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Ouro mata em Manica

À procura de ouro para a comercialização os garimpeiros ilegais estão a morrer soterrados, vítimas de acidentes de trabalho por aluimento de terra e rixas em disputa de minas de ouro. Há já registo de mais de 17 mortos desde o ano passado mas admite-se que muitos outros casos passam sem registo Chimoio.

O jornal Canalmoz escreve que a exploração ilegal de minas clandestinas existentes em mais de 5 distritos da província de Manica, tidas como ricas em recursos minerais, está a semear luto em famílias dos garimpeiros que praticam aquela actividade à procura de ouro e pedras preciosas entre outros minérios de alto valor no mercado.

Segundo apurou o Canalmoz, em reportagem efectuada na província de Manica, nas regiões de Tropa, distrito de Macossa, rio Luenha, em Gurro, Meguawala e Caeredzi, em Báruè, Chiua, Mimosa, rio Muherena, Forte Massequessa, Manjakata, Femba, Burundi e Nhakuarara, em Manica, distrito Minas Gerais, Tsetsera e Chimanimani, no distrito de Sussundenga, a prática de garimpo clandestino tem, regularmente, ceifado vidas, devido ao desabamento de terra e outros acidentes de trabalho, bem como fruto de rixas entre grupos.

Este ano há registo de 17 mortes. O ano passado, sete (7) pessoas morreram vítimas de aluimento de terra quando se encontravam a extrair ouro no interior de uma mina na região de tropa no distrito de Macossa, numa altura em que acabavam de descobrir a existência de ouro naquela área. Ainda o ano passado pelo menos 2 pessoas morreram nas minas de Chiua e Chimanimani, nos distritos de Manica e Sussundenga, por causa de agressões físicas por parte dos garimpeiros e fiscais de reservas de Chimanimane.

Alguns garimpeiros já estabeleceram suas cabanas ao longo da Estrada Número Um (EN1), na zona de Tropa e noutras regiões onde a prática do garimpo é intensa. As cabanas são feitas com consentimento das autoridades, mas as autoridades também não intervém para destruí-las. Alguns garimpeiros entrevistados pela nossa reportagem, alegam que pelo meio há muita criminalidade, com malfeitores a furtarem dinheiro dos compradores de ouro e mesmo ouro depois de comprado. Morre-se em defesa do ouro. Já existe em Manica uma espécie de “Estado dentro do Estado”.

Outros casos frequentes registados nas minas de ouro da província de Manica são homicídios por dinheiro, visto que a maior parte das ocorrências ocorre durante a compra de ouro. “As pessoas são sepultadas no local onde perderam a vida para não se denunciar este segredo”, confirmou o secretário da comunidade de Tropa-Macossa, Augusto Bene Bolaco. A fonte afirmou ainda que os malfeitores geralmente não são residentes da região, fazem-se passar por vendedores de ouro, levam os compradores a percorrer longas distâncias como que estivessem a se dirigir à zona onde se encontra o produto e a meio do caminho tiram-lhes a vida.

No distrito de Manica, em Chiua, Chimanimane e Sussundenga, há registo de vítimas que foram mortas quando tentavam assaltar e levar ouro e algumas pedras preciosas, com recurso a armas de fogo. São mortas pelos próprios garimpeiros. Martinho José, garimpeiro da região de Forte Massequece, em Manica, avança que os principais mentores de actos criminais nas minas de ouro da província de Manica são, no geral, colegas seus munidos de armas de fogo. Está assim confirmado que já existem grupos armados para defesa do garimpo.

As autoridades continuam à margem, ou envolvidas porque comprometidas como ainda resta saber. “Do ano passado para cá, duas pessoas foram mortas quando efectuavam compra de ouro em Forte Massequece. Estas pessoas foram sepultadas no local onde perderam a vida”, disse Martinho José, garimpeiro há sete anos em Manica. Entretanto, diz que “para garantir a ordem e segurança públicas foi já escalado um agente da Polícia da República de Moçambique (PRM), e as condições estão a melhorar”, disse a fonte, sublinhando que os casos deixarem de ser frequentes. Duvida-se da eficiência mas é uma opinião.

O Canalmoz acrescenta que entretanto, a prática do garimpo ilegal gera também poluição das águas dos rios em Manica. Devido à lavagem dos solos durante o garimpos a água nos principais rios que fornecem água para o consumo humano, está a ficar afectada e a tornar-se imprópria para consumo humano, devido sobretudo ao mercúrio. A título de exemplo, a água do Rio Revuè, mais propriamente na albufeira da Barragem Hidroeléctrica da Chicamba, de é bombada para três municípios da província de Manica, está a tornar-se turva como consequência da lavagem de ouro. A hidroeléctrica pertencente à empresa pública Electricidade de Moçambique (EDM).

Na Chicamba e Mavuzi, a jusante, é gerada a energia eléctrica que abastece a Região Centro do País e ainda Mutare, no Zimbabwe. Na lavagem deste mineral usa-se o mercúrio, um produto de natureza química. Não se descarta a possibilidade de a água indispensável para a vida esteja a ser afectado. Várias espécies de animais aquáticos existentes na barragem estão mais directamente sujeitas a um verdadeiro atentado ao sistema ecológico. O barbo, peixe existente abundantemente nesta albufeira é uma espécie em risco devido à poluição da água. É um prato predilecto das populações da província. Atrai inclusive muitos comerciantes para a zona afim de levaram para venda noutras províncias do país.

Perdas agrícolas

O garimpo na província de Manica está também a prejudicar a produção agrícola na região. Os garimpeiros ilegais têm vindo a invadir áreas agrícolas à procura de ouro. Sem fazer menção às áreas e culturas que terão sido devastadas na sequência da exploração ilegal de minerais, principalmente ouro, os Serviços Distritais de Actividades Económicas de Manica, no seu registo estatístico oficial, revela que simplesmente a meta de produção agrícola estabelecida para as campanhas anuais não está a ser alcançada e aponta-se como uma das razões a ocupação ilegal das áreas de cultivo por garimpeiros.

Das 1.045.940 toneladas de culturas diversas projectadas para a época passada, apenas foi possível colher 124.698 toneladas, sendo esta actividade responsável pelo não cumprimento das metas traçadas. O garimpo está a afectar a produção agrícola em toda a província. A exploração desregrada de recursos minerais está a servir para o Governo alegar que não há produção agrícola como se planeia por causa do garimpo.

Mas Manica continua com amplas áreas não cultivadas e o acesso à terra continua a ser dificultado pelas autoridades. Alguns agricultores alegam, no entanto, que deixaram de produzir hortícolas devido à contaminação das suas plantas por produtos nocivos, resultantes da contaminação da água de rios usadas para a lavagem de minerais e que foram aplicadas na rega. Atracão turística comprometida por garimpo A governadora da província de Manica, Ana Comuane, que esteve de visita ao sector dos recursos minerais da província, revelou que a forma como a situação de garimpo ocorre retrai o investimento na região. Nas áreas de conservação turística e ambiental, Comuane sublinhou a extracção mineira em Manica como um desafio constante. O garimpo não só é praticado por moçambicanos. Também há zimbabweanos envolvidos. Esta informação foi revelada pela própria governadora de Manica.

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