram apenas 10. Não é de espantar que agora não esteja tão bem como no mês passado?”, questiona-se ao mesmo tempo que, de forma implícita, denuncia o perigo da automedicação.

Nem as ameaças da sua empregada, Tuanete, na verdade Matilde Conjo, convencem O Doente Imaginário a desistir da automedicação. Mas provavelmente, a par disso, a pergunta fundamental seja: “se o estimado leitor tivesse na sua casa um familiar com este tipo de obsessão como agiria? É que, no nosso entender, grosso modo, é acerca desta questão que os actores convidam o público, a sociedade no geral, a reflectir.

Destino (mal) traçado

Ainda na obra em análise se, por um lado, o casamento de Angélica, a filha do Doente Imaginário, constituía uma mais-valia (em sentido financeiro, económico e de segurança social), o mesmo já não se pode afirmar em relação à noiva. Para esta, os bens materiais não são o suficiente, faltava-lhe algo, o amor.

“Agora diz Tuanete, condenas o sentimento que nutro por ele? O que tu querias que eu sentisse perante as ternas declarações de paixão ardente que ele nutre por mim?”, questiona Angélica em jeito de comentário, ao mesmo tempo que traçava um destino cruel, não somente para o seu amado como também para todos os homens em caso de enganá-la: “Se ele enganar- me, juro-lhe que não quererei na vida saber de homem nenhum”.

Enquanto isso, chega o pai que à guisa de uma comunicação administrativa (algo que pouco permite uma posição contrária por parte do receptor) traça o destino da filha como se ela fosse uma mercadoria.

“Filha, pedem-te em casamento. Sorri minha filha porque para vocês, os jovens, não há nada mais divertido que um pedido de casamento. Aliás, pela alegria que eu vejo estampada no teu rosto, nem é preciso perguntar- te se queres ou não casar”.

É importante que se perceba que em tal comentário do Doente Imaginário, além de se estar perante uma tentativa de dessacralização do matrimónio, se faz uma construção social, na verdade, uma crítica sobre a forma como, nos últimos tempos, na sociedade moçambicana o casamento (a base da criação da instituição família) tem sido um verdadeiro fracasso.

Os tabus

Ainda que a nossa sociedade, presentemente, esteja a conhecer um conjunto de transformações positivas perante as cenas de O Doente Imaginário somos impelidos a convir que, em certo grau, esta peça é um retrato fiel de uma realidade cujo tratamento está a ser protelado: a comercialização das relações conjugais.

É que por diversos motivos inconfessos, mormente os que tendem a considerar o sexo e a sexualidade, por exemplo, como tabus, o facto de o namoro entre os jovens e adolescentes (instigado pelo desenvolvimento tecnológico, se não começa de forma precoce) é realizado num total sigilo, invariavelmente, à revelia dos progenitores. Os pais e os filhos pouco conversam sobre várias questões vitais que a nossa tradição teima em considerar tabus.

Tais factos são revelados na medida em que o pai ao afirmar que “eu ainda não vi o rapaz, mas dizem que ele vai ficar muito feliz em tê-la como esposa”, acreditando por isso que “você também ficará”, a filha engendra um comentário que se mostrou pouco adequada para quem iria casar com um indivíduo por encomenda. Ou seja, ela respondeu peremptoriamente “seguramente”.

Mas como é que alguém pode ter a certeza absoluta de que uma pessoa que não a conhece pode fazê-la feliz? Pior ainda, da forma como o matrimónio foi concebido pelo pai podia-se subentender que a sua filha não namorava e, provavelmente, que ela fosse virgem.

É nessas circunstâncias que, dentre várias questões, duas se mostravam mais pertinentes: “Como é que a minha filha pode afirmar que, certamente, irá gostar dele? Já o viu?”

O facto é que na referida ocasião, para Angélica, tudo valia. Por essa razão, “como o senhor, meu pai, me autoriza a abrir o meu coração posso revelar que nos conhecemos há seis dias. É em função disso que penso que o seu pedido de casamento resulta da inclinação que temos um pelo outro”.

Convenhamos que esta obra denuncia alguns impactos negativos dos tabus que caracterizam a maior das comunidades moçambicanas sem, no entanto, a par do problema do Doente Imaginário, deixar de criticar os casamentos precoces.

Um falha grotesca

A reacção do pai (ao saber que a sua filha já se havia envolvido com o rapaz) é outro aspecto que se nos revelou invulgar para o tipo de sociedade que representa. Uma sociedade tradicional e, em certo grau, conservadora. Pereceu-nos que, para si, o mais importante – como mais adiante se comprovou – era o dote e o facto de ter um genro médico.

Vale a pena salientar que se percebe que quando as práticas culturais e tradições alheias não prejudicam uma dada comunidade, nada deve impedir a sua adopção. Mas caso certos hábitos e costumes que, ainda que tenham sido praticados pelos nossos ancestrais, se mostram perniciosos é mestre abandoná-los, ou, no mínimo, analisar-se em que moldes podem e/ou devem ser praticados.

Por exemplo, que tratamento se deve dispensar ao levirato (uma lei que obriga um homem a esposar a viúva de um irmão quando do morto não houver um herdeiro) numa situação actual, em que as sociedades se debatem com doenças sexualmente transmissíveis?

Num outro desenvolvimento, apesar de que inicialmente, a filha mostrou alguma anuência em relação às qualidades do seu futuro esposo (um jovem que possui uma bonita fisionomia, ao mesmo tempo que é uma pessoa simpática) enumeradas pelo pai, quando este afirmou que o rapaz tinha um grande domínio intelectual da língua inglesa e francesa e que nos próximos tempos concluiria a sua formação em medicina, a candidata ao clube das casadas ficou esclarecida de que não se tratava da pessoa a que ela se pretendia unir.

O pai havia concebido um plano burlesco para satisfazer os interesses que tinha em relação aos bens materiais da família do (potencial) jovem médico, incluindo o próprio médico, como a empregada, Tuanete, em jeito de crítica, afirmou.

Em tudo isso, o pior não era a manifestação dessa falha do progenitor em relação ao futuro para o qual conduzia a vida da filha, mas a teimosia de não desistir da referida ideia torpe.

“Desde quando eu tenho que te explicar as razões das minhas escolhas? Não estás a perceber que eu estou doente? Eu preciso de um genro médico de modo que me possa ajudar nos primeiros socorros médicos em casa. Além do mais necessito de alguém (competente) capaz de cuidar das minhas receitas e consultas médicas”.

É deste modo que O Doente Imaginário fundamenta a sua loucura. Até porque, para si, “uma filha boazinha, naturalmente que deve casar com alguém que será útil para a saúde do seu pai”.

A grande lição

Seja como for, se as falhas grotescas cometidas pelos homens podem resultar em situações penosas e deploráveis, convenhamos que das mesmas também deriva uma grande lição: “O casamento é um arranjo para o qual ninguém deve ser submetido por forças alheias”.

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