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“Pessoalmente, comemoro com mais liberdade e autonomia o 8 de Março”

“Pessoalmente

Graça Samo, directora-executiva do Fórum Mulher, é da opinião de que não precisamos de esperar por datas para defendermos os direitos das mulheres. “O importante é estarmos unidas na busca dos mesmos objectivos.” E deu como exemplo: “O dia 1de Setembro também não foi uma data consagrada especialmente para os cidadãos reivindicarem a melhoria das suas condições de vida”, referiu. Para esta activista dos direitos das mulheres, o 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, sobrepõe-se ao 7 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana, demasiado politizada para o seu gosto.

 

 

Enquanto mulher moçambicana sente- se representada pelo feriado do 7 de Abril?

Graça Samo (GS) – A pergunta não é fácil porque, de uma maneira ou de outra, é-se sempre influenciada pelo contexto geral. Considero as datas comemorativas como um mero simbolismo. Pessoalmente, comemoro com muita mais liberdade e autonomia o 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Embora não possa fazer uma retrospectiva muito clara sobre tudo o que determinou a criação do 8 de Março, sei que é uma data que representa várias lutas.

O 7 de Abril é um dia dedicado à mulher moçambicana mas há todo um conjunto de factores controversos, derivado do facto de estar centralizado na figura de Josina Machel. Quem foi afinal Josina Machel? Foi, sem dúvida, uma mulher envolvida no movimento do Destacamento Feminino, mas provavelmente o que mais a destacou foi o facto de ter sido esposa de Samora Machel.

De alguma maneira é daqueles ícones que se tornaram ícones por estarem associados a alguém importante. Eu não conheço grandes feitos dela como uma mulher que trilhou uma jornada. Conheço os feitos do Destacamento Feminino. Quero acreditar que ela simbolize o movimento das mulheres que estiveram na luta de libertação nacional.

Mas voltando à pergunta: Sente-se ou não representada pelo 7 de Abril?

(GS) – Sinto-me representada se a data representar a luta das mulheres moçambicanas pela sua libertação. Nessa perspectiva sim, sinto-me representada. Se for na perspectiva da data politizada pela OMM ou pela Frelimo, não me associo a ela porque procuro afastar-me sempre da perspectiva político- partidária.

Acha que há necessidade de encontrar no calendário outra data que represente efectivamente todas as mulheres moçambicanas?

(GS) – Não iria por aí. Acho que não podemos perder o foco a discutir datas. Na fase em que vivemos devemos é olhar de frente para os problemas do país e da sociedade. Os problemas que as mulheres enfrentam no dia-a-dia são independentes das escolhas partidárias, do sul, do centro ou do norte, de uma ou outra etnia, de uma ou outra língua. Prefiro discutir os nossos problemas, os problemas da mulher.

Mas concorda que o 7 de Abril contribuiu para a emancipação da mulher?

(GS) – Sim, mas mais de metade da população deste país é composta por mulheres mas se formos a olhar para a estrutura da nossa economia, não há um equilíbrio. Por exemplo, neste país são as mulheres que trabalham a terra mas elas não possuem o poder de decisão sobre essas mesmas terras.

Então o 7 de Abril não contribuiu para nada?

(GS) – Contribuiu sobretudo ao nível do movimento de libertação de Moçambique no sentido de tentar trazer a mulher como companheira de luta, mas não contribuiu no sentido de desafiar as relações de poder, ou seja, a luta pela igualdade de direitos entre homem e mulher na sociedade. A mulher tem participação política mas o espaço dela e o seu papel dentro dessas relações ainda é de subordinação em relação ao homem.

Subordinação a que nível?

(GS) – A todos os níveis. Nas instituições, no acesso ao mercado de trabalho, ao crédito, a todas as contribuições que a economia poderá fornecer a um cidadão. A participação da mulher é ainda muito exígua, não porque ela não queira, mas porque as facilidades são muito poucas.

A mulher não consegue competir por várias razões, começando pela própria discriminação pelo simples facto de ser mulher. O acesso à educação é um bom exemplo, por isso muitas delas são iliteradas. Muitas vezes é alvo de deboche por parte do sexo oposto. Felizmente que o Governo já reconheceu que a violência doméstica é um problema de saúde pública. Mas há muita intimidação.

Acha que o 7 de Abril contribuiu para a diminuição das práticas tradicionais nocivas à saúde da mulher?

(GS) – Não consigo ver essa diminuição. Uma vez estávamos num pequeno seminário e a doutora Fernanda Machungo fazia a apresentação sobre o problema do aborto clandestino e o que isso representa em termos de mortalidade. Ela mostrava indignação pelo resgate que estava a ser feito das práticas que antes tinham sido consideradas nocivas.

É verdade que, no pós-independência, sob a liderança de Samora Machel, foi feito um trabalho de combate a essas práticas obscuras mas isso não durou muito tempo. Os ritos de iniciação e as suas práticas expõem as crianças a uma sexualidade precoce, acabando por não ser sexualidade mas sim disponibilização da mulher para servir o sexo masculino.

A submissão da mulher é reforçada por essas práticas. A guerra civil, ao desfazer todo o tecido social, também foi responsável por este retrocesso.

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