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Pandza: A Sereia

Era daqueles dias do mês em que o salário nos pesa o bolso e o ego, compensando o vazio de todos os outros dias. Por esses dias, andamos em poses erguidas, cabeça, peito e barriga levantada, e pisamos fi rme, como se não fosse frágil o nosso chão, nem fosse ceder a qualquer momento.

A noite e com dinheiro, os homens sentem-se predadores com garras afi adas. Eu sentia-me um pescador, as notas eram iscas no bolso, e navegava noite adentro, na embarcação inclinada dos meus sapatos, remando por ruas e esquinas.

Abrandei quando um vulto apareceu no fundo da rua. Um vulto com formas dóceis, que pareciam ter sido esculpidas pelo cinzel e mãos de Deus. Estava entre a penumbra e a luz pálida do candeeiro da rua. Aproximei-me. Era daquelas mulheres metade luz, metade sombra. Metade noite, metade dia. Metade pura, metade maculada. Metade gente, metade bicho. Metade fêmea, metade marisco.

“Uma sereia!”, suspirei com vontades nas intenções, pronto para a pesca.

Ela sorria, sedutora, acendendo e apagando os faróis dos olhos. Aproximei- me com intenções lascivas. Percebendo, gingava as escamas da anca que a tornavam mais curvilínea, e sacudia com doçura as barbatanas da cauda. Cheguei mais perto, posição de pescador arremessando a rede. Virou-me as costas, encolheu o ombro, e friccionou levemente os dedos indicador e polegar. Ri-me, levei a mão ao bolso cheio e mostrei-lhe algumas notas como quem prepara o engodo para pesca. Ela nem olhou, já sentira o cheiro. Armou a mão na cintura e gingou mais a anca, promovendo o produto. Já estava pescada. Com o vento, os fios sintéticos dos cabelos postiços acariciaram-me o rosto, convidativos. Senti um hálito marinho na voz de sereia quando me disse “vamos”. A mesma voz que se ouve o vento soprar nos búzios.

Eu fui como um pescador vai para onde seu pescado lhe convida. Saímos da luz, fomos para a penumbra como se descessemos para o fundo do mar. Enleou-me com os braços como se me convidasse para a rede em que eu lhe pescara. Nossos corpos transformaram-se em ondas batendo continuamente na rocha macia um do outro. Fez-me fazer tudo que se pode fazer com uma seria no fundo do mar. “Um homem, meu filho, nos braços de uma mulher, é uma presa indefesa” aconselhou-me meu pai no dia em que, pela circuncisão, tornei-me homem, e acrescentou: “No corpo a corpo com elas, nunca dês corpo. Deixa que elas se entreguem e segura fi rme a embarcação, remando, remando…”

Eu ofegava desfalecido por cima dela, tarde para me lembrar dos ensinamentos do meu pai. Assim entregue, sentia-me presa da minha presa. Aquela que eu julgara pescar, era uma isca que me tinha levado para o fundo do mar, e eu agora afogado nos braços dela.

Levantei-me em sobressalto, afastando-me daquele perigo. Com os dedos tentei desenlear-me das algas do suores dela. Ainda quentes, a imundície das vísceras dela escorriam-me pelas pernas e tresandavam à mariscos sem tratamento de frio. Sujo, eu queria sair dali e fugir do meu corpo.

Procurei no escuro a minha roupa. Vesti as calças e percebi que o volume no bolso desaparecera. O dinheiro do salário sumiu! Enquanto rebolávamos ela se entretinha a revistar-me os bolsos. Olhei-a com raiva nos olhos. Continuava deitada, serenidade pérfida, sorrindo e sacudindo a barbatana da cauda, as escamas desenhando-lhe a curva das ancas e o farol dos olhos acendendo e apagando. Arregalei os olhos e ia exigir que me devolvesse, mas antecipou-se e estendeu-me a mão em cobrança.

Não se brinca com o salário de um homem, eu ia adverti-la, preparando- me para esganá-la, mas ela já tinha tossido três vezes, comunicando com os comparsas. A porta abriu-se e dois vultos que pelo tamanho pareciam gorilas, surgiram. Cobrado e roubado, aproveitei a porta aberta, arranjei passagem entre os fulanos e escapuli-me.

Tropecei num rato quando saí apressado, ainda a abotoar a camisa. Cheguei a casa com a consciência mais suja do que o corpo. A minha mulher que não dorme antes de eu chegar, serviu-me um banho, um prato quente, e deitou-se, disponível para me servir o resto. Eu estava sujo e arrependido. Não quis sujá-la.

“Sabes, este mês o salário vai atrasar” menti.

“Não faz mal, vou receber xitique”, tranquilizou-me com a efi ciência de sempre.

Adormeceu. Passei a insónia toda a contemplá-la a beleza. Mãos dóceis. A pele sem o disfarce de pinturas. O cabelo docemente crespo, enfeitado num lenço à cores. Parecia uma sereia, uma sereia que abaixo da cintura, no lugar de escamas reluzentes e barbatanas, tem calos, e um suave brilho colorindo a capulana.

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