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Os órfãos do golo

Os órfãos do golo

As estrelas que colocaram a bandeira e a nossa adrenalina aos níveis mais altos devem ser homenageadas em vida. De um passado recente, o Estado moçambicano conserva uma dívida para com Chiquinho Conde, cujo fim de uma carreira ímpar não pode ficar sem uma homenagem à altura do grande capitão que foi. É a figura de proa. Outros, certamente, merecerão tratamento de distinção, no futebol e noutros desportos. Mas se este tipo de homenagem é algo que se impõe, mais importante ainda é o apoio social e humanitário a estrelas que envergaram a camisola da Selecção Nacional e que hoje vivem na indigência. Isso sem esquecer os que morreram sem direito a um caixão condigno, custeado pelo Estado, após nos terem dado anos de glórias.

O que aconteceu com José Luís, para muitos o maior guarda-redes moçambicano de sempre é elucidativo. O “Zé Gato” contraiu uma grave doença pulmonar e foi submetido a uma operação no País. A Junta Médica entendeu (e bem) que ele se deveria deslocar a Portugal para um nível de assistência melhor. Viajou amparado pela esposa, mal se podendo movimentar sozinho. Três meses depois regressou curado, mas com recomendações expressas de repouso absoluto.

O brilho dos seus feitos anteriores, a pressão pela presença de um guarda-redes do seu nível em Manica e a total ausência de outra forma de sobrevivência, fizeram com que regressasse aos postes quase de imediato, contrariando orientações médicas. Resultado: faleceu poucos meses depois. Teve um fim e um funeral “provinciano”, ele que em vida foi das mais reluzentes estrelas do país.

Dos mortos que não reza a história…

Aos poucos, vão surgindo notícias de mortes de grandes estrelas, outrora disputadas pelos clubes, que desaparecem entregues a si próprios e aos familiares que os não abandonaram. Dos fãs, dirigentes de Clubes e Associações, por vezes nem um simples gesto de reconhecimento.

Morreram sem o apoio básico para a compra de uma urna por parte de que os idolatrou, atletas como Wiliamo, Betinho (irmão de José Luís), Estêvão e Basílio, todos eles guarda-redes dos Mambas.. Na miséria, sem assistência médica condigna, entregues a si mesmos. Também estrelas como Rui Marcos, um “cérebro” do meio-campo e em quase uma década capitão da Selecção, Zabo, Edmundo, Dover, Jerónimo, Luís Parruque e Rui Jonas, deixaram o mundo dos vivos sem que alguém se lembrasse de fazer um registo, na Federação ou no clube, destes homens que pelo seu talento se tornaram referências para todos nós, ao longo de décadas.

Nasceram, passearam o seu talento, encheram com a sua arte o Estádio da Machava e outros campos. Depois percorreram incógnitos a dura jornada pós-futebol, modalidade que não lhes permitiu o acumular de quaisquer economias. Desapareceram do mundo sem um cartão ou um título honorífico, como sinal de reconhecimento ao seu talento. Afinal, eles eram “quadros” deste país, atingiram o “pico”. Isso não merece um reconhecimento oficial, nem que seja pelo que fizeram para aumentar a nossa auto-estima e orgulho?
É o chamado mundo-cão do pontapé na bola. Enquanto se marcam golos, as luzes da ribalta estão abertas e convidativas. Quando o peso dos anos começa a impor as suas regras, resta o recurso a profissões ou actividades de recurso, à caridade dos que ainda deles se lembram, à mão estendida ou aos negócios escuros.

… “aos vivinhos da selva”!

A Segurança Social, que pretende proteger os trabalhadores após vários anos de trabalho, é ainda “letra-morta” quando se trata de desportistas e de futebolistas em particular. É uma profissão que (sobre)vive no sub-mundo, em que os valores muitas vezes são entregues por debaixo da mesa.

Enquanto jovens, são eles que alegram as multidões, que trazem alegrias ao país. Quando as pernas se começam a vergar ao tempo, sobra o “salve-se quem (e como) puder”. Surge a geração dos órfãos do golo, aqueles que por dever de profissão foram muito cedo obrigados a abandonar os estudos não tendo o ensejo de abraçar outra forma de se prepararem para a vida.

Assim, o mais comum é “despacharem-se” para a orientação das camadas jovens os ex-atletas que ainda denotam alguma capacidade para transmitirem algo, rumando para o desemprego os outros. Os contratos não são renovados, eles tentam, como última instância, fazer valer os seus créditos em equipas de menor expressão, apenas para manter algo para o sustento básico.
Depois…

Os que ainda beneficiaram de um apartamento, fruto de um contrato quando estavam no apogeu, optam por alugá-lo, de forma a garantir o pão e… o copo. A desgraça total vai-se aproximando a passos largos, muitas vezes envolvendo esposa, amante e meia-dúzia de filhos. É um retrato que se repete um pouco por todo o lado.

Maenga, o lateral direito do Matchedje, que actuou na Selecção Nacional, é um dos jogadores que se encontra em situação difícil. Regressou a Manica, sua terra de origem, vive do que lhe oferecem, sem perspectiva senão a do copo-nosso-de-cada-dia. Fez muito pelos militares – era conhecido como o canhão sem recuo –  e actuou várias vezes pelos Mambas. Diz-se que Ramos, ex-Costa do Sol, um médio-maravilha, também está numa situação idêntica, portanto difícil. 

Culpas divididas

Não é justo culpar-se apenas os clubes, como entidades empregadoras, tal como as Associações e Federações que são os “donas” das Selecções. Talvez o Estado tenha as suas doses de culpas, pela ausência de uma política laboral para os desportistas, que são, na realidade, profissionais encapotados. Isto é: vivem como profissionais, ganham como semi-profissionais e agem com amadores.

Há exemplos de muitos futebolistas que ao longo das carreiras, mesmo com o rigor dos estágios e deslocações, nunca deixaram de lado o exercício de uma outra profissão e a progressão na carreira estudantil. Poucos exemplos, mas bons, que podemos citar: Gil Guiamba, Nuro Americano, Frederico, Ângelo Jerónimo, Adelino Caldeira e Ahmed, entre outros.

A integração dos clubes em empresas, medida decretada pelo Governo há mais de duas décadas, tinha por finalidade a absorção progressiva de alguns dos ex-atletas. Justiça seja feita, por exemplo, à Electricidade de Moçambique e LAM, onde atletas de várias modalidades foram enquadrados, nalguns casos em lugares de responsabilidade.

Mas…

Da parte dos ex-jogadores, nem sempre o enquadramento é fácil. Praticamente iletrados, hábitos e até vícios de “grandes-senhores” adquiridos quando brilhavam e encantavam, bajulação dos fãs, estatuto social acima da média. A isso juntam-se viatura, roupas caras, por vezes “pitas” por todo o lado, a completarem o cenário. Como manter este nível de vida, quando não mais se é convidado a renovar o “chorudo” contrato?

As respostas a este grande problema, que abrangendo a sociedade em geral ganha um acento tónico nos futebolistas, têm que ser dadas através de obrigações básicas nos clubes, a partir das camadas jovens: consciencialização quanto à carreira curta do pontapé na bola; austeridade quando se ganha muito dinheiro investindo-o em coisas úteis; vida regrada e pensamento sempre presente na era pós-futebol.

Como ponto de partida, claro, a materialização do sonho da organização dos jogadores de futebol, há muito propalada, para defender a classe e criar condições para erradicar, nas próximas gerações, a presença desta autêntica vergonha para os desportistas que é o surgimento dos órfãos do golo

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